| Samantha Ciuffa |
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| A corretora Márcia Almas ainda vai ao supermercado com cautela |
A corretora de imóveis Márcia Almas, 54 anos, tem comprado com mais cautela neste ano, mas não deixa de ir ao supermercado, de abastecer o carro e de pagar suas contas em dia. Apesar do cenário de retração econômica, os moradores de Bauru, incluindo Márcia, continuam consumindo na cidade, com potencial para gastar R$ 9,204 bilhões no comércio e em serviços em 2016.
É o que apontou a pesquisa IPC Maps, que traçou o mapa do consumo dos municípios brasileiros para este ano. No estudo, elaborado pela empresa especializada em informações de mercado IPC Marketing, Bauru aparece como a 14º. cidade com maior poder de consumo no Estado e a 53.º no Brasil.
Mas, justamente por considerar o momento de crise, o montante estimado é cerca de 7% menor que o de 2015, quando a capacidade de consumo do bauruense foi calculada em R$ 9,887 bilhões. No levantamento, foram analisadas as principais categorias de produtos, que incluem alimentos, artigos de limpeza, mobiliários e vestuário, além de despesas com transporte, saúde, educação, recreação e manutenção do lar.
Com base em cruzamentos de dados do Produto Interno Bruto (PIB), população e renda das famílias, descobriu-se que o consumo em todo o Estado deverá ser de R$ 1,064 trilhão em 2016 e, no Brasil, de R$ 3,887 trilhões. Responsável pelo estudo, Marcos Pazzini aponta que, nestes dois cenários, também houve registro de queda nas estimativas.
“Mas esperamos que, em 2017, a situação comece a melhorar. Por enquanto, o consumidor está pensando muito antes de comprar”, analisa. É uma prática adotada há um bom tempo pela corretora Márcia.
Cautela
Embora seja autônoma e não esteja sob a ameaça do desemprego, a incerteza sobre a renda ao final do mês a faz manter a cautela. “No supermercado, quando necessário, corto o que é supérfluo e substituo produtos por marcas mais baratas. Faço o esforço para não correr o risco de ficar endividada”, ensina.
No IPC Maps, a alimentação dentro de casa aparece como o segundo item que mais deve corroer a renda do bauruense em 2016, atrás apenas da manutenção do lar, que incorpora despesas com aluguel, luz, água, gás, telefone, internet, TV a cabo e pequenos reparos domésticos.
Para o diretor regional da Associação Paulista de Supermercados (Apas) em Bauru, Emerson Svizzero, apesar de o consumidor estar mais precavido, o setor já começa a dar sinais de recuperação. “Nos últimos dois meses, já percebemos pequenas melhoras, consumidores voltando a comprar as marcas que mais gostam, mas ainda que de olho nas promoções. E os supermercadistas já estão começando a contratar mais do que demitir”, pontua.
Classe B: a ‘campeã’
Em Bauru, segundo o IPC Maps, a classe B deverá ser responsável por quase metade (47,2%) do que os moradores irão desembolsar no varejo até o final do ano. Segundo Marcos Pazzini, isso ocorre porque este segmento populacional conta, ao mesmo tempo, com renda relativamente elevada e considerável número de habitantes – o equivalente a 33,3%. “Em âmbito estadual e nacional, a classe B também é a que tem maior potencial de consumo”.
Perda de renda do bauruense ainda é preocupante
Ainda que as perspectivas possam ser boas para o setor supermercadista, o economista Wagner Ismanhoto salienta que o endividamento da população e os índices de desemprego permanecem como desafios para a retomada do crescimento da economia. No IPC Maps, a perda de renda do bauruense fica evidenciada pelo ingresso de 2,6 mil famílias nas classes D e E neste ano.
“São as mesmas famílias que, no passado, haviam ascendido à classe C e, agora, estão regredindo socialmente. Estamos percebendo que esta mobilidade, calcada no endividamento, foi uma melhoria ilusória da qualidade de vida destas pessoas”, frisa.
O economista avalia, no entanto, que a perda do potencial de consumo na ordem de 7% não é tão drástica diante do cenário atual. Para ele, o fato de Bauru contar com uma economia diversificada, não dependente de apenas um ramo, deu mais condições para que a cidade sobrevivesse a este momento de crise.
“A situação no Brasil, contudo, não é boa, e deve continuar desafiadora ao menos pelos próximos dois anos, com medidas muito duras do governo, de arrocho, até colocar ‘a casa’ em ordem”, adianta.
Maior parte dos gastos é com a manutenção do lar
O IPC Maps revelou que a manutenção do lar deve responder por 27,2% do total de gastos previstos pelas famílias bauruenses. Mas, quanto mais pobres elas são, maior o comprometimento da renda. Nas classes D e E, a manutenção do lar deve representar, sozinha, 36% do total de despesas.
Se incluídos os gastos com alimentação (fora e no domicílio), transporte urbano e medicamentos, o montante sobe para 67,5% entre as classes menos abastadas. “É esta população que acaba sentindo muito mais os efeitos da crise, porque, além de ser mais afetada pelo desemprego, acaba tendo de restringir sua renda apenas ao atendimento de suas necessidades básicas”, pontua Marcos Pazzini.
A classe C, também penalizada, estima reservar 59,3% do que recebe para a manutenção do lar, alimentação, transporte urbano e medicamentos. Já para a população classificada dentro da classe A - a única em Bauru que registrou aumento do potencial de consumo entre 2015 e 2016 -, a garantia destes mesmos itens não ultrapassa 35% da renda.
