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Pitanguy inigualável

João Gabriele
| Tempo de leitura: 3 min

Atualmente, é muito comum ouvirmos que ninguém é insubstituível. No entanto, nos anos que passei ao lado do professor Pitanguy, descobri o contrário. Assim como nunca existirá outro Leonardo da Vinci ou Beethoven, acredito que o mesmo se aplica a Ivo Pitanguy. Muitos médicos são conhecidos por sua destreza cirúrgica: alguns são referências em diagnóstico, outros se destacam pelo seu conhecimento da ciência, mas dificilmente encontramos algum que detenha conjuntamente todas estas qualidades. Mas o professor Pitanguy tinha todas estas, associadas ainda a uma generosidade e um carisma inigualáveis.


Era um médico que conseguia reunir todas essas virtudes e também dividir toda a sua experiência com as centenas de alunos que puderam conviver e aprender seus ensinamentos. Era um amante da arte, da cultura, da vida. Não bastasse seu talento e brilho próprio, resolveu também compartilhar seus ensinamentos com o mundo. Seus ensinamentos iam muito além da cirurgia plástica. Sob sua tutela aprendemos que a medicina não é somente uma ciência. Aprendemos a tratar primeiramente o indivíduo e não apenas a queixa. “Sempre podemos oferecer algum alento ao doente” dizia ele.


Uma pessoa com todas estas qualidades tinha ainda uma vitoriosa história de vida e valores éticos que somente homens de bem podem ter. Pitanguy virou sinônimo de cirurgia plástica e levou o nome do Brasil mundo afora, transformando o País em referência mundial nesta área. Foi ele quem elevou a cirurgia plástica, antigamente considerada um ramo menor e menos importante da medicina, para a importância que hoje tem esse segmento. Reconhecido pela excelência de seu trabalho, sempre atuou com dedicação e seriedade. Sempre fazia questão de ressaltar que quando trabalhamos com amor, não sentimos o peso do ofício. Ele era o exemplo perfeito disso. Sempre muito forte e disposto.


Suas técnicas, que hoje servem de base para todos os procedimentos da cirurgia plástica, foram ensinadas a todos aqueles jovens cirurgiões que chegavam à sua clínica, ávidos por conhecimento e aprendizado. Criou uma enfermaria na Santa Casa do Rio de Janeiro para atender a população carente que o procurava. Não se limitou a atender a alta sociedade em sua clínica na bucólica Rua Dona Mariana, que agora será ainda mais saudosa.


Nos anos que estive sob sua orientação, pude conhecer o mito e o homem. Sinto-me muito honrado de ter convivido com uma pessoa tão iluminada. Com ele, aprendi que a cirurgia trata do corpo, mas também da alma. Como cirurgiões plásticos, somos considerados como uma espécie de escultores, mas, ao contrário do artesão que trabalha com a argila, temos a limitação da anatomia de cada paciente, temos um ser humano em nossas mãos. Cabe a nós encontrar e ressaltar a beleza e o equilíbrio de cada um.


Encerro esta carta com o mesmo discurso de improviso que fiz pessoalmente ao professor Pitanguy, quando fui orador de minha turma de residência, em 2004. Obrigado, professor, por ter nos dado oportunidade de receber um pouco do seu conhecimento e pela confiança que nos concedeu para tratar seus pacientes. Obrigado por nos ensinar a voar. Vá com Deus e descanse em paz, professor!


O autor é cirurgião plástico (CRM 99517) e aluno do professor Pitanguy, de 2001 a 2004

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