Articulistas

Abençoado

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Minha mulher tem a besta mania de querer tudo combinando em mim. Calça listrada com camisa xadrez jamais; verde com amarelo ou azul  nem  pensar; mesmo que seja para  participar de passeata cívica. O segredo, ela me diz, em péssimo francês, é combinar “ton sur ton”. Traumatizado, não mais sei o que pegar no guarda-roupa. Erro sempre. “Troca essa calça ou troca a camisa, as duas coisas juntas, impossível. Comigo você não sai assim, quer me matar de vergonha?” Num mundo, onde nada combina com nada e ninguém se entende com ninguém  por que  eu tenho que estar perfeitamente combinado? De vez em quando,  bato o pé , falo grosso e saio do jeito que  quero. Sei o preço a pagar, ela fica bicuda  uma semana, depois tudo se ajeita. Tenho  que me defender,   afinal não sou um rato,  sou um homem, descombinado, mas sou.


“Cada vez que você toma café, tem que pegar uma xícara limpa? “Tem seis  sujas na pia, vai sujar mais essa?”  Não discuto, sei que  ela tem  razão. Reconheço, sou um caso perdido, ontem mesmo saí com um pé de sapato vermelho e outro amarelo. Mas  como manter um fiapo de romantismo conjugal quando se toma tanta alfinetada? Quando nos casamos,  tudo de errado que eu fazia era engraçadinho e a repreensão, sempre doce,  acompanhada de um beijinho. “Benzinho, você derrubou aguinha no banheiro”. O tempo passou, “aguinha” virou “lagooooa” e  beijinho, um sonoro desgraçaaado!


Recentemente, ela resolveu pintar a casa, a cor da área não tá combinando com a  do muro, tá faltando “ton sur ton”, ela disse. Exatamente por isso, a minha vida se complicou de vez.  Dos orçamentos apresentados, ela escolheu o mais caro. Valia o investimento, o pintor, indicação especial  de uma amiga dela, era um profissional competente,  e, melhor ainda, um homem religioso. Isso constatei logo no primeiro dia, ele trazia, junto com os pincéis, uma bíblia. Mas  logo também constatei que ele tinha o mesmo  defeito de todos os pintores, pedreiros, encanadores... Era só eu  pôr a cara na área,  vinha  um pedido: “Professor, vou precisar de mais um galão de massa corrida”. Por que essa gente pede tudo aos poucos?    


Contrariado, comprei o solicitado. Na volta, ao lhe entregar a massa corrida, ele me surpreendeu: “Professor, obrigado, Deus  abençoe o senhor e toda a sua família”. Fiquei sensibilizado, até me emocionei. Num mundo de tanto desamor, é bom saber que ainda existem  pessoas  fraternas. Tivéssemos todos a mesma  religiosidade desse pintor, o mundo seria   cor de rosa, pintado com  paz e harmonia.


O problema é que ele me fazia esses pedidos  pelo menos quatro ou cinco vezes  por dia. E a cada entrega,  agradecia-me do mesmo jeito e com o mesmo fervor: “Professor, Deus abençoe o senhor e toda a sua família”. Comecei a ficar de saco cheio. Pudera, não existe cristão no mundo que consiga suportar tanta bênção assim. Ficava irritado quando  ele me pedia  qualquer coisa: sabia que seria abençoado outra vez. Minha vontade era mandar aquele santo pintor pro inferno. Isso, contudo, me deixava muito mal, estava sendo injusto e ingrato com quem só queria o meu bem e o de toda a minha família. Mal ele começava a frase abençoada, eu fugia para dentro de casa pra não responder besteira. Só que  fugindo do pintor,  eu  caía nas mãos da minha mulher, que já me esperava com todos os alfinetes possíveis. Estava perdido, ele me abençoando e  ela me amaldiçoando,  o céu e o inferno, tudo ao mesmo tempo.


Sexta-feira passada, ela implicou com os meus tênis. Estavam deformados, uma vergonha, e   não combinavam com a calça que eu vestia. “Calça social de casimira com tênis? Você não aprende mesmo!” Estressado, fui grosseiro  e a mandei para um lugar que ela não merecia. Saí xingando, bati a porta. Na área,  o  pintor santo já  me esperava, mais  um galão de selador. Quase o fuzilei com o olhar, mas  fui buscar a merda do selador.


Na volta, comecei a sofrer,  pensando na nova bênção. Não deu outra, ele me abençoou. Saí apressado, nem  agradeci, mas ele me chamou novamente: “Professor...”  O que, agora, ele queria de mim?  Paciência tem limites. Saco!!! Virei  bicho,  pronto para estrangulá-lo. Antes disso, ele terminou a frase: “Professor, o seu tênis está com o cadarço desamarrado...” Deus meu!, agora eu estava definitivamente perdido,  ele também começava a prestar atenção em mim. Pirei.


O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras. curso_romag@uol.com.br

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