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"Venha contar as estrelas comigo"

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

Samantha Ciuffa
A constelação de afeto entre o músico e produtor Josiel Rusmont e João Vitor e Giuseppe virou canção: “3 Céus”

Os filhos das novas gerações têm à disposição comportamentos afetivos, de vínculo e participação paterna que, nem sempre, foram acessíveis aos seus genitores. Aliás, os bebês das novas gerações ainda tendem a recuperar ou desabrochar, de certa forma, ternura em seus avós e dar a estes a chance de compartilhar emoções que, nem sempre, eles exerceram com sua prole.
Nesse dia dos pais, a relação familiar está posta em muitos lares sob outros patamares e os vínculos vão além do compartilhamento de tarefas e cuidados com os bebês com as mães e incluem, para a graça de muitos, troca de saberes, sabores, cheiros e muita, muita emoção. Sim, foi muito fácil encontrar personagens que exercitam a afetividade, vínculos, para simbolizar, em homenagem e reflexão, o dia dos pais deste novo domingo de 2016.

E como a lista de indicações de relacionamentos entre pais e filhos com vínculos emocionais, afetivos e de dedicação de tempo permanente se fez extensa, como em todo recorte, seguem alguns desses inúmeros personagens para a representação, essencial, do encontro além do umbilical, realidade que vai fazer a diferença na construção da serenidade, afetividade, equilíbrio emocional e assertividade das novas gerações, conforme psicólogos.

Josiel Olímpio é pai por escolha de vida e vocação. Para “sentir” afeto e noção de responsabilidade, entrega, na missão que ele assumiu em relação a Giuseppe Olímpio, 5 anos, e João Vitor Olímpio, 13 anos, basta observar os três juntos por algum tempo. Músico, produtor e compositor, Olímpio, evidentemente, se vale do afloramento natural dos sons para mergulhar nessa tríade de afetividades.

“O Giuseppe e o João Vitor são bem musicais. O Giuseppe tem facilidade com letras e melodias e o João Vitor gosta de batuques, de baqueta, desde os primeiros meses de vida. Ele vai ser baterista”, arrisca o pai em sorriso franco.

E é preciso escrever que a relação entre eles a partir da sonoridade é espontânea. Evidentemente, o fato do pai ser compositor e instrumentista deu aconchego à relação. “Em casa se ouve muita música, mas eles demonstram esse gosto naturalmente. E, independentemente, acho que música permite acessar esse universo sensorial, ajuda a desenvolver percepções. E eu não iria deixar de contribuir com isso na vida deles.”, aborda.
Josiel participa ativamente do desenvolvimento dos filhos. Sua rotina inclui revezar com a mãe, que é psicóloga e também trabalha fora, as ‘obrigações’ com escola, cuidados com alimentação, vestuário, hora de brincar, etc. Mas, além dessa ‘cartilha’, a conexão entre Josiel, João Vitor e Giuseppe pode ser sintetizada por afeto. Eles se tocam, se olham, trocam energia, sensações de vida.

Entre um encontro paternal e outro, nessas andanças de vida entre os três, Josiel foi chamado pelo filho, a conhecer os três céus que Giuseppe descobrira ao observar a noite. Da explicação do pequeno, então, surgiu a primeira frase da canção do disco “3 Céus”, escrita por Olímpio, e que foi emprestada, em manchete, para estabelecer o elo lúdico da reportagem: “Venha contar as estrelas comigo”...

O psicanalista e sensitivo João Rosa faz a síntese entre pai, filho e o tempo: “O amor paternal ficará gravado em sua alma. Então não desperdice seu tempo e diga ao seu pai que o ama todos os dias. Pois será ele que te passará segurança para o futuro”. 

A missão de construir relações afetivas

O técnico de sistemas José Alex Garcia tem uma rotina frenética na empresa. A esposa, Flávia, tem uma jornada atribulada na imobiliária onde trabalha. E a convivência com as filhas Nathália, 15 anos, e Beatriz, 4 anos, como fica?

Para “driblar” o tempo e participar da vida das filhas, Alex se ajustou. “Hoje eu trabalho das 13h às 22h, o que me permite dividir com minha esposa o preparo ou do café da manhã ou da roupa ou lanche das meninas para a escola e até o horário do almoço. Minha esposa leva na escola e eu pego elas”, conta.

O pai conta que “a vida é corrida, mas é necessário achar esses ajustes para acompanhar o desenvolvimento delas. Eu já troquei fraldas também da primeira filha e acho fundamental participar das brincadeiras da Beatriz e ir acompanhando seu crescimento”, conta Alex enquanto acomodava o joguinho de pescaria da pequena de 4 anos na sala.

E o que significa isso para ele? “É gratificante e, além de gostoso, é um aprendizado para mim. O mundo das crianças é especial e isso também ajuda muito a desenvolver afeto. Eu compreendo que meus pais não tiveram esse tempo. Mas, até por isso, pela falta que tive, não posso deixar de sentir isso com elas”, responde.

Wilson Carneiro, que trabalha na Prefeitura de Bauru, tem no filho único Leonardo Martins, 21 anos, seu referencial de amizade. Participante ativo do cenário do futebol amador nos bairros há anos, Wilson mudou, inclusive, sua rotina como técnico de clubes de periferia para acompanhar o filho.

“Eu sempre treinei times que jogam no Campeonato Amador aos domingos. Mas mudei isso para poder estar com ele no campeonato que tem os jogos aos sábados, na Liga Bauruense (LBF 2). É muito bom acompanhar meu filho, ir com ele junto, ele como jogador e eu como técnico. É uma atividade gostosa, que faz bem”, conta.

Carneiro destaca que cada fase é uma coisa nova. “Quando moleque ele tinha outras coisas que gostava além do futebol e cada fase é uma surpresa. Eu tenho só ele e gosto de participar. Neste momento ele está estudando para tentar outro vestibular, porque não gostou de engenharia e voltou para o cursinho para tentar medicina. E estamos juntos na luta, na vida sempre”, afirma.

Leonardo tem outra preocupação. Além da preparação no cursinho, ele busca uma oportunidade de trabalho. “É um menino bom, esforçado e estudar é algo tão importante quanto ele ter uma chance de trabalho porque amadurece e prepara para a vida”, defende o pai, ao lado do filho.

Marcelo Escudero, motorista, achou um jeitinho de conciliar trabalho e família com um resultado de dar inveja a muitas famílias que quase não se encontram. Eles almoçam diariamente juntos, à mesa. Sorte de Bruno da Rocha Escudero e Rafael da Rocha Escudero.
Como a mãe é professora, Marcelo faz a preparação dos alimentos para o almoço do dia seguinte à noite. “Deixo no jeito o que leva mais tempo e chego antes no almoço para cozinhar. Além de gostar de cozinhar acho esse encontro mito importante. É na mesa que resolvemos alguma coisa, esclarecemos algo, conversamos sobre nós”, comenta.

Escudero e esposa agradecem ao tempo de encontro com os filhos. “Para nós é um privilégio, porque muitas famílias não conseguem tempo para o convívio. Nosso encontro diário é fundamental. Acho que as famílias mais desagregadas, além da falta de tempo, têm falta de respeito, de orientação entre pais e filhos”, acrescenta.   

Psicóloga aborda o ‘pai presente’

Marilene Krom, psicoterapeuta, mestre e doutora em psicologia clínica, discorre sobre as transformações históricas e sociais que mudaram o papel das mulheres e repercutiram no papel masculino e nas famílias, promovendo  mudança ainda em curso no papel do pai. 

“O papel do homem mudou, trazendo a liberdade de ser sensível e expressar suas emoções afetivas e ser mais participativo no cuidado com sua família. É interessante observar que não se nasce pai, torna-se pai. Criar e cuidar de uma criança são tarefas árduas que exigem esforço, tempo, dedicação, paciência,  e  sobretudo aprendizagem”, comenta.

Em razão disso, Krom  defende a divisão de papéis “Exercendo a função de cuidado e proteção se cria a possibilidade de se rever a nossa própria infância e realinhar nossos valores e crenças”, diz. Para a especialista, os pais estão sim mais participativos e compartilhando aspectos da vida de suas crianças.

“A literatura aponta que a participação efetiva do pai ou de uma figura masculina que exerça esta função, na vida de um filho, pode promover maior segurança, autoestima, independência e estabilidade emocional. Devemos ressaltar que os estudos mostram que o homem contribui de forma única com os filhos”, cita.

De outro lado, a psicoterapeuta salienta que crianças que não convivem com o pai na mesma casa não estão, de forma alguma, condenadas ao fracasso. Para quem tem a oportunidade de organizar o tempo com o filho, ela sugere que “separar um tempo para brincar, ler, estudar e conversar com os filhos, mostrar o mundo masculino que é importante para a criança. Este novo pai que surgiu pode participar e assumir, o que vemos hoje, assumindo sozinhos a criação de seus filhos”.

Por fim, sobre escassez de tempo para a convivência comum, a psicóloga clínica assenta que é preciso fazer opção para ser pai. E, ainda que este ‘tempo’ seja pouco, no relógio, ele precisa ser afetivo, intenso, qualitativo. “Importante é  assegurar a qualidade do vínculo, considerar  sobretudo a etapa de desenvolvimento que está o  filho. Quais são suas necessidades e interesses e buscar um contato mais pessoal olho no olho, sentar para conversar, dar atenção à pessoa, se interessar realmente”, finaliza.

Veja o vídeo:

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