Tribuna do Leitor

Não sou nada

Paulo Neves ? diretor de teatro do Curso Paulo Neves, professor de História
| Tempo de leitura: 2 min

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa que me perdoe, mas tenho comigo, que a esta altura do campeonato nunca serei nada/não posso querer ser nada. A parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo, ainda tenho!

Em um mundo de mimados e mimadinhos, num mundo de ostentação e vazio, num mundo, que o valor está na discussão do nada, já repararam, frases soltas, como abaixo, pronto aqui esta a filosofia de todo mundo, ou, “fora”, sintetiza tudo o que as pessoas pensam, em mundo em que a procura do Pokémon virou febre. QI esfarelou-se. Em um mundo que cada vez é mais óbvio: que só políticas decididas e intensas de redistribuição de riqueza, portanto, opostas às atuais, permitirão enfrentar a crise econômica global, que se arrasta há muito tempo.

Janelas do meu quarto, do meu apartamento, ninguém sabe que eu moro ali, mas eu leio que o Mc Donald’s, Bradesco e Globo não pagarão impostos, apesar de lucrarem bilhões com as Olimpíadas, que está nas mãos de uma rede mundial única, eles mandam em tudo, até horários absursos. Isso revela a globalização e a sociedade do espetáculo. E o público bate palmas!

Estou hoje vencido, como se houvesse a verdade. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer. Como tenho pouca irmandade com as coisas, vejo tanta hipocrisia, até a célebre frase “Nossa! Rafaela é da favela”, como se na favela não existisse ninguém, hipócritas! A primeira medalha de ouro, quem sabe, a única, veio da favela... e agora zé mané, tonto, come mortadela e arrota peru, e agora, onde está a sua ostentação? Onde está o seu papo vazio? Você aí no seu troninho, mimadinho, discutindo o quê? Você já foi à luta? Ou você posou para uma fotografia da sua cabeça, que estava lutando, aí todo mundo fala: “Nossa como ele luta!”. E você olha de cima, ostentando uma posição que um dia a terra vai comer... babaca!

“Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso Mas penso tanta coisa!”...

Por favor, parem o mundo que quero descer! Não aguento mais ver as fotos com todo mundo com cara de papel e inclinadinho, parecendo a torre de Piza. Ou ver as mesmas pessoas com o rosto de ascensorista de elevador, cara de alface e ainda mais: contrariado.

Por favor, parem o mundo que não aguento mais ouvir falar em PT, PSDB, PMDB, Lula, Temer, Dilma, mensalinho, mensalão, o podre do Cunha e do resto, esquerda, direita, coxinha, quibe, o que será do Brasil nos próximos anos?

O único amigo acenou-me adeus, gritei-lhe “ó amigo”! E o universo reconstruiu-se sem ideal e nem esperança... e foram felizes por muito tempo! Obrigado, Fernando Pessoa.

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