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Palavras olímpicas (e outras nem tanto)

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

“Não é a cor e não é o dinheiro que faz você ganhar uma medalha. É a garra”. A frase é da judoca Rafaela Silva, ouro para o Brasil na Rio-2016. Não foi a única declaração de impacto dela, conforme amplamente noticiado. Rafaela, negra e alvo de racismo, também disse em alto e bom som: “O macaco que tinha que estar na jaula em Londres hoje é campeão olímpico em casa”. Toma.

Na quinta-feira, também no judô, Mayra Aguiar faturou o bronze, repetindo feito de Londres-2012. “Eu deixaria o corpo no tatame, mas não sairia sem medalha”, afirmou. “Momento é de compartilhar. É muita gente por trás de um atleta. Ninguém se forma sozinho”.

Rafaela e Mayra, só para ficar nas duas, mostraram que uma medalha pode ter efeito multiplicador ainda mais positivo do que a vitória em si. Suas mensagens claras – a condenar preconceitos e a difundir a motivação – são preciosidades.  Puro pensamento olímpico – e sem barreiras.

Souberam, assim, aproveitar a exposição midiática global para transmitir algo mais do que o triunfo do momento. Quando vão além de conquista, baseada em superação física e apuro técnico, ganham a posteridade. Deixam também uma marca intelectual.

Diferentemente do que fez o nadador Bruno Fratus a ser indagado por uma repórter, após prova na qual ficou em sexto, se estava “chateado”. “Não, tô felizão!”, respondeu, mergulhado em ironia. Acabou pedindo desculpas. Mais nada de palavras.

Outro que passou longe de emplacar uma frase merecedora de pódio foi o técnico da equipe de ginástica da França, Thomas Buell. Sobre o rosto das competidoras japonesas, lascou: “Parece um punhado de Pikachus”. Precisava?

Mas espírito esportivo mesmo se faz necessário ao ler declaração do ministro interino da Saúde, Ricardo Barros. Às vésperas do Dia dos Pais, a autoridade levou um puxão de orelha da filha, deputada Maria Victória, por ter declarado – supostamente com base em estatísticas – que homens procuram menos os serviços médicos por “trabalharem mais do que as mulheres”. Em rede social, Maria Victória, 24 anos, mandou ver: “Pai, nós trabalhamos tanto quanto o senhor”.

Como se vê, falar-por-falar-falando-sem-bem-pensar é modalidade que pode render medalha sem valor. Tanto que bem ensina o provérbio árabe: “A palavra é prata, o silêncio é ouro”. Ou se preferirem um ditado oriental, que nada tem a ver com Pikachus: “Os sábios não dizem o que sabem; os tolos não sabem o que dizem”. Rafaela e Mayra souberam o que dizer: ouro. Quanto aos demais, lata.


O autor é editor executivo do JC.

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