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Zumbis em Bauru e do por que os ciscos estão tristes

Luiz Henrique Martim Herrera
| Tempo de leitura: 2 min

É um bosque. O Bosque da Comunidade. Fui ver a natureza, os ciscos. Os principais elementos do cisco são: gravetos, areia, cabelos, pregos, trapos, ramos secos, asas de mosca, grampos, cuspe de aves. Depois de assentado em lugar próprio, o cisco produz material de construção para ninhos de passarinhos. Ali os pássaros vão buscar raminhos secos, trapos, asas de mosca (Manoel de Barros).


O bosque estava lotado! Nunca havia visto tanta gente. Fique feliz pelos ciscos (seriam contemplados em demasia). Fique assustado. Perambulavam de forma estranha, de forma lenta, de cabeça abaixada e com os celulares nas mãos. Os olhos voltavam-se para o virtual. Dentre arrastos pelo bosque, se divertiam monossilabicamente. Estavam ansiosos com a novidade, com a nova mania que os mantêm permanentemente online, que torna tudo imperiosamente urgente. Era uma busca impensada para maximizar a performance! Quem caça mais monstros!


A natureza, esquecida. O Sol, as árvores, os pássaros, as formigas, o besouro, a minhoca, o cisco... deixaram de ser reverenciados. O que dizer das borboletas, com sua longa e silenciosa metamorfose. Choraram. A tudo havia sido atribuído um novo significado.


Os aparelhos de ginástica e os brinquedos tornaram-se bancos; a pista de caminhada, a passagem dos reanimados, que agora saem de suas casas motivados por um jogo, sim, por um jogo. Pensei: é um sintoma de corrupção do pensamento? A experiência da beleza acabara? Estamos inebriamos por manias que fazem desaparecer nossas horas de estudo, debate e contemplação?


Para alguns este fenômeno tem provocado benefícios às pessoas. Se um jogo de celular tem sido a motivação para retirar as pessoas de suas casas, conhecer os espaços públicos e realizar caminhada, algo muito mais sério está acontecendo. Quando Aristóteles começou a ensinar no Liceu, em 335 a.C., o aprendizado se dava de modo peripatético, isto é, caminhava-se e ensinava-se em áreas livres, diante da natureza, dialogando.


Hoje nos deparamos com um novo significado ao bosque da comunidade, ao Vitória Régia, enfim, às praças e espaços verdes de Bauru. Foram virtualizados. Tornaram-se não-lugares: locais destituídos de sua própria essência pela modernidade, que colocam nossa condição de Humano em xeque no espaço, no tempo e com os outros.


Era um bosque. Fiquei com dó dos ciscos...


O autor é advogado e professor universitário.

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