Tribuna do Leitor

'Eu não escutei o sino tocar'

Maestro Alexei Lisounenko
| Tempo de leitura: 3 min

A frase acima veio recentemente à minha memória. Eu a ouvi há mais de 20 anos num dos filmes do lutador de boxe Rocky. A memória aflorou esta frase devido a uma experiência que vivi nas últimas semanas, em decorrência da criação do Coral Paz e Bem. Este coral é composto por meninas com idades que chegam aos 86 anos.  Durante o bate papo após o concerto que fizemos, fiquei sabendo de algumas de suas histórias de superação e realização que o coral proporcionou a elas e a seus familiares, sonhos de criança realizados após décadas. Confesso que ao ouvir estas e outras histórias de conquistas, atividades e planos para um futuro não tão próximo, me fizeram chegar a cena do filme do Rocky. A vida é de fato como um ringue, com cordas invisíveis que delimitam o nosso campo de batalha e com um tempo para iniciar e, infelizmente, terminar quando o sino tocar.

       

Durante a luta, a vida, temos momentos de glória e de tristeza, e em muitas vezes temos momentos de paz e equilíbrio. De fato, é difícil manter o equilíbrio numa disputa onde o mundo, desde cedo, te ensina a atacar ou se defender, pouco restando para refletir e apreciar a beleza do momento. Algumas pessoas esperam pela aposentadoria como alguém que espera pela hora da ociosidade permanente, e sem os cuidados e planejamentos devidos entram numa fase de depressão onde o fim da vida parece ser o seu único destino. Esquecem que até o final da vida existe um tempo, nem que seja um segundo. Ele existe e pode ser preenchido.

 

Um conhecido, não muito mais velho que eu, mas já aposentado, disse que agora era hora de aproveitar a vida sem se preocupar com nada e que trabalhar e produzir era para os jovens. Concordo plenamente que devemos aproveitar a vida, não só quando nos aposentarmos, mas em todas as fases, claro que com o equilíbrio do momento em que estamos vivendo. Penso que quando estiver com 65 anos, ou mais, poderei finalmente ter mais tempo para compor músicas e escrever meus livros, um deles, “O diário de Madeleine”, já está até esboçado, mas falta tempo para eu me debruçar sobre a ficção baseada na vida real. Muitas vezes, me pergunto se o tempo que espero ter no futuro já não o estou vivendo e assim no futuro poderia aproveitá-lo com projetos daquele momento e não do passado. A escritora Ivone Francisco de Souza, de 88 anos, que lançou recentemente seu primeiro livro me confidenciou que se tivesse continuado a escrever desde cedo já estaria no seu décimo livro. Para pensarmos sobre o quanto aproveitamos do nosso tempo.


É claro que temos a crença de que a idade implica em limitações. Já pensou correr uma maratona aos 80 anos? O indiano Fauja Singh correu tendo 100 anos. Será que podemos aprender a ler e escrever já com idade avançada? Sim, essa barreira já foi superada por centenas de senhores e senhoras. E o desafio da tecnologia? Uma pesquisa de 2014 já apontava que 66% dos idosos já estavam conectados à Internet.


No Coral Sons de Bauru tenho dois exemplos muito especiais. O casal Antônio e Irma Cruz, 84 e 75 anos. Assíduos não só nos ensaios mas também nas confraternizações, não importando a hora de iniciar ou terminar. Extremamente ativos estão sempre fazendo cursos, passeando com os netos, viajando. Sempre em movimento, em equilíbrio com as suas limitações e capacidades. Não posso deixar de citar meu sogro, Hélio de Oliveira Lima que, aos 87 anos, diariamente, pela Internet, se informa das novidades do mundo das leis, fora a sua sabedoria em resolver situações atuais com simplicidade e eficiência.


Essas pessoas que fizeram parte deste texto, também os que estão lendo e se identificando, são pessoas que nos momentos difíceis devem dizer para si: “Eu não escutei o sino tocar! Levanta que ainda tem tempo”! Para estas pessoas dedico a minha admiração e estas palavras de gratidão por ensinarem que o impossível é apenas uma opção! Um grande abraço!

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