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Entrevista da semana: Gilséia Bersan Peres

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 6 min

Malavolta Jr.
Aposentada, Gilséia dedicou mais de 30 anos à ABCC

Algumas pessoas encaram um desafio de frente e fazem dele um dos combustíveis de suas vidas, gerando frutos dos quais podem se orgulhar no futuro.

A assistente social Gilséia Bersan Peres é uma dessas pessoas. Por mais de três décadas, ela dedicou a sua vida profissional ao trabalho na Associação Bauruense de Combate ao Câncer (ABCC).

Nascida em Bariri, ela veio para Bauru cursar serviço social na Instituição Toledo de Ensino (ITE) no fim da década de 1970 e não saiu mais da cidade. Por aqui, lutou pela causa dos pacientes com câncer, cresceu como profissional e constituiu uma família.

Hoje, aposentada, ela conta algumas das principais passagens dessas suas histórias pessoais e profissionais. “Ver o meu trabalho para Bauru crescer foi muito importante, por isso eu cresci junto com ele. Gosto de dizer que toda conquista começa com a decisão de tentar”, diz. Leia mais.

Jornal da Cidade – Sua carreira como assistente social foi praticamente toda de dedicação à ABCC, certo?
Gilséia Bersan Peres – Toda! Comecei fazendo estágio no Consórcio Intermunicipal da Promoção Social  (Cips) e na antiga Rede Feminina de Combate ao Câncer, que depois se tornou a Associação Bauruense de Combate ao Câncer (ABCC). Então, comecei na rede em 1982 e fiquei até abril de 2015. Eu acredito que cumpri a minha missão. Agora, aposentada, estou aproveitando para melhorar a minha qualidade de vida.

JC – Isso significa...
Gilséia – Dedicar um tempo maior para mim e para minha família. Agora, por exemplo, estou incluindo a atividade física na minha rotina. Também estou convivendo mais com as pessoas, e conviver com as pessoas é muito bom (risos). Eu acho que o ontem não volta para ninguém. Cada dia é um novo dia. O que eu quero é conviver com minha família e amigos e, se aparecer alguma coisa, eu vejo se é interessante ou não. O futuro a Deus pertence.  

JC – O serviço social sempre foi um desejo?
Gilséia – Eu me identifiquei com a profissão desde bem menina. Sempre gostei de pessoas, de conversar com as pessoas, de me envolver com elas. Vim para Bauru para estudar e adotei a cidade em meu coração. Eu me formei em 1983. Minha vida era bastante corrida. Assim que cheguei na cidade, eu entrei no Projeto Rondon, um projeto maravilhoso de estudantes que trabalhava com a comunidade. Foi uma fase muito boa da minha vida. A Falcão era o centro universitário da cidade.

JC – Você nasceu e cresceu em Bariri. Como foi a vida por lá?    
Gilséia – Eu comecei a trabalhar muito cedo, aos 15 anos. Sou filha única e tive uma mãe que foi um exemplo na minha vida. Quando ela se casou, ela tinha dois empregos. Mas teve um problema na coluna quando eu nasci e ficou paraplégica. Foi uma vida de muita luta. Ela foi um exemplo para mim.   

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Na foto, Gilséia com as filhas Débora e Natália

JC – Durante todas essas décadas na ABCC, quais  foram as suas grandes lutas e vitórias?
Gilséia – Eu acho que o maior desafio do meu trabalho foi na época do fim do estágio e implantação do meu trabalho. A diretoria queria um trabalho voltado para todas as pessoas com câncer, sem distinção de sexo, idade... E isso ainda não existia no Brasil. O pouco que existia estava ligado à instituições hospitalares ou ainda estavam nascendo com casas de apoio. O serviço institucional ainda não existia.

JC – Você se voltou inteiramente para este desafio profissional?
Gilséia – Meu trabalho sempre foi voltado para ampliar os programas de acesso. E adaptar os usuários que chegavam à realidade do tratamento que havia na cidade foi um desafio. Não havia quase nada. Eu acompanhava todos os usuários que chagavam na associação e precisavam fazer o tratamento em outras cidades. Cheguei a viajar cinco vezes por semana. Nessas viagens, eu também fazia contatos para ver o que poderia ser trazido para Bauru para melhorar o nosso cenário. E, aos poucos, fomos nos adaptando à realidade. Houve abertura das diretorias para que fossem implantados programas para atender essa demanda.

JC – Você pode destacar um desses programas?
Gilséia –  O programa de perucas é um que veio com um suporte para ajudar e incentivar a mulher a não interromper o seu tratamento. Por mais triste que pareça, algumas mulheres abandonavam o tratamento para não perder os cabelos. Também foram incluídos gorros de inverno e de verão e, mais recentemente, os turbantes para modernizar. Todos os programas de tratamento intenso são mantidos hoje pelo voluntariado, inclusive o das perucas. Por isso o trabalho dos voluntários é extremamente importante. O trabalho domiciliar também sempre foi muito importante na associação, para levantar necessidades e ver a dinâmica das famílias.      

JC – Qual foi a maior evolução da associação ao longo de sua existência?
Gilséia – A visão. Uma visão de autonomia. Uma visão profissional. Conforme o trabalho foi crescendo, ela foi evoluindo, sempre priorizando também a participação da família no tratamento. Tanto que o cadastro na associação é feito pelo usuário e a pessoa que o acompanha na consulta. O índice de abandono de tratamento na associação foi zero durante muitos anos e ainda está zerado. Uma conquista imensa.   

JC – É possível dizer que esse trabalho mudou a sua vida?
Gilséia –  Muito mesmo. Eu acho que eu me tornei uma pessoa melhor. Ainda tenho amigos que lá conheci e que ainda fazem parte da minha convivência. E eu ainda frequento os grupos. Comemorei meu aniversário lá (risos).   

JC – Quais são os grandes problemas que os pacientes de câncer ainda enfrentam no tratamento?
Gilséia –  A interrupção das atividades das pessoas é um desafio, porque muitas estão na informalidade e precisam de dinheiro para as muitas despesas. Então a Previdência é um problema. O atendimento nunca esteve tão bom, mas ainda há a necessidade de melhorar o diagnóstico.    

JC – Foi em Bauru que você também encontrou o amor?
Gilséia – Foi em partes, porque ele também é de Bariri (risos). Mas nós nos encontramos aqui. Ele também era estudante e namorava na época, assim com eu. Viemos para Bauru, nos aproximamos e começamos a namorar. Estamos juntos há 29 anos e temos três filhos.   

JC – Quem é a Gilséia?
Gilséia – Quem sou eu? Uma pessoa que gosta de gente, gosta muito de trabalhar e adora desafios. Ver o meu trabalho para Bauru crescer foi muito importante, por isso eu cresci junto com ele. Gosto de dizer que toda conquista começa com a decisão de tentar.

Perfil

Gilséia Bersan Peres tem 54 anos 
Nasceu em Bariri e é do signo de Leão

É casada com José Carlos Peres e mãe de Vinícius, Débora e Natália
A leitura é o seu hobby e o seu livro atual é “Pecar e Perdoar”
Gosta de MPB e de comédias no cinema
Seu time do coração é o Palmeiras
Nota 10: Para a família
Nota0: Para a falta de ética 
E-mail: gilperes2307@gmail.com  

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