Tribuna do Leitor

A saída é deixar o País?

Antonio Carlos Azevedo dos Santos
| Tempo de leitura: 2 min

Em uma entrevista à jornalista Talissa Monteiro para uma revista de tiragem nacional, o neurocientista e professor da USP José Donato Jr. afirma o estado deplorável em que se encontra o ambiente de pesquisa no Brasil. Opõe-se aos profissionais que buscam real eficiência em seus trabalhos à falta de recursos - agravada atualmente em razão da crise econômica, embora o problema seja anterior a ela - e tem impedido de fazer avançar os projetos em andamento. Até a presente data, os pesquisadores receberam 20% da verba destinada para 2014, sendo que em 2015 não foi aberto o edital para “Chamada Universal” e, pior, em 2016 foi aberta a chamada, sem pagar a de 2014, portanto, o novo edital não passa de propaganda enganosa. Isso ilustra bem o modo como o governo federal trata a ciência brasileira.

Diversos colegas de profissão do professor Donato estão esperando o dinheiro dos órgãos governamentais para dar continuidade aos seus trabalhos e, em caso extremos, fazendo vaquinha on-line ou tirando do próprio bolso para não perder material de laboratório. Sem dinheiro, não posso pesquisar, diz o professor, porém não quero - e meus colegas também não - estacionar meus estudos. Seria jogar no lixo anos de trabalho e gastos públicos, o pesquisador no Brasil faz malabarismo com suas escassas verba - para poder adquirir, por exemplo, reagentes químicos básicos à sua pesquisa, isso para não falar da precária infraestrutura dos prédios.

Todo esse ambiente drástico piora com a falta de transparência das agências federais, é difícil saber por que exatamente alguém foi contemplado e colegas que deveriam receber dinheiro não são classificados para tal, enquanto outros que mal produzem ganham verbas. Isso é não respeitar o dinheiro do contribuinte - e o modo de usá-lo. Por todos estes motivos, o Brasil sofre com a evasão de cérebros, tal como recentemente pudemos testemunhar com saída do país da neurocientista Suzana Herculano Houzel, contundo esse parece ser a solução para muitos cientistas e outros profissionais.

Infelizmente, diz o professor, tenho a constante impressão de que nosso sistema conspira contra isso, por meio de muita burocracia e pelo pouco suporte aos cientistas, em especial aos mais jovens. Quem sofre com isso é a produção acadêmica brasileira, pois essas dificuldades nos tornam incapazes de competir de igual para igual com colegas do exterior. Então o professor faz a seguinte pergunta: “Será que terei de sair de minha terra para poder trabalhar de verdade?”. Este sim é um golpe em nosso país. Não o afastamento de Dilma, Lula e seus seguidores.

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