Esportes

Barbosa anuncia fim do ciclo na seleção

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 8 min

Malavolta Jr.
Bauruense Antônio Carlos Barbosa diz adeus à seleção

A participação nas Olimpíadas do Rio de Janeiro como técnico da seleção brasileira feminina de basquete foi o adeus do bauruense Antônio Carlos Barbosa ao time nacional, que comandou em três edições do Jogos: Sydney-2000, com a medalha de bronze, Atenas-2004, com o quarto lugar, e Rio-2016, 12ª colocação. Barbosa, que assumiu a seleção emergencialmente a oito meses das Rio-2016, concluindo um ciclo conturbado, com trocas sucessivas de treinadores, boicote de clubes e jogadoras à Confederação Brasileira de Basquete (CBB), afirma que já não cogitava voltar ao time e que, encerradas as Olimpíadas, não cogita permanecer nem se receber o convite da CBB. Em entrevista ao Jornal da Cidade, o bauruense fala do final de seu ciclo à frente da seleção brasileira, avalia a participação nas Olimpíadas do Rio e aponta possíveis caminhos para a recuperação do combalido basquete feminino no Brasil.


Jornal da Cidade – Você está disposto a permanecer como técnico da seleção e já houve alguma conversa a este respeito com a CBB?
Antônio Carlos Barbosa – Tenho contrato até 31 de agosto, assim como é o do (Rubén) Magnano (técnico da seleção brasileira masculina). A CBB não vai tomar providência com nenhum dos dois, porque vai mudar o comando, vai ter eleição. Eu não tenho a mínima pretensão de ser técnico de seleção mais. Como já não tinha. Entendo que meu ciclo foi, com bons resultados, médios resultados e alguns resultados que não foram bons. Acho que não pode acontecer comigo o que aconteceu da outra vez, que pinçaram uma frase que eu usei e puxaram manchete: “erraram quando me tiraram de lá”. Não é porque me tiraram de técnico, mas o momento. Erraram porque me tiraram no meio de um ciclo olímpico. Eu tinha acabado de participar do Pan-Americano do Rio de Janeiro, em 2007, e em 2008 houve as Olimpíadas na China. O correto seria esperar as Olimpíadas e aí eu sairia. Outra coisa que eu quis dizer foi pegar toda a experiência que eu tenho em seleções e não me usar mais dentro da estrutura da CBB como supervisor, consultor... Hoje, no Brasil, praticamente todos os técnicos que eram da geração de ouro do basquete brasileiro pararam. Não houve mais investimento em técnicos por falta de investimento na modalidade. Precisaria de um técnico experiente para ir acompanhando e formando estes novos técnicos, dando a filosofia de jogo. Aí que eu digo que foi um erro minha saída. Eu poderia continuar dentro da estrutura do basquete. Mas como técnico, não. É um momento de iniciar um novo ciclo.

JC – Até porque você assumiu a função de técnico para os Jogos do Rio em uma situação emergencial...
Barbosa – Totalmente emergencial. Eu entendo que a entrada do (Luiz Augusto) Zanon foi perfeita, em 2013, porque vejo como precipitação a entrada do (Luiz Cláudio) Taralo, em 2012. O Taralo foi meu assistente e tem muitas qualidades, mas não para dar um salto de categoria de base ou adulto que joga primeira divisão e não especial, para dirigir um time em Olimpíadas. Olimpíada é final, não é começo de carreira. Ele foi queimado em uma estrutura que teve uma série de erros. De 2008 a 2012 foram quatro técnicos: (Paulo) Bassul, (Carlos) Colinas, Ênio (Vecchi) e Taralo. O Zanon entrou em 2013. Perfeito, acho que era o técnico que reunia as melhores condições. Mas não houve planejamento. Todos os países fazem planejamento olímpico. E nós com o agravante dos Jogos serem no Brasil, o que aumenta responsabilidade. Já pegamos o basquete feminino em queda, com poucas equipes jogando os campeonatos internos, o Campeonato Paulista esvaziado, a Liga Nacional com poucas equipes e alguns times formados de última hora. Com isso, claro que a seleção sofre todas as consequências. Quando se esvazia em nível de clube e a seleção não tem uma preparação que supra a falta de clubes...

JC – Isso refletiu diretamente no desempenho do time nas Olimpíadas.
Barbosa – Entramos nas Olimpíadas com três jogos internacionais, que foram arranjados de última hora, na França. E três, em maio, contra Cuba. E só. Aí jogamos o Campeonato Sul-Americano, que tem um nível de médio para baixo. Perdemos da Austrália jogando de igual para igual, mas chega uma hora que o jogo escapa, porque você não tem o lastro para suportar um jogo com a intensidade que é o basquete hoje sem ter nove, dez jogadoras em condições de troca. As condições de troca teríamos adquirido se houvesse uma preparação em nível de jogos para estas jogadoras. Não é treino que dá isso. Perdemos para o Japão em um jogo que fomos bem no primeiro e metade do segundo. Perdemos da Belarus na última bola, perdemos da França no fim, um jogo que chegamos a estar ganhando por mais de dez pontos. E com a Turquia foi o maior absurdo. Ganhando, ganhando e fomos entregar o jogo na segunda prorrogação. Com todos os problemas, jogamos de igual para igual com todo mundo. Objetivamente, não fomos bem. Não ganhamos nenhum jogo, foi um fracasso. Mas se partir para o contexto do antes, a situação e o que chegou, fomos bem. Talvez se não fosse no Brasil, tivéssemos ganhado os três jogos. Porque o emocional pesa muito. A pressão de Olimpíadas em casa pesa muito. O basquete feminino hoje tem pouca visibilidade no Brasil. Quando se disputa as Olimpíadas, tudo muda. Elas não estão acostumadas com esta mudança de visibilidade. Não são todas, algumas jogam normalmente. Mas neste nível um deslize no emocional, você perde o jogo. Não soubemos lidar com isso.

JC – São muitos erros de planejamento em sucessivos ciclos olímpicos, que culminam com as piores campanhas do basquete feminino do Brasil nas Olimpíadas. Não cabe à CBB fazer uma análise e tomar providências para mudar este rumo?
Barbosa – Houve erros. O primeiro na gestão de um amigo meu, o Grego (Gerasime Bozikis, ex-presidente da CBB), que foi me tirar um ano antes dos Jogos de Pequim, com uma geração de jogadoras que vinha comigo desde 1996. Houve um equívoco quando tiraram o Bassul com apenas um ano de trabalho. Outro equívoco foi contratar um técnico espanhol (Carlos Colinas), que ficou só um ano também. Outro a saída do Ênio Vecchi e aí veio com o Taralo (Londres-2012). Aí veio o Zanon e a saída dele não dá para culpar a CBB completamente. Foi circunstancial e o ambiente não estava bom, houve o boicote (em discordância da CBB, clubes não liberaram atletas para defender o Brasil). Entrei como solução emergencial.

JC – Diante desse cenário, parece nebuloso o futuro do basquete feminino no Brasil. Poucos técnicos, um trabalho de base incipiente, erros de planejamento...
Barbosa – Temos técnicos emergentes. E quando você fala de base, precisa falar de quantidade. E esta base vem diminuindo. No ano passado, tivemos o Campeonato Paulista com quatro times e ainda porque pinçou São Bernardo da primeira divisão para jogar a especial. Não sei onde vai parar, é preocupante. É por isso que eu acho que criticar a participação do basquete feminino nas Olimpíadas ou é desconhecimento total ou má intenção. E por incrível que pareça temos jogadoras que podem ser uma base para um novo ciclo olímpico. A Damiris, por exemplo, eu arrisquei colocando de 3 (Damires é pivô e atuou também na função de ala) e ela foi brilhante. Eu tinha que jogar com ela, a Érika e a Clarissa (todas jogadoras de garrafão). A Clarissa é outra que foi muito bem. E são jogadoras novas, que têm oito anos pela frente fácil na seleção. As próprias Iziane e Érika, se tivessem disposição, jogavam fácil o Mundial de 2018 ou até mais quatro anos. O cenário é realmente nebuloso, porque a base é muito pequena. Agora, resultado não adianta cobrar do que não tem para dar.

JC – Qual seria o caminho para o basquete do Brasil retomar o protagonismo?
Barbosa – A concorrência no basquete hoje é muito grande e a briga é pelo segundo lugar para trás (Estados Unidos dominam modalidade). No feminino, as jogadoras estão parando muito cedo. Nos estados, tirando São Paulo e alguns que têm campeonato de federação, as meninas param de jogar com 17 anos. Porque os campeonatos de base da CBB são até 17 anos. Tem que aumentar a idade dos Brasileiros de base para 19 anos e se criar uma liga de desenvolvimento feminino urgente para dar continuidade a essas jogadoras. E ver se alguém, algumas almas caridosas, se interessam pelo basquete feminino e começam a investir. Temos que melhorar o nível do nosso campeonato e para isso é preciso investimento. Existe uma luz, a liga deve melhorar o nível, porque houve aporte de patrocínio da Eletrobrás. Isso facilita o surgimento de times. Mas se surgir mais de oito não tem jogadoras suficientes, só se liberar três estrangeiras por time. Não temos 80 jogadoras para jogar uma liga de nível. Está minguando, times acabando, é uma realidade. Mas isso não é problema da CBB, é política esportiva.

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