Tribuna do Leitor

Resistir e marchar

Iolanda Toshie Ide
| Tempo de leitura: 2 min

Nós que nos empenhamos no processo de redemocratização, sabemos quão árduas foram as conquistas na Constituinte de 1986-88. Pareceu-nos que o trabalho hercúleo resultou em avanços aquém do almejado. Proclamada a Constituição que Ulisses chamou ‘Cidadã’, o passo seguinte seria o empenho na regulamentação de vários artigos. Passados anos e décadas, a decepção foi a não só com a não implementação, como também com remendos que a descaracterizaram..


A despeito disso, chegou-se à escolarização básica quase universal, uma política de valorização do salário mínimo que, nos últimos 13 anos, foi reajustado 76% acima da inflação, o reconhecimento de alguns direitos das mulheres, negras/os...


O golpe midiático-jurídico-parlamentar alçou interinamente ao poder uma cinzenta figura que se apressou ao desmonte dos direitos tão arduamente conquistados. Congelamento do salário mínimo; retirada do abono salarial, que tem sido concedido há 46 anos; aumento da jornada de trabalho, sem aumento do salário; terceirização de  todos os postos de trabalho reduzindo salários... Enfim, a revogação da CLT.


Acrescente-se a todo esse desmonte a criminalização dos movimentos sociais; o cerceamento à liberdade de pensamento, inclusive nas escolas; as prisões arbitrárias; a destruição de várias políticas sociais (Minha Casa, Minha Vida, Bolsa Família, Ciências sem Fronteira...); o cerceamento da Empresa Brasil de Comunicação; as privatizações indiscriminadas . . .


A truculência policial tem se generalizado, mas reagir não só é preciso como urgente. A população tem se manifestado, embora a mídia hegemônica tente esconder. Não sem razão, por onde a Tocha Olímpica tem passado, ouvem-se gritos de Fora Temer. Nesses dias, li em um jornal argentino, o anúncio de uma das “Mães da Praça de Maio”: vamos reiniciar as Marchas de Resistência.


Durante a ditadura na Argentina, em 30 de abril de 1977, as Mães iniciaram uma mobilização coletiva em busca de seus filhos presos e desaparecidos. Semanalmente, chovesse ou fizesse frio, circundavam a Praça de Maio com cartazes e um lenço branco na cabeça. As fotos foram exibidas no mundo inteiro: elas apressaram o fim da ditadura. Fizeram 1977 marchas.


Em 2006, haviam encerrado a mobilização, mas agora, com as políticas, eufemisticamente chamadas de austeras, empreendidas por Macri, decidiram reiniciar. Estão idosas, mas retornarão às marchas “por terra, moradia e trabalho” porque “o inimigo está na Casa de Governo”. Aqui no Brasil também. Temos que resistir e marchar pra não ter que chorar o leite derramado. Fora, Temer!

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