Nem bem comemoramos a reconquista da nossa autoestima com o sucesso das Olimpíadas do Rio, ingressamos no momento dramático e doloroso do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Há poucas razões para apostar num veredicto diferente daquele que irá afastar, definitivamente, Dilma do cargo para o qual foi eleita em outubro de 2014. Vai substituí-la o ex-vice-presidente Michel Temer, nos 28 meses que faltam até o fim do mandato. Com seu destino traçado, resta à presidente afastada ir a julgamento e marcar sua posição para a história política brasileira. Para quem já enfrentou uma ditadura e o câncer, lutar contra a injustiça é o de menos, segundo suas próprias palavras. Dilma é honesta, no consenso. Tem razão a senadora Gleisi Hoffmann quando grita que “ninguém tem moral (no Senado) para julgar a presidente”. Certamente ela se inclui no rol dos amorais.
Bem analisado, até Ricardo Lewandowski fica devendo. O presidente da sessão de impeachment, aproveitou-se das interrupções por causa da briga entre os senadores Ronaldo Caiado (DEM-Go), Gleisi Hoffmann (PT-Pr) e Lindberg Farias (PT-Rj) para fazer lobby pelo aumento dos salários dos ministros do STF, instituição por ele presidida
Dilma será julgada por causa das “pedaladas fiscais” - manobras contábeis para esconder a real dimensão do gasto público sem aprovação do Congresso. Um subterfúgio utilizado desde D. João VI e repetido até recentemente pela maioria os presidentes desde a instauração da República, e usualmente pelos governos estaduais. O que está em causa é que Dilma esqueceu-se que política é a arte da negociação. Ganhou inimigos a ponto de não conseguir o voto de 28 senadores, mínimo necessário para evitar o seu afastamento definitivo. Seis dos seus ex-ministros não votam nela e revelam frustrações, como Garibaldi Dantas (ex-Previdência) que nunca conseguiu ser recebido no gabinete da Presidência. Lançou a ideia do Plebiscito para antecipar as eleições e até a cúpula do PT a rejeitou. As tentativas de anular o julgamento no STF tiveram o mesmo resultado. Dilma ainda teve que assumir os custos políticos da Operação Lava Jato. Sem esse escândalo, e com a economia estabilizada não haveria impeachment. Na última pesquisa, Temer só tinha o apoio de 13% dos brasileiros.
Na mesma inquirição Dilma era avaliada negativamente pela população (69%) que considerava o seu desempenho mau ou péssimo. Temer também é um homem de sorte. Jamais chegaria onde chegou pelo voto direto. Na sua interinidade, os números da economia começaram a bafejá-lo: a produção industrial cresce há quatro meses; inflação ainda é alta, mas desacelera; a subida do desemprego é mais modesta; a Bolsa sobe e o dólar cai desde que Michel Temer chegou ao poder, sem que nenhuma das metas de ajuste fiscal tenha sido implementada. A emenda constitucional que restringe os gastos do Estado à inflação do ano anterior, ou o aumento dos funcionários públicos vai ter que esperar que os ânimos políticos se acalmem.
Enquanto isso, o BNDES anuncia um pacote de R$ 5 bilhões para socorrer empresas falidas ou em processo de recuperação judicial. Entre elas está a operadora de telefonia Oi, que deve R$ 63 bilhões na praça. Tudo para agradar os empresários.
Getúlio suicidou-se; Jânio renunciou; Jango refugiou-se no Uruguai; Dilma fica e se defende até o fim. É outro momento histórico. O presidente interino tem dois caminhos: ou faz valer a sua autoridade e leva o Congresso a aprovar medidas duras como o teto para os gastos públicos, a reforma da Previdência e da legislação trabalhista, ou entra num processo de desgaste semelhante ao que atingiu o ex-presidente José Sarney.
O candidato do governo em 2018 será José Serra, Henrique Meirelles ou o próprio Temer? Vai depender do sucesso do governo e a popularidade de cada um. Lula sobrevive até 2018 ou cai nas garras do Lava Jato? Só Deus sabe. A caçada é implacável. Além das obras do sítio em Atibaia e num tríplex no Guarujá, não há elementos mais gritantes, como conta na Suíça e relacionamento com contratos de obras das grandes empreiteiras.
Quem pode se dar bem em 2018? Alguém distante dessa turma toda, talvez. Capaz de abandonar os discursos surrados e reinventar a comunicação com o eleitor. O não-político. O vazio abre espaço aos aventureiros. Aí que mora o perigo.
O autor é jornalista e articulista do JC