| Divulgação |
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| A dupla Celso e Leleco, acima, nos anos 90, ao Projeto Kabu (abaixo) em 2015 que abriu a nova fase e hoje já lançou o videoclipe “Satélites”, o caminhão continua a marcar a vida artística bauruense |
O Caminhão-palco, projeto da Prefeitura Municipal de Bauru, funcionou por 20 anos -de 1985 a 2005-, voltou há um ano com uma nova proposta, e entre os que respiraram a cultura de Bauru há três décadas, ter participado do projeto original é um orgulho. E uma inspiração para o que está vindo por aí. Para quem ainda atua na área, falar de nomes de artistas, duplas como Lineu e Lindomar, Celso e Leleco, Zanilo e Zanete, o palhaço Faísca, é relembrar o quanto aquela época era de agitação cultural. “Citar só alguns é uma injustiça. Foram centenas desfrutando de um período inovador”, diz Ariane Barros, uma das primeiras a chegar ao projeto. Ela começava sua carreira de agente cultural. A primeira apresentação foi em julho de 1985, no distrito de Tibiriçá.
Naquele ano, Bauru vivia o primeiro governo de Tuga Angerami, que assumira após a morte de Edson Bastos Gasaparini. Mas o País como um todo vivia um turbilhão. O mineiro Tancredo Neves, o primeiro presidente civil desde o golpe militar de 1964, morreu às vésperas de assumir. E no campo cultural, o primeiro “Rock In Rio”. O momento era propício, e o caminhão deslanchou.
"Eu era feliz e sabia"
Além dos artistas, vários radialistas se notabilizaram pela sua presença no palco apresentando as atrações. Entre outros, o repórter de televisão Gérson de Souza tem inúmeras recordações da época. “Foi a democratização da cultura. Levava atividades de todo o tipo para a porta da casa das pessoas. Além de trazer espetáculos de fora, abria espaço para os artistas locais. Fui muito feliz em poder apresentar esses artistas. Um projeto fantástico. Eu era feliz e sabia”, diz citando Walter Neto, um ícone do rádio bauruense que também foi apresentador dos shows.
Sem hierarquia
“Imagine, tivemos a cultura no centro da política. Isso não existia. Mas houve aqui”, diz Ariane Barros para ilustrar o pioneirismo. E de forma 100% democrática. Quem solicitava o caminhão eram as pessoas da comunidade, mas era preciso pertencer a uma comunidade, ter representatividade, estar organizado. O caminhão-palco esteve presente em todas as grandes festas populares. “Quem trabalhava também não tinha imposição de hierarquia. O trabalho era comunitário mesmo”, exemplifica Ariane. “Importante foi o mapeamento de todas as atividades culturais da cidade. Na época não se falava em mapeamento, era um termo que não se usava, mas a gente foi conhecendo tudo o que ninguém sabia que existia e os artistas tiveram seu espaço”, conta.
"Devagar e sempre" dá certo
Elson Reis, secretário da Cultura do município, além de ser o responsável pela volta do caminhão-palco que ocorreu há um ano, relembra com entusiasmo de ter trabalhado desde o começo da implantação do projeto. Elson conta uma história do primeiro caminhão. O projeto foi derivado de um outro, chamado “Circus”, que existia na periferia de Curitiba. Como Bauru não tinha condições de montar uma estrutura de circo que permanecesse durante meses em cada bairro, optou-se pelo caminhão. O primeiro deles foi um antigo que estava até sem motor e, recebeu um motor de uma Veraneio a álcool. Ambos os veículos já estavam prontos para serem descartados. A carroceria foi montada na própria marcenaria da prefeitura. Então, não dava para ir muito rápido. “O sucesso do caminhão é a prova de que o ‘ devagar e sempre ’dá certo também”.
O secretário está apostando que, apesar de a clientela ter mudado (não há mais as associações de moradores tão organizadas e, hoje, os pedidos são dominados pelas igrejas), o futuro é promissor. “Podemos dizer que o movimento hip hop já está colhendo benefícios da retomada do caminhão”, diz otimista.
Do outro lado só elogios
Do ponto de vista do artista, a existência do caminhão-palco só colhe elogios. Que o diga o José Carlos Gonçalvez, o Carlão Guitarrista, ou simplesmente o Carlão, da banda Bagagem. Carlão lembra o quanto foi importante essa época na cultura de Bauru, tanto que o caminhão “fechava o trânsito” no Centro da cidade, próximo ao antigo BTC, na frente do antigo Bar do Epa. “Era um agito até nos domingos à tarde”. Ele recorda também de espaços alternativos, como o “Recanto Selvagem”, no Bairro Vista Alegre, onde o dono plantava uma horta bonita e parte do que servia era colhido de lá, “de forma que esse projeto deu essa abertura para a gente tocar em todos os cantos, e não só nos tradicionais. Para quem gostava de pop e rock, foi ótimo”.
Queda de Antônio Nóbrega
Durante os 20 anos de primeira edição, o caminhão percorreu centenas de locais da cidade com eventos artísticos, atividades lúdicas, encontros temáticos, projetos culturais e ações de diferentes organizações. Duplas sertanejas, grupos de MPB, bandas de rock, palhaços, mágicos, conjuntos instrumentais, companhias de teatro, grupos de dança, artistas da cultura popular já estiveram nele: nomes como Pena Branca e Xavantinho, Moacir Franco, Christian e Ralf, Vânia Bastos, Raízes de América e Noite Ilustrada. Teve também Gian e Giovani, na inauguração do estádio Milagrão, em 1993. Uma curiosidade: o recifense Antonio Nóbrega, violinista, defensor do frevo e precursor na criação de uma música de câmara brasileira de raízes populares, se apresentou por aqui. E em uma dessas apresentações, na Praça Rui Barbosa, acabou caindo do caminhão-palco e quebrou um pé.

