Tribuna do Leitor

A hora do espanto

Cinthya Nunes
| Tempo de leitura: 3 min

Uma das coisas que aprendi no último ano é que ter um gato é, entre outras coisas, estar sujeito a muitas surpresas. Confesso que me tornei uma fã dos felinos e ter adotado a Chica Maria, uma gatinha branca e preta, mistura de angorá com mil outros gatos do mundo, foi uma decisão acertada e, no mínimo, já me rendeu assunto para vários textos.

E foi assim então que, nessa semana, num dia qualquer, tínhamos chegado em casa depois de um dia de trabalho e depois de termos feito um lanche, ficamos até tarde vendo televisão, eu com um imenso pacote de provas no colo, com um olho nas respostas dos alunos e outro na programação noturna.  Normalmente dormimos tarde mesmo, mas já estávamos cansados e no outro dia teríamos que levantar cedo.

Já tendo passado da meia noite, resolvemos ir dormir e já íamos começar a ajeitas as coisas para isso quando a Chica invadiu a sala, vinda lá do quintal, com uma coisa na boca. Levei alguns segundos para processar o que estava vendo e tão logo me toquei do que era dei um berro, porque na boca ela trazia um pequeno morcego. A expressão dela de “olha que legal pessoal, um presente pra vocês” foi hilária, mas isso não mudava o fato de que o lanche que ela queria compartilhar conosco era um dos filhos do Conde Drácula.

Com o meu grito, acredito, a Chica largou o coitado do bicho e, em um misto de pavor e alegria, percebi que ele estava vivo. Dali para frente foi um corre-corre. Não sabíamos exatamente o que fazer pois o morcego, no desejo de fugir de seu algoz, voava pela sala dando rasantes em nossas cabeças. Tiramos a Chica da linha de alcance e notamos, não sem rir, que os cachorros olham para aquilo tudo sem fazer a menor ideia do que estávamos perseguindo e já com olhares de quem sabe que tem culpa antiga do cartório, mas que agora diriam, se soubessem fazê-lo: “dessa vez não fizemos nada, pelo amor de Deus”!

O fato é que o pequeno aprendiz de Batman se refugiou pendurado em um lustre e depois de certa hesitação e dúvida sobre quais procedimentos adotarmos, conseguimos fazer com que o bichinho voasse noite afora, livre para continuar sua vidinha. Embora eu já tivesse visto alguns morceguinhos voando pelo quintal, nunca tinha visto nenhum desses de perto e posso dizer que ele parece uma raposinha de asas.

Minúsculo, esse comedor de frutas, insetos e néctar é um dos responsáveis pela polinização de flores noturnas, além de espalhar sementes por aí. Claro que não daria para torná-lo um animal de estimação, primeiro porque causa certa aflição, mas segundo porque ele pode transmitir doenças, mas desde que se limite ao quintal e fique mais esperto, continua sendo uma visita benvinda.

Acredito que a operação “salva morcego” deva ter causado alguma frustração na Chica, mas de nossa parte passamos a vez para lanchar morcegos e espero que ela não consiga fazer nenhuma vítima, eis que não falta comida aqui em casa, nem para ela e nem para nós. A Chica Maria, só para tornar de conhecimento público, ganhou sobrenome e, de ora em diante, passará a ser chamada, como reconhecimento a seus feitos, de Chica Maria Van Helsing, a Caçadora de Vampiros! E que fique nisso, em nome do meu pobre coração, rs...

 

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