| Aceituno Jr. |
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| Alunos da unidade do Jardim Petrópolis com as professoras Dulcinéia Carvalho França e Maria Andrea Melanda |
Nunca é tarde demais para correr atrás do “prejuízo” e buscar a realização de objetivos e de sonhos. Prova disso são os alunos do Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja), que batalham diariamente para aprender a ler e a escrever. Em 2016, o Ceja completou 30 anos e já atendeu mais de 62 mil alunos em fase de alfabetização.
Hoje, 500 pessoas estão matriculadas com idade mínima de 15 anos, sem idade máxima. Há alunos com até 90 anos, segundo a diretora de Divisão de Educação de Jovens e Adultos, Andrea Cristina Soares Juarez.
Segundo Andrea, o perfil do estudante do Ceja mudou. No início, o público era formado, em sua maioria, por jovens que buscavam completar os seus estudos de olho na exigência do mercado de trabalho.
Atualmente, o perfil do alunado é de senhores e senhoras que buscam a alfabetização como realização pessoal. “Os idosos nos procuram orientados até mesmo pela igreja ou grupos de lazer. É a realização de um sonho deles mesmo”, grifa. Muitas dessas senhoras não frequentaram escolas impedidas pelos pais do passado, que acreditavam que os estudos não eram “coisa para mulher”. Elas se casavam muito cedo e o marido, normalmente, compartilhava do mesmo pensamento do pai.
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Já muitos homens também não estudaram porque precisaram ir para o trabalho em tempo integral logo cedo para ajudar no sustento da família. Com a ajuda dos filhos ou mesmo já aposentados, hoje o tempo permite a frequência nas salas de aula.
“Com o passar do tempo as coisas evoluíram e muitos procuram o Ceja para retomar essa fase perdida. Afinal, nunca é tarde para aprender”, acrescenta Andrea, que também lembra que muitos dos alunos do Ceja ainda procuram a alfabetização para um desejo de grande valor pessoal e espiritual: a leitura da Bíblia.
Três décadas
O Ceja é uma divisão da Secretaria Municipal de Educação. Os professores são concursados e recebem formação continuada. Os alunos recebem material didático, uniforme e merenda, como os demais dos ensinos infantil e fundamental.
Tudo começou como um projeto em 1984, quando a administração municipal rompeu o convênio com o federal Mobral. Em 1985, foi criada a Comissão Municipal da Educação de Adultos e a implantação das primeiras salas do Ceja. Em 1986, o Ceja virou uma divisão e foi realizado o primeiro concurso público.
Inclusão
Além do caráter educacional, o Ceja ainda proporciona a inclusão social. “Os analfabetos acabam se sentindo excluídos da sociedade e, estudando, eles se sentem parte desse mundo. Isso é contado por eles mesmos”, comenta a diretora. O Ceja também dá a oportunidade de aprendizado para adultos com deficiências.
‘Fico grande quando entro na sala de aula’
Alunos do Ceja contam as suas histórias de luta para chegar às salas de aula e os sonhos almejados com os estudos
| Fotos: Aceituno Jr. |
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| “Faço questão de não faltar um dia sequer das aulas”, diz a estudante Nilza Pereira de Oliveira, 76 anos |
Cada aluno que chega às salas de aulas do Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja) carrega as suas histórias de vida e os seus sonhos. A mineira Nilza Pereira de Oliveira, 76 anos, que o diga.
Ela veio para Bauru há cerca de 35 anos, como se diz, sem eira nem beira, e com seis filhos para criar sozinha. Não conhecia ninguém na cidade, tampouco tinha como sustentar os filhos.
“Mas Deus me abençoou, colocou pessoas queridas e bondosas em meu caminho e eu consegui vencer e criar meus filhos com dignidade. Hoje sou feliz e fico mais feliz ainda quando estou com os cadernos nas mãos”, narra.
Embora estivesse satisfeita com a vida entrando nos eixos, o vazio produzido pelo analfabetismo sempre seguia Nilza, que se queixa porque não conseguia ler nem ao menos coisas necessárias no cotidiano, como os destinos dos ônibus circulares.
Mas há seis meses isso tem mudado. Aluna aplicada da unidade do Ceja do Jardim Petrópolis/Progresso, ela comenta que não falta um dia sequer das aulas. “Já sei ler e escrever bastante coisa e aprendo a cada dia mais. Eu cresço quando entro na sala de aula. Sinto-me grande. Sinto-me gente. Sem estudos as pessoas não são ninguém”, acredita.
Filha de uma infância sofrida, a estudante lembra que a mãe não deixava as filhas estudarem. “Ela dizia que a gente ia escrever para os rapazes. Eu nem entendia o que ela dizia”. Mas os anos se passaram e finalmente ela realiza um sonho. E é aplicada. “Acabo meu serviço em casa e já vou fazer tarefa. Adoro fazer tarefa e pintar. É claro que a gente tem muitos outros sonhos. Eu queria, por exemplo, passar em um concurso público, mas com minha idade isso já é difícil. Mas ainda quero fazer muita coisa nessa vida. Eu quero estudar!”, enfatiza.
De mãos dadas
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| O casal Benedito Rodrigues de Oliveira, 63 anos, e Geralda Aparecida da Silva, 67 anos, estuda na unidade do Ceja do Jardim Petrópolis/Progresso desde outubro de 2015. No início, a ideia foi dela, mas ele logo tratou de acompanhar a esposa. E cada um tem sua preferência. Enquanto ela prefere aprender as letras, ele faz questão de dizer: “Eu gosto mesmo é de matemática”. |
Um sonho compartilhado entre amigas
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| As amigas Tereza de Jesus Abrão, 54 anos, e Neide Lisboa da Silva dos Santos, 50 anos, frequentam a escola juntas |
As donas de casa Tereza de Jesus Abrão, 54 anos, e Neide Lisboa da Silva dos Santos, 50 anos, são vizinhas, amigas e dividem a mesma sala de aula, ou melhor, vão juntas para a escola, uma sala de aula do Ceja no Parque Viaduto, na Emef “Claudete da Silva Vecchi”.
“Eu já sabia ler e escrever, mas voltei para reativar, aprender mais e pegar um diploma. Entrei no Ceja neste ano, mas há muito tempo eu já queria voltar a estudar. Tive o incentivo da minha amiga Neide e aqui estou”, orgulha-se Tereza.
Neide comenta que parou de estudar aos 12 anos de idade quando a mãe morreu e ela, como irmã mais velha, precisou cuidar da casa e dos irmãos. “Mas mesmo antes da minha mãe falecer eu precisei sair da escola para ficar em casa para ela trabalhar”, lembra.
Com mais tempo, Neide quer realizar um sonho antigo: fazer uma faculdade de serviço social. Já a amiga Tereza quer ser enfermeira: “Vou começar com um curso técnico e quem sabe eu chegue à faculdade. Nada é impossível”, finaliza.
Pela primeira vez na escola
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| Sem oportunidade de estudar na infância, Sebastião da Silva se diz muito satisfeito por aprender o beabá pela primeira vez, aos 45 anos |
O aposentado Sebastião da Silva é aluno de primeira viagem. Aos 45 anos, ele não pode mais trabalhar porque sofreu um acidente de trabalho. Por outro lado, tem mais tempo para aprender. E é o que ele está fazendo.
“Eu nasci em Pernambuco e tive uma infância dura, sem oportunidade de estudar. Entrei na escola este ano e estou aprendendo aos poucos. Nunca aprendi a ler ou escrever. E essa é a minha oportunidade. Estou muito feliz por isso. Vim por iniciativa própria e estou gostando muito de aprender”, afirma o estudante da unidade Ceja do Parque Viaduto, que fica na Emef “Claudete da Silva Vecchi”.
Parque Viaduto
| Divulgação |
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| Na foto, parte das turmas do Ceja do Parque Viaduto que fica na Emef “Claudete da Silva Vecchi”; as aulas são ministradas pelas professoras Selma Galhardo e Maria Cristina de Andrade Silva. |
Família que volta para a escola unida...
Mãe, filha e genro voltaram a estudar e são exemplos de união e perseverança
O desejo de voltar a estudar sempre ocupou a cabeça de Vera Helena Sabino Geraldo, 61 anos. Até que, caminhando pela região da unidade do Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja), localizada na quadra 7 da rua Capitão Mário Rossi, Jardim Petrópolis/Progresso, ela decidiu entrar para conhecer a escola. “Entrei e perguntei sobre o que eu precisava para estudar lá. A professora me disse que só precisava da minha presença. Então fiquei por lá mesmo, com roupa de caminhar e tudo”, lembra a estudante.
| Aceituno Jr. |
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| Família: Maria Aparecida do Nascimento Sabino (89) estuda na unidade do Ceja do Jardim Petrópolis/Progresso ao lado da filha Vera Helena Sabino Geraldo (61) e do genro Sebastião Geraldo (62) |
Pouco tempo depois, Vera levou o marido, Sebastião Geraldo, de 62 anos, e a mãe, Maria Aparecida do Nascimento Sabino, de 89 anos, também para a sala de aula. “Quando criança, eu entrei na escola, mas precisava parar sempre que minha mãe tinha um filho, para ajudar em casa e com as crianças. Acabei não estudando direito”, narra.
Quando a família passou a frequentar o Ceja, todos já sabiam ler e escrever um pouco, mas aprendem mais a cada dia. “Eu, por exemplo, não quero mais parar de estudar. Tenho sonhos e vou batalhar por eles. Quero estudar para fazer faculdade de história ou agronomia, sempre sonhei com isso”, comenta Sebastião.
Vida na roça
Sebastião estudou pouco na infância, não passou do segundo ano de estudos. Ele nasceu e cresceu na roça e, como era comum na época, precisou deixar a escola para trabalhar na lavoura e ajudar no sustento da família. “Minha mãe teve 18 filhos. E família grande era assim mesmo. Todos precisavam trabalhar para contribuir. Mas hoje só não estuda quem não quer. Temos de tudo. No passado, nem lápis a gente tinha direito”, lembra.
‘Sinto-me uma menina’
Já dona Maria Aparecida do Nascimento Sabino, 89 anos, toda sorridente, diz que se sente uma menina quando entra na sala de aula. “Mas sou uma menina mesmo. Inclusive concorri ao Miss Melhor Idade. Desfilei e tudo”, orgulha-se.
Você sabia?
Em 2014, Bauru recebeu, por meio do Centro de Educação de Jovens e Adultos da Secretaria Municipal de Educação, o selo “Município Livre de Analfabetismo”, entregue pelo Ministério da Educação (MEC) aos municípios que alcançarem bom desempenho na educação básica pública (mais de 96% de alfabetização em suas redes), o que inclui a alfabetização de jovens com mais de 15 anos e adultos.
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