Fui convidado, tempos atrás, a ministrar uma palestra sobre o tema “Tecnologia aplicada à Educação” em uma universidade. A palestra era para alunos do último ano de pedagogia.
Cheguei e o auditório estava lotado. Após as formalidades comuns a esse tipo de evento, pensei em quebrar o gelo com uma pergunta (pelo menos, assim eu acreditava) “Quem aqui quer ser professor?”. Ninguém se manifestou. Pensei “é a timidez que os cala…” e fiz então outra pergunta: “Quem aqui está fazendo pedagogia para ter um curso superior?” As mãos se levantaram instantaneamente e quase que em sua totalidade. Sinceramente, fiquei um tanto perplexo, mas uma perplexidade já não mais tão profunda, isso pelo próprio reflexo que observo nas escolhas de meus alunos no Ensino Médio. E não somente os meus, posso afirmar que, em geral, se perguntarmos aos alunos, já em fase de escolhas profissionais, “quem quer ser professor?”, veremos que as respostas serão computáveis em zero, ou estatisticamente desprezíveis.
Afinal, quem quer ser professor onde a profissão é desvalorizada socialmente? Não se trata de uma desvalorização moral, mas financeira, o que, em nossa sociedade capitalista, acaba por significar, sim, desvalorização social. Quem quer ser professor num país onde a maioria das instituições de ensino dizem que agora os professores devem ser “coaches”, um “colaborador”, ser guiado pelas “paixões” daquilo que os alunos querem aprender, e não o que devem de fato aprender?
Quem quer ser professor onde a maioria das pedagogias hegemônicas não valorizam o conteúdo historicamente produzido pela humanidade, onde os Professores devem inventar musiquinhas para que alunos decorem procedimentos, ou para que façam bem o papel de adestradores para os vestibulares?
Onde foram parar os mestres? Aqueles cuja cultura geral impressionava e inspirava. A nossa realidade e a necessidade do mercado estão acabando com o “Professor-Mestre”, entra agora o “Coach”, o professor “popular”, que fala a “linguagem do jovem”.
Os fanáticos “tecnomaníacos” dizem que os mestres foram substituídos pelas informações dispostas na internet. Quem, em seu pleno estado de juízo e de conhecimento, pode acreditar em tamanha bobagem? Ser realmente um professor hoje é mais que um ato de coragem é um ato que denota caráter e bondade. Todas as manhãs, milhares de professores saem de seus lares para inspirar crianças e jovens. Para passar para as gerações futuras um conhecimento de forma crítica e criativa. Se quisermos que esse mundo realmente se transforme em algo melhor é preciso conhecê-lo e saber analisá-lo.
Retornando à minha palestra para a turma de pedagogia, pensei, “o que direi sobre a tecnologia aplicada à Educação para um público que não quer ser professor?”. Fiz uma reflexão e prossegui como se todos sonhassem, realmente, em ser professores.
Mostrei a eles uma realidade onde a tecnologia poderia tornar o processo ensino-aprendizagem algo significativo, mostrei recursos a que raramente eles poderiam ter acesso nas sucateadas escolas públicas. Acabei, enfim, por deixar um grupo considerável com aquela vontade de querer seguir a profissão. Mas isso logo passou, pois a dura realidade do trabalho do professor esmaga com crueldade o sonho de ser um Educador.
Volta e meia vejo burocratas da educação visitando escolas de ponta, no exterior, e trazendo ideias mirabolantes para serem aplicadas no Brasil, como se o problema da educação brasileira fosse a falta de ideias inovadoras ou de uma visão mais moderna do processo educacional.
Quase que, de modo inocente, esses profissionais e profetas da mudança dos paradigmas educacionais se esquecem que o problema da educação brasileira passa, principalmente, pela desvalorização do professor e da atual má formação e escassez desses profissionais. E a má formação não se resolve com “capacitações” ou “atualizações”. O problema dessa má formação é endêmico em nosso país. Oásis educacionais existem no Brasil, mas isso é para poucos privilegiados.
A transformação na educação começará a fazer efeito quando nossa profissão for de fato socialmente valorizada e dignificada. Por enquanto, o que ocorre é mais ou menos o seguinte: quem é professor sabe bem a reação das pessoas quando nos perguntam qual é nossa profissão, pois sempre há um misto de respeito e pena… nos lançam, geralmente, um olhar meio melancólico. Essa é nossa realidade hoje, como diz o título da música do Metallica “Sad but true”.
O autor é diretor do D’Incao Instituto de Ensino