Cultura

A rejeição na independência cultural no Brasil

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

Fotos: Divulgação
O jornalista e pesquisador Romildo Sant´anna chama a atenção para o cafuzo e o carreiro na formação do país

O povo brasileiro forjou sua identidade cultural também a partir do sincretismo e da miscigenação e, neste 7 de setembro, a valorização da identidade nacional em relação a seus elementos históricos e sociológicos sugere ao projeto de país a releitura da construção de sua gênese, tendo como ponto de encontro a rejeição social, presente desde o Descobrimento, em 1500, até hoje.  

Aparentemente paradoxal, a violência social e de ocupação do território nacional, desde o período da política colonial de exploração, aproximou etnias e conteúdos culturais, de costumes heterogêneos e, ao mesmo tempo, de amplitude e profundidade.

Depois, ao longo da história a partir de 1.500, o maior e mais longo movimento escravagista que se tem notícia tratou de consolidar a segunda e, igualmente importante, fase dessa “independência cultural” a partir da rejeição.

Essa visão está exposta entre poucos autores. Uma das avaliações é do jornalista, escritor, pesquisador e doutor pela Universidade de São Paulo (USP), Romildo Sant´anna. Ele põe luz sobre um personagem descartado pela história, o cafuzo. “O cafuzo é fundamental para compreender nossa descendência cultural e estética. E isso é feito pelo mestiço e não, isoladamente, pelo negro ou pelo índio. E muito menos pelo imigrante”.

Para isso, Romildo Sant´anna retorna à 1.549, quando Tomé de Souza chegou ao Brasil, sendo o primeiro governador geral. “Vieram nesse grupo 1.400 pessoas, sendo só meia dúzia mulheres, alguns funcionários ou integrantes da Coroa Portuguesa, mas o restante composto por renegados portugueses. E como não tinha mulher, eles se relacionaram com as índias. Nós brasileiros somos filhos de homens europeus e mulheres indígenas e, depois, africanas e não o contrário. Não tem negro pai de filho com mulher branca europeia”, aponta.

E é sobre essa mistura inicial do imigrante branco com a índia que o sociólogo amarra a trajetória da identidade nacional. “O filho do português renegado com índias, os párias (o que está à margem da sociedade), também foi rejeitado pela Corte. Aconteceu o mesmo com o filho do índio com o negro, o cafuzo. Excluídos, os párias e cafuzos forjaram nossos primeiros mestiços e foram no tempo fazendo a transição da cultura, da miscigenação.

Para Romildo Sant´anna, é preciso conceber aos mestiços a importância na transição biológica da etnia brasileira, mas também cultural. “São os filhos de ninguém, que não tem pai nem mãe e que se juntam. Ai a mulata casa com o mulato, o índio com o negro, esse cafuzo com outro pária e assim segue. E isso é que vai dar nossa etnia e cultura. Não é o branco, nem o negro e nem o indígena”, reforça.

Pouco explorado como visão sociológica na formação do país, a rejeição social a que foram submetidos os descendentes de párias e cafuzos é tida como fundamental por Sant´anna. “Nós somos uma cultura de mestiços e isso é espetacular na arte, na cultura, na genética em todas as suas formas. Nós temos um elemento a mais cultural, étnico e de sangue. A rejeição, a negação são nossos maiores elos de formação. E isso prevalece até hoje, sob outras formas, como no preconceito. Isso está introjetado em nossas raízes”, consolida Romildo.

O processo de mistura permanece em curso, nos guetos urbanos, nos morros ou nos barracos às margens dos fundos de vale. Assim, de certo modo, o surgimento do Brasil revelou traço de “limpeza étnica” em relação aos portugueses que vieram realizar ocupação. Depois, o longo período escravagista e o já mencionado isolamento de párias e cafuzos fizeram a outra porção dessa mistura. Mais tarde, movimentos migratórios de italianos, siberianos, alemães, japoneses e outros, mas em circunstâncias completamente diversas do que se deu em nossa origem, trataram de dar novos conteúdos a nossa geleia geral social.

O carreiro

A abordagem do pesquisador em relação aos mestiços que demarcam a origem dos brasileiros é explorada no livro “Literatura cantada”, do projeto PROAC da Secretaria Estadual de Cultura, que será lançado no Teatro de Bauru em 14 de outubro próximo, por Nélson Itaberá. O recorte histórico e sociológico identifica, depois do cafuzo, a importância do carreiro como elemento singular do rompimento do isolamento no país.        

O trabalho do projeto “Literatura cantada” mergulha nos desdobramentos das dimensões culturais presentes na tese de Romildo, sendo que este partiu do trabalho de doutorado de Antonio Cândido, “Os parceiros do rio Bonito”, que traça o perfil do caipira paulista). “O Cândido estuda a questão do isolamento sob o ponto de vista sociológico. E os estudos de sociologia, por sua vez, apontam que no começo do século XX o indivíduo que nascia em um determinado lugar não “andava” mais que 30 quilômetros ao seu redor. Porque não havia meios de comunicação e de viagem além disso”, aborda.

Assim, na época quem fazia a transição dos valores culturais, dos costumes, tal qual como aconteceu na península ibérica, era o carreiro, o boiadeiro. E assim, sem saber, o carreiro foi nosso jornalista mais primitivo. “Eram eles quem faziam a transição da ‘notícia’, mas também da cultura e da arte. É o boiadeiro, o carreiro, quem rompe o isolamento entre as pequenas populações nessas distâncias daquela época. E esse isolamento do sertão ainda prevalece até hoje em regiões mais afastadas do Brasil”, afirma Romildo.

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