O impeachment de Dilma e a consequente ascensão de um presidente sem voto e sem prestígio motivou a volta das mobilizações sociais de rua. Nas suas entranhas, retornam os Black Blocs e recrudesce a repressão policial. É preciso cuidado no trato dos descontentamentos motivados pela conjuntura política e econômica. Os movimentos de rua são legítimos em um Estado Democrático de Direito. Política se faz a partir do dissenso, ou seja, política não é consenso. Por isso a importância do “conflito”, da divergência, do diálogo e da argumentação em prol do melhor para a coisa pública. Na Grécia Antiga, a democracia era exercida pelos cidadãos de forma direta. Na Ágora, a praça onde todos se encontravam para discutir as relações de direitos e deveres, ocorriam os debates e os interesses públicos eram geridos. Era a alma da cidade. Quem ousou não a ouvir, caiu no ostracismo. Na história do Brasil, Pedro II resistiu ao clamor popular e foi um dos últimos do continente a libertar os escravos. Assim mesmo, quem assinou a Lei Áurea foi a princesa Isabel, em 1888. Fim da monarquia. Hermes da Fonseca (1910-1914) usou o exército para calar manifestações que terminaram na Revolta da Chibata. Vinte mil mortos no final do seu governo. Na agitação operária de 1917, Washington Luís disse que “a questão social é um caso de polícia”. Abriu caminho para a sua destituição, em 1930, e ao aparecimento de Getúlio Vargas. Nos dias atuais, Michel Temer acha que os manifestantes não passam de “quarenta ou cem insatisfeitos”. Washington Luís também dizia que “representam o estado de espírito de alguns, mas não de toda a sociedade”. Fico com a lição prudencial de Max Weber: “política significa participação no poder, ou para a influência na sua repartição, seja entre os Estados, seja no interior de um Estado ou entre grupos humanos que nele existem”.
A criminalização das manifestações recentes, na Avenida Paulista e no Largo da Batata, acompanhada do uso desproporcional da força nunca foi a estratégia mais inteligente. A Corte de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), chama a atenção das lideranças mundiais para pressionar o governo brasileiro que estaria violando o direito de expressão. O juiz de uma das varas de São Paulo mandou libertar 18 presos durante os distúrbios. “O Brasil, como Estado de Direito, não pode legitimar a ação da polícia de praticar abusos como a “prisão para averiguação”, sob pretexto de que poderiam praticar atos de violência e vandalismo em manifestação ideológica”. O comando da PM defende-se. Teria agido para “preservar vidas”, contra a tática dos minoritários, calcada na desobediência civil e destruição de patrimônios público e privado.
O problema é que a repressão policial não é uma resposta eficiente. Os fatos passados e recentes assim demonstram. Os Black Blocs não têm uma organização formal, nem lideranças que os representem, mas são um grupo político, motivado por uma ideologia inspirada no anarquismo e unificado em torno da opção pelo uso da violência. Seus alvos são símbolos do capital e do Estado, e ataca-los é visto como a melhor forma de obter visibilidade e de alcançar as mudanças que pretendem. Nada de novo nesse ideário. O argumento de que a violência deve ser usada para alcançar mudanças políticas é antigo, como já vimos. Os cientistas políticos dizem que os Black Blocs, na versão contemporânea surgiram na Alemanha dos anos 1980. O nome e a prática forma globalizados durante as manifestações por justiça global na virada do século. No movimento Occupy Wall Street, de 2011, blocos de jovens vestidos de negro atuavam com os mesmos símbolos e desespero – contra a desigualdade econômica e social, contra a ganância, a corrupção e a indevida influência das empresas na vida pública, sobretudo no setor financeiro, nos EUA.
A violência isola o movimento. Tira da rua aqueles que simpatizam com as demandas, mas que não gostariam de correr o risco de acabar no meio de uma guerra urbana entre policiais e jovens mascarados. Alguns contra argumentam que a violência gera espaço na mídia para o movimento. Enganam-se. O espaço deixa de ser do movimento. A pauta passa a ser a da violência e do vandalismo. Protestos fazem bem à democracia, mas não com essa dinâmica da violência. “Polícia para quem precisa de polícia” - cantavam os Titãs. Deixem as portas de vidro em paz, antes que tenhamos uma nova Noite dos Cristais do nazismo. Moderação vai bem para ambos os lados. Só assim será possível ouvir uma diversidade maior de vozes e saber dos reais interesses que permeiam a arena pública.
O autor é jornalista e articulista do JC