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"O racismo ficou de lado"

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 5 min

Fotos: Alex Mita e arquivo pessoal
Cabo Lucas Montalvão Ban exibe no celular o registro do momento em que fazia demolição de casas

O saldo de enchentes causadas pelo grande volume de chuvas no Estado da Louisiana, no Sul dos Estados Unidos, a partir do dia 13 de agosto (as chuvas continuaram até o dia 19), foi de 13 mortos e 20 mil pessoas em abrigos de emergência. Pelo menos 7 mil delas perderam absolutamente tudo o que tinham. Segundo as autoridades, as mortes aconteceram nas cidades de Lafayette, Santa Helena, Tangipahoa e em Baton Rouge.

 E foi justamente em Baton Rouge, a Capital do Estado da Louisiana, que o cabo Lucas Montalvão Ban, morador de Ipaussu e membro do 12º. Corpo de Bombeiros de Bauru, chegou logo após o ápice das enchentes. Bem ao estilo a pessoa certa no lugar certo, ou, se preferirem, chamado pela famosa “lei da atração”,  ele se integrou às operações de rescaldo das enchentes. Já de volta a Bauru e suas atividades rotineiras, ele conta como foi viver esse momento peculiar. Nada, é claro, parecido com o que ele imaginava para suas férias.

Pior desastre após o Sandy 

A Cruz Vermelha americana declarou que o desastre natural foi o pior a acontecer nos Estados Unidos desde o furacão Sandy, que atingiu a costa leste do país (inclusive o estado de Nova York) há quatro anos. Os reparos irão custar pelo menos US$ 30 milhões.  “Quando chegamos, o pior já havia passado, mas o cenário era digno do seriado ‘The Walking Dead’”, lembra Lucas Montalvão. Para quem não sabe, o seriado feito para a televisão norte- americana foi sucesso no mundo todo ao retratar cidades devastadas num mundo dominado por zumbis (mortos-vivos). Lucas e a esposa Rosana Ramos, dentista de Ipaussu, foram a passeio para a casa do filho dela que mora em Baton Rouge há um ano. Tiago Ramos, o enteado, cursa o mestrado em química na Louisiana State University (LSU) e é casado com uma porto-riquenha, Ingrid Rivera Pagan, que é funcionária do governo federal norte-americano, trabalha na divisão de polícia fazendo análises de DNA em casos de investigações criminais. Através da mulher de Tiago foi que Lucas se integrou às equipes de resgate.

Cenário devastador

“Chegamos lá dois dias depois das chuvas e muitos bairros estavam totalmente destruídos e ainda alagados. Lá é tudo muito plano, como no nosso litoral, e então apenas alguns lugares mais altos é que escaparam”, conta Lucas Montalvão Ban. Ele relata ainda que Ingrid, a nora da esposa, ficou dias sem trabalhar. “Quase todos os funcionários do trabalho dela perderam tudo e os familiares deles também. Todos da polícia estavam ajudando e oferecemos nossa ajuda também”. “Apesar de boa parte da água já ter escoado, o cenário nos bairros parecia mesmo cena do seriado ‘The Walking Dead’, com muitas casas destruídas, muito lixo nas ruas, um cheiro horrível.”

Desmontando casas

Por três dos 15 dias em que eles permaneceram nos EUA, a família toda ajudou. Eles faziam a seleção do que poderia ser aproveitado nas casas, porque muita gente empilhou móveis e colocou os pertences mais importantes por cima e muitos ficaram a salvo. Tiveram todos que usar máscaras por causa do mau-cheiro. Isso porque lá as casas são de madeira e, no contato com a água, a madeira encharcava e acabava fedendo. Por isso também muitos imóveis ficaram condenados. Coube ao cabo Lucas Montalvão se integrar ao serviço de demolição das casas. 

Racismo e tensão

Se há algo de positivo que se pode tirar em tragédias como essas foi justamente a união das pessoas. A cidade vinha sofrendo com tensões raciais. Assim como todo o país.

Só para rememorar, em 5 de julho, um vendedor ambulante negro foi morto por um policial que tentava detê-lo, em episódio cuja responsabilidade está sendo investigada. No dia seguinte, no Estado de Minnesota, outro homem negro foi morto em uma ação policial. Ele estava com a namorada e a filha dela no carro. Ela filmou toda a ação policial.  O vídeo foi postado nas redes sociais e teve quase cinco milhões de visualizações. Os dois casos levaram a uma onde de protestos em todo o país. E culminaram em Baton Rouge mesmo, quando um atirador matou três policiais. Em 19 de julho,  Lavin Long, um veterano da guerra no Iraque, de 29 anos, abriu fogo contra policiais, em frente a um posto de gasolina próximo à sede da polícia de Baton Rouge. Três morreram, e outros três ficaram feridos.
Dali para cá o clima estava tenso na cidade.

União e ânimos serenados

Mas não foi o que Lucas Montalvão sentiu. “O que eu senti foi que a enchente serviu para unir os negros e os brancos, e eles mesmos diziam isso. Depois que os policiais mataram um negro e outros policiais foram mortos, virou um caos lá, com muitas manifestações nas ruas. A Ingrid disse que os negros fechavam as ruas com faixas reclamando que a polícia tinha matado um negro injustamente e ninguém ligava, que eles tinham seu valor...”, conta comovido.

“Todos tiveram que se ajudar e acalmaram-se os ânimos por lá. Eu  e minha esposa já fomos várias vezes aos EUA  e vemos que lá o racismo é muito grande, e quando estávamos ajudando vimos que eles se uniram pela causa e deixaram as diferenças de lado”, conta, para finalizar sua impressão pessoal da experiência. “Gostamos de ter ido ajudar, pois fazer caridade nunca é demais e faz um bem muito grande para a gente. Foi uma experiência única, pois nos lugares tinham muitas pessoas de etnias diferentes e lugares do mundo todo ajudando. Tinham mexicanos, americanos, porto-riquenhos, cubanos, equatorianos, canadenses, africanos...conversamos com muitos imigrantes que vivem por lá”. Foi enriquecedor e o racismo ficou de lado, sintetiza. 

Vale lembrar que a experiência profissional do cabo sempre é em regiões propícias a enchentes. Antes de trabalhar em Bauru, onde já atuou em vários momentos nas famosas enchentes da  avenida Nações Unidas, ele trabalhou na grande São Paulo. “Lá as enchentes são fortes, muito mais do que aqui.”

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