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Convidativo, cartão de crédito pode ser ainda mais perigoso na crise

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Consideradas as linhas de crédito mais caras do mercado, o cheque especial e o rotativo do cartão de crédito podem ser uma tentação para quem está sem dinheiro e com dificuldades para quitar dívidas. Mas este tipo de crédito emergencial pode se tornar uma grande armadilha para quem tem a vida financeira em desordem.

Disponível a qualquer tempo, sem burocracia e com limites generosos que podem chegar a até quatro vezes a renda do correntista, pode acabar se transformando em um recurso convidativo diante de um cenário de aumento dos índices de desemprego, queda da renda e persistência da inflação.

Especialistas ouvidos pela reportagem, contudo, alertam: fuja desta “facilidade” enquanto puder. Os juros do crédito rotativo passam a incidir quando o consumidor decide pagar a quantia mínima na fatura do cartão, deixando para quitar o restante depois. Segundo pesquisa da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), quando faz esta opção, o correntista fica sujeito a taxas que chegaram, em agosto, a inacreditáveis 451,44% ao ano. Já os juros do cheque especial atingiram o patamar de 296,33% ao ano. Para o economista Reinaldo Cafeo, quem usa este tipo de instrumento normalmente se rende a uma falsa sensação de que as linhas de crédito são a extensão de seu orçamento, sem se dar conta do quanto elas corroem a renda. “O cheque especial, por exemplo, só deveria ser utilizado em emergências, com o valor sendo quitado em até dez dias, prazo em que alguns bancos só cobram o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras).

Mais do que isso, é problema”, ensina. Economista do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Ione Amorim também pondera que, em um ambiente de crise, em os preços estão em alta, o uso do cartão e do cheque especial pode se tornar uma “bomba relógio”. “Por conta dos juros altos, que beiram a condição de tornar a dívida impagável, rapidamente a pessoa pode ser levada a uma situação de total descontrole fi nanceiro”, pontua.

EMPRÉSTIMO

Para quem já está endividado, Cafeo sugere a venda de um bem ou a contratação de um empréstimo com juros menores para quitar o débito. “Se ele tem cheque especial, é porque tem crédito junto ao banco. Então, também consegue acesso ao crédito pessoal. Há uma disposição do banco em fazer com que o cliente tenha meios para pagar sua dívida”, frisa.

A melhor opção, ele diz, é o crédito consignado, com desconto em folha, para quem está empregado, for aposentado ou pensionista. Os juros, segundo o economista, podem variam de 3,5% a 5%. “Quem deve R$ 10 mil no cheque especial está pagando juro de R$ 1,2 mil mensais. Se parcelar um empréstimo em 24 meses, vai desembolsar R$ 724,00 mensais. Ou seja, o valor somente dos juros do cheque especial é maior que o da parcela do financiamento do valor principal já acrescido de juros”, salienta, acrescentando que o penhor de joias também pode ser uma alternativa viável. Ione destaca, no entanto, que o consumidor precisa ter disciplina para não contrair novas dívidas e não perder o controle sobre suas finanças mais uma vez. “Por isso, antes de fazer o empréstimo, o primeiro passo é fazer uma avaliação do seu nível de gastos e reduzir o padrão de consumo, estabelecendo metas com objetividade”, esclarece

REVISÃO

Quando o orçamento não cabe na planilha de gastos, a saída é dar prioridade para o pagamento de compromissos essenciais, como a água e a energia elétrica, bem como as que sofrem com alta incidência de juros, como o próprio cartão de crédito e o cheque especial.

“Para buscar adequação entre receita e despesa e conseguir quitar as contas em dia, é preciso cortar supérfluos das compras de supermercado, diminuir gastos com lazer, suspender temporariamente, serviços como os de TV a cabo”, enumera Ione Amorim. Somente após esta revisão, quando já conhece o valor da parcela que terá capacidade de pagar, o consumidor deve procurar uma instituição financeira. “Não adianta só ter boa intenção. Se a proposta estiver fora da realidade, será só mais uma dívida que ele terá de renegociar ao longo do tempo”, analisa, aconselhando, ainda, a realização de atividades que possam complementar a renda temporariamente, como trabalhos aos finais de semana, para facilitar a saída do vermelho.

 

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