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Negócios promissores?

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

O aquecimento global vai dar nova forma ao planeta e de maneira geral, já se sabe como: os lugares quentes ficarão mais quentes; o gelo simplesmente derreterá; os países pobres, em grande parte tropicais e os menos responsáveis pelo aquecimento, sofrerão o maior impacto. E hoje, é exatamente para as regiões mais pobres que se têm dirigido os empreendimentos econômicos mais danosos em termos ambientais. Nestas áreas de maior privação socioeconômica, também se concentram a falta de investimento em infraestrutura de saneamento, a ausência de políticas de controle dos depósitos de lixo, a moradia de risco, a desertificação, entre outros fatores, concorrendo, ainda mais, para péssimas condições de vida e de trabalho. As regiões mais ricas não estão inteiramente imunes, já há milhares de refugiados climáticos que buscam as latitudes superiores do planeta. Como cita McKenzie Funk (em Windfall: the booming business of global warming), se de um lado a África tenta conter o Saara, a Europa tenta conter os africanos.


Embora se fale em aquecimento global, existe, na verdade, uma desigualdade ambiental que se manifesta tanto sob a forma de proteção ambiental desigual como de acesso desigual aos recursos ambientais. Há, sim, diferenças nos graus de exposição das populações aos males ambientais e isso decorre de processos sociais e políticos que distribuem de forma desigual a proteção ambiental. No plano mundial existe um pequeno grupo com alto padrão de consumo que pressiona por uma apropriação muito intensiva e pouco prudente dos recursos naturais, por outro lado, grande parte da população do planeta permanece abaixo dos patamares de consumo necessários para sua simples sobrevivência. Outro aspecto dessa questão aparece quando se observa que, enquanto alguns se predispõem a trabalhar para o Greenpeace, outros identificam o aquecimento como uma megatendência que gerará lucros por décadas. São aqueles que investem em empresas que constroem plantas de dessalinização da água do mar, que investem nas gigantes da biotecnologia e da agricultura, nas multinacionais de fertilizantes e defensivos agrícolas.


Existe quem aposte na valorização de terras aráveis da Rússia, um solo fértil e ainda barato que, subitamente, estará disponível por conta de invernos mais brandos. Se a mudança climática atrapalhar as safras, gasta-se mais para comprar comida, com esse raciocínio, comprar ações de redes de supermercados parece ser um bom negócio. Se os desastres naturais se tornarem mais comuns e a mudança climática causar mais cheias e secas, as companhias de seguro e as resseguradoras devem ganhar poder de barganha. Para elas, ventos e chuvas mais fortes é um fato bem positivo e permitirá um aumento em suas taxas.


O recuo do gelo mostra as riquezas do Ártico: o petróleo e novas rotas comerciais. Quanto menos gelo houver, mais petróleo estará ao alcance e maior será a pressão para reivindica-lo porque nossa necessidade de petróleo não vai desaparecer. Mesmo que não o usemos tanto, em carros e caminhões, vamos precisar de plásticos, de fertilizantes e de outras tantas coisas essenciais derivadas do petróleo. Estima-se que 22% das reservas intocadas do mundo – 90 bilhões de barris de petróleo e 47 bilhões de metros cúbicos de gás natural – estejam escondidas no extremo norte.


E esse petróleo é atraente por muitas razões, em particular porque há cada vez menos petróleo em outros lugares e o que resta está em países hostis (Irã, Venezuela, Sudão), em áreas de conflito (Iraque, Nigéria, Líbia) ou ainda em locais de difícil acesso como o pré-sal.

Como se percebe, infelizmente as ideologias que nos trouxeram até aqui – a fé inabalável em mercados sem restrições – são as mesmas nas quais muitos se baseiam para encontrar uma saída. Em nenhum outro aspecto a visão curta da humanidade fica mais óbvia do que na maneira como nos preparamos para um mundo aquecido.


O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - Câmpus de Bauru SP

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