Escutando um som de respiração, parecido com um “fungar”, vindo de uma janela do meu local de trabalho, fui verificar e encontrei um casal de urubus, cuidando zelosamente por sua cria. Talvez estejam avisando que estão atentos aos perigos que seu gracioso rebento corre, e avisando que o estão protegendo. São vários dias que ouço este respirar (ou aviso). Invejo, numa visão perpendicular à terra, a altura que esses animais voam elegantemente. Imagino que, sem se preocuparem com isso, avistam todos os limites da cidade. Têm um “radar” perfeito que os colocam nos lugares desejados. Todos nós sabemos do tipo de sua alimentação.
A natureza é perfeita na sua cadeia alimentar, pois o destino de animais mortos é o estômago desta ave e de outros animais necrófagos, ajudando na preservação do meio ambiente. Se sua alimentação nos trás asco, deveríamos pensar que seres humanos também reviram latas de lixo, procurando alimentos descartados, que possam saciar sua fome, sem terem chance de escolher sobre o quê estão comendo.
Uma fotografia que correu o mundo, onde o fotógrafo registrou uma criança desnutrida e famélica, sendo observada por um urubu, e que foi interpretada como a nobreza deste animal de esperar pela morte da mesma, para depois adentrar em suas entranhas, coisa que os detentores de poder, ao desviar os recursos dos impostos, intencionalmente, expõem milhares de seres humanos, à maior miséria. Estamos vendo diariamente, pelos meios de comunicações, o que o ser humano é capaz de fazer, como a situação dos imigrantes, os arrepiantes casos da saúde dos menos favorecidos economicamente, a falta inescrupulosa de saneamento básico em muitas cidades, mesmo em algumas consideradas desenvolvidas, os crimes por motivos vis, a corrupção que rouba a chance de melhores condições da população e mais um sem número de exemplos, que podemos acrescentar.
Nessa época de eleições, vemos “urubus”, voando alto para avistarem suas presas eleitorais, prometendo ações que sabidamente não terão competência jurídica, financeira ou moral para concretizá-las. É dessa “carniça” que se alimentam, certamente, com menos nobreza que a dos urubus. As propagandas de muitos dos candidatos a vereadores e prefeitos, parecem programas humorísticos , de tão toscas e ilusórias. O meio político está muito contaminado e corremos sérios riscos de elegermos representantes desconhecidos, que a avaliação positiva ou negativa de seu desempenho, só poderá ser avaliada futuramente.
É agradável, nas conversas entre amigos, abordar temas mais leves e divertidos, mas o momento está envolvendo o nosso futuro e dos nossos descendentes. Somos dotados de dois pés, para andarmos em terra firme, com horizontes curtos que são possíveis vislumbrar. Não temos a visão de urubu ou de águia, para enxergarmos mais longe. Pensemos.
O autor é professor da FOB-USP e membro do Lions Clube de Bauru Centro.