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A última estimativa de população divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registra redução no número de habitantes em pelo menos seis municípios com média de 4.000 a 15 mil habitantes. A crise econômica e falta de oportunidade de empregos nessas cidades são apontadas como a provável causa. O aposentado João Rodrigues, de 60 anos, é uma dessas testemunhas de como mudou a agricultura nos últimos anos na pequena Presidente Alves (56 quilômetros de Bauru), onde teve queda de 15 habitantes de um ano para outro. No acumulado do último censo, num espaço de 10 anos, só houve acréscimo de 58 habitantes.
Sentado no banco da praça ao lado de seu amigo José Lúcio, Rodrigues conta ao JC que começou a trabalhar em uma fazenda, depois migrou para a cidade, onde trabalhou na prefeitura até se aposentar. “Era um faz tudo”, contou. O aposentado relembra que o município passou por transformações na geração de emprego na agricultura, o que reduziu numa década as oportunidades de emprego. “Antes tinha pastagens, depois mudou para a cana e agora está no eucalipto, que não dá tanto emprego”, opina ao saber da redução no número de habitantes apresentado pelo repórter.
Presidente Alves sentiu a redução de população após a principal empresa empregadora, a usina Guaricanga, ter pedido recuperação judicial quando parou a produção. A empresa foi adquirida por outros empresários, mas não conseguiu ainda reativar a moagem de cana, cortando as oportunidades de empregos no município nos últimos quatro anos.
Pongaí também tem desaceleração no número de habitantes assim como Uru, Vera Cruz, Paulistânia e Duartina.
Os representantes de municípios incluídos nesta lista discordam das estimativas recentes do IBGE. O prefeito de Pongaí, Adilson Brumati, declara que pela “observação” se constata que não é bem isso o que ocorre na sua cidade. “Nossa economia é baseada na agricultura e temos recebido moradores de outros Estados, que moram no município para trabalhar no corte de cana, na colheita da laranja e pecuária”.
Quem segue também a linha de discordar da estimativa de população para este ano é o chefe de Gabinete de Duartina, José Eduardo Garla. “A gente até ficou meio indignado com relação a esta informação. Duartina está crescendo. Os Programas de Saúde da Família (PSF) estão aumentando e há novos loteamentos no município”.
A pesquisadora do IBGE da área de demografia e gerente de Projeções Populacional, Izabel Marri, explica que a estimativa populacional de 2016 não se trata de um recenseamento. É uma projeção com base na tendência de crescimento mostrado pelos municípios entre 2000 e 2010. “O IBGE faz uma projeção que vai até 2030”.
Mesmo sendo uma projeção, os números apontam que a retração econômica pode ser a causa dessa migração de pessoas para outras cidades.
Desemprego ‘motiva’ jovem a mudar
Desaceleração econômica é apontada como fator que influencia moradores de cidades pequenas a procurarem outras cidades para trabalhar e estudar
Onúmero de habitantes de Presidente Alves (56 quilômetros de Bauru) diminuiu de 2015 para 2016, segundo estimativa do IBGE, em 15 habitantes. Embora o número não seja muito significativo, aponta uma tendência atual dos jovens moradores partirem para cidade maiores em busca de empregos.
Caio Zamora, de 20 anos, veio de Ribeirão Preto para Presidente Alves, destoando da estatística. Ele tem dois empregos na cidade. Trabalha de vendedor numa loja agropecuária e numa clínica de dependência química. “Moro sozinho e comecei trabalhando na clínica. Vim de Ribeirão Preto, porque queria um local mais tranquilo, mas emprego aqui não tem”, conta.
A dificuldade do jovem permanecer no município é difícil. Se é estudante e mora com os pais ainda fica um período, depois as oportunidades estão fora, em municípios maiores como Bauru, Lins e cidades mais próximas.
Diariamente é disponibilizado um ônibus para levar os moradores que trabalham fora, com um custo adicional no bolso do trabalhador. “Quem ganha um salário de R$ 1.200, tem que descontar R$ 400 por mês só de passagem de ônibus. Quem conclui o segundo grau, a primeira coisa que vem na cabeça é ir embora. As pessoas residem aqui, mas dependem de uma cidade maior. Até tratamento de saúde, você precisa de ir para outra cidade. Aqui não tem atendimento 24h. Dá para notar que o número de pessoas está diminuindo”, conta Caio.
Apesar dessa dificuldade de geração de emprego, o vendedor aponta a tranquilidade da localidade e o custo baixo para vida como as vantagens de uma localidade mais calma em relação a centros maiores.
O secretário municipal de P. Alves, Sérgio Fonseca, confirma que a cidade oferece poucas vagas na área agrícola, principal empregadora. “Nossa economia é baseada na agricultura que está em crise há anos. Vivemos bem nos áureos tempos do café. Hoje, no lugar dos cafezais temos abacaxi e laranja que ainda empregam mão de obra rural.”
A expansão das plantações de eucalipto tem piorado ainda mais, na opinião dele. “As plantações de eucalipto não geram grande quantidade de empregos. Exige pouca mão de obra. A pecuária está em crise também. A dificuldade em arrumar emprego tem motivado os jovens a sair daqui.”
Na opinião dele, a procura por melhores condições de vida leva o jovem e posteriormente a família. “As famílias mudam pelo mesmo motivo. Para minimizar a situação, a administração tem tentado levar para o município empresas que gerem vagas de emprego. Conquistamos duas empresas de telemarketing com potencial para empregar 60 pessoas, por enquanto preencheram 40 vagas.”
Muitos moradores de P. Alves, segundo Fonseca, trabalham em Bauru. “Viajam todos os dias. A maioria trabalha na agricultura. Temos os funcionários da prefeitura e outros empregos. Mas a crise está afetando o município e seus moradores.”
A estudante enfermagem em Cafelândia Larissa Cristina Caetano Alves Palumbo, 18 anos, conta que quando terminar o estudo deve ir embora. “Aqui não tem emprego ou é a prefeitura ou tem que viajar todo dia se for trabalhar em Bauru. Quem for trabalhar prefere morar para lá. Meu pai nasceu em São Paulo e veio para cá.”
Larissa conta que tem dois irmãos, um deles trabalha na prefeitura. “Meu irmão pretende ir embora. Até o mais velho não tem vontade de ficar aqui. Abriu uma empresa no município, mas ela contratou pouco”, finaliza a estudante.
Queda em Pongaí
O prefeito de Pongaí, Adilson Brumati, não concorda com a estimativa do IBGE. Ele estranhou que a cidade esteja perdendo moradores. “É lógico que pela observação não me parece isso. Nossa economia é baseada na agricultura e temos recebido moradores de outros Estados que moram o município para trabalhar no corte de cana, na colheita da laranja e na pecuária.”
Ele cita a busca por casas de aluguel. “Aqui alugar uma casa é muito difícil. Há imóveis onde grupos de trabalhadores rurais moram em até sete pessoas por não ter casas disponíveis para alugar. São grupos, especialmente de maranhenses. Algumas famílias também têm vindo para cá.”
Segundo a estimativa do IBGE, em 2015 o município tinha 3.508 habitantes e em 2016 passou a ter 3.494. “Eu acho que aumentou. Mesmo considerando que a diminuição foi pequena, não acredito que diminuiu.”
Chefe de gabinete de Duartina diz que estranha essa ‘desaceleração’
Os números da demografia sempre são motivos de estranhamento no País, principalmente quando o aumento é menor do que as expectativas dos municípios. O chefe de gabinete da prefeitura de Duartina, José Eduardo Garla, admite que os números da projeção de população 2016 estão muito aquém de outros dados.
“A gente até ficou meio indignado com relação a esta informação. Duartina está crescendo. Os Programas de Saúde da Família estão aumentando e há de quatro a cinco loteamentos. Há construção de casas”
Pela estimativa Duartina perdeu 9 habitantes entre um ano e outro. Atualmente são 12.558 contra 12.567. Garla se contrapõe com números de atendimento de pessoas pelo PSFs e até do cartório eleitoral de alistamento de eleitores. “O normal de eleitores no município varia de 65% ao máximo 80% do número de habitantes. Em 2014, estávamos com 10.066 eleitores e, agora, em 2016, 10.266 eleitores. No levantamento junto ao Sistema de Informação de Atenção Básica em 2014 havia cadastrado 12.944 pessoas. Em 2016, temos 14.094 pessoas”.
O chefe de gabinete admite que não consegue entender a projeção de população. “É estranho o censo em Duartina diminuir e nunca aumentar. Pelos dados do SUS, com base no cadastrado de atendimento do hospital, na distribuição de remédios e atendimento, os números só aumentam. Na minha opinião, há discrepância muito grande com relação ao número de moradias, de casas, de pessoas per capita com os dados do IBGE”, argumenta.
O chefe de gabinete relata que reclamação sobre os números do censo de 2010 já tinha gerado reclamações, quando a cidade tinha 12.234. “A gente não se conformou com isso. Eles apresentaram dados que na cidade havia 10.097 e o restante na zona rural. Acho que é a forma de fazer o censo que não é bem feita em Duartina. Na época reclamamos”.
Fernão conquistou 21 habitantes em um ano e prefeitura fica animada
A qualidade de vida dos moradores de Fernão é um atributo que atrai novos moradores para a cidade. Em 20 anos de existência, nenhum homicídio foi registrado por lá. O que lhe garantiu ser considerada a mais pacata da região administrativa de Marília. Aposentados que conheceram a cidade e partiram em busca de empregos, retornam assim que se aposentam. O prefeito Altemar Canelada Campos explica que além da qualidade de vida oferecida aos moradores, Fernão tem duas médias empresas do setor moveleiro que atraiu moradores de Gália e Duartina que buscavam vagas de emprego.
“As atividades agrícolas com a expansão das estufas têm empregado trabalhadores rurais. Fernão está localizada na rodovia João Ribeiro de Barros, entre Bauru e Marília. Bem no meio do caminho, pela rodovia Bauru-Marília. A olericultura é forte por aqui. Eles entregam verduras no Ceasa de Bauru e Marília.”
Campos explica que a tranquilidade na área de segurança tornou o município atrativo para aquelas pessoas que já estão acima de 60 anos e aposentadas. “Cerca de 40% da população pertence a terceira idade. Muitos saíram da região e foram trabalhar na Capital. Agora retornam para curtirem a aposentadoria.”
Campos ressalta que quando assumiu a prefeitura o governador o chamou em seu gabinete para informar que iria instalar uma penitenciária na cidade. “Eu não deixei, neguei, não quis mesmo. O município de Gália aceitou e atualmente tem duas unidades prisionais. Achei na época que a instalação do presídio prejudicaria os moradores.”
Cidades do mesmo porte de Fernão, segundo o prefeito, não possuem Centro de Referência de Assistência Social (Cras), que oferece atividades voltadas a esse público. “A assistência social faz um trabalho focado nos moradores idosos. Tem curso de artesanato. O mesmo acontece com a Saúde. Temos uma Unidade Básica de Saúde com trabalho voltado a eles.”
Projeção é com base em censos, diz IBGE
O recenseamento é feito a cada 10 anos, quando todas as casas são visitadas. É assim que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) faz para levantar os números do censo para atualizar a base de dados da população dos municípios.
Com a informatização o sistema é alimentado com informações digitalmente. No decorrer dos anos é feita estimativa matemática com base nos censos de 2000 e 2010. “O IBGE faz uma projeção com base nos parâmetros demográficos dos Estados. Essa projeção vai até 2030. Com base nessa projeção e com base na tendência de crescimento ou do crescimento mostrado pelos municípios entre 2000 e 2010 a gente estima a população no ano que não teve o censo”, explica a gerente de Projeções Populacional do IBGE, Izabel Marri.
Os dados de população, divulgado no site do IBGE referente a 2016, são projeção e não recenseamento. “Não se trata de um censo em 2016, o que a gente faz são recenseamentos demográficos de 10 em dez anos. A contagem populacional feita no meio da década foi cancelada. A gente faz uma estimativa matemática com base em dados de 2000 e 2010”, explica.
A pesquisadora ressalta que, alguns municípios marcaram uma tendência de crescimento entre 2000 e 2010, sem, no entanto, ter a previsão para o futuro. “O que pode acontecer ter ocorrido algum novo empreendimento dos quais são fatores que aumentaram o potencial econômico e consequentemente populacional desses municípios. Assim pode inverter a tendência de queda da população. Se isso aconteceu depois do censo de 2010 a gente não vai captar. Só vai captar na próximo contagem da população”, conta a pesquisadora.
Izabel acrescenta que na cidade pequena o dinamismo econômico às vezes muda quando da construção de casas populares, o que pode atrair população dos municípios se mudarem para esse empreendimento. “Alguns têm fraco poder de atração populacional. De modo geral, nos municípios maiores com maior densidade há ofertas de emprego com chances que atraem pessoas. O que mais define a distribuição das pessoas da população é a migração, a distribuição como um todo. Isso é até mais que a taxa de fecundidade. Quem teve uma saída migratória maior, entre 2000 e 2010, terá estimativa de população pequena”, ressaltou.
Estatística ocorre desde o império
O Brasil não tem tradição estatística. Desde os tempos coloniais realiza censos de população. A partir de 1750 a Coroa Portuguesa visava objetivos estritamente militares. Segundo a Wikipédia, em 1846 foi criado o primeiro regulamento censitário do país que fixava o intervalo de oito anos para execução do censo demográfico.
Depois, em 2010, foram-se utilizadas das novas Tecnologias de Informação e Comunicação que possibilitaram ao Brasil a primazia de realização do primeiro censo demográfico digital do mundo.
