A eleição de João Doria Jr. no primeiro turno como prefeito da cidade de São Paulo é bastante sintomática, no que se refere ao atual quadro político do país. O candidato do PSDB, que já havia disputado uma acalorada prévia partidária municipal com Andrea Matarazzo, conquistou a vaga através de um discurso totalmente apolítico. Doria diz colocar toda a sua experiência como gestor, empresário, apresentador de televisão e detentor da Revista Caviar Lifestyle a serviço da cidade de São Paulo. Ou seja, Doria acumula várias experiências se e utiliza delas para rechaçar a condição de político, estando concorrendo a um pleito político. A princípio parece contraditório, mas tal discurso o fez alcançar mais de 53% dos votos válidos, elegendo-o prefeito no primeiro turno. Por ironia do destino, o maior adversário de Doria nesta eleição foram os votos brancos, nulos e as abstenções: juntos, eles somaram 3.096.304 votos - mais do que os 3.085.187 que elegeram Doria.
O que nos leva a crer que, na realidade, uma fatia considerável da população paulistana não desejaria ver nenhum daqueles candidatos eleitos, sendo "ninguém" o prefeito preferido da próxima gestão. O altíssimo quadro de brancos, nulos e abstenções se deve sim à descrença no atual quadro político: tanto àqueles que saem em passeatas anticorrupção e anti-PT, quanto àqueles que consideraram ilegítimo o processo de impeachment ocorrido em 2016. Do ponto de vista destes eleitores, tanto faz votar ou não votar, eleger ou não eleger um ou outro candidato: no fim das contas, a representatividade é praticamente nula, e a classe política segue descolada/alienada de quem verdadeiramente representa. Vitória da nulidade.