Tribuna do Leitor

É muito mais artesanato

Marcondes
| Tempo de leitura: 3 min

Todos querem fazer arte, no sentido amplo da palavra, quando se escreve um texto, pinta-se um quadro ou se dá a luz a um produto, fruto de suas habilidades.

Porém, arte é conceitual, abstrata e para ela conviver com nossa rotina é preciso muita concentração e poder de nossa parte. Porque o que temos e assistimos amiúde é artesanato. Esta crônica, por exemplo, não é literatura clássica ou será eternizada nas mentes dos leitores. Quisera eu possuir estes predicados, de fazer com que minhas frases escritas com certa assiduidade, façam parte do cabedal magnífico e reconhecido, onde cintilam Drummonds, Saramagos, Machados e Garcias Marques.

Dando-se conta disso, recolho-me ao meu ínfimo lugar e gozo com isso. Porque não é um Jardim de Monet que convive comigo. Mas sim o suporte feito de bambu pela minha vizinha que segura o saleiro. Ou o fantástico "puxa-saco", que armazena as centenas de sacolas plásticas do supermercado das quais a gente sempre precisa. Olha que fenomenal: é só ir lá e puxar que, longe do mercado, lá está a sacolinha que certamente estaria no lixo, longe da nossa casa.

Os famosos bonecos de Vitalino - que são conhecidos até no Sul, como disse Luiz Gonzaga - são considerados obras de arte devido à pureza da sua mensagem, em retratar a vida do nordestino, a indumentária de Lampião e os usos e costumes de nossos irmãos do sertão.

Mas, como na natureza tudo se copia e nada se cria, logicamente os bonecos de Mestre Vitalino começaram a pulular por todas as feirinhas, sendo fabricados em série, de norte a sul, sem que nenhuma recompensa se pagasse ao autor genuíno de tais obras. Perguntado se não estava chateado com isso, o escultor sábio respondeu: "Tem problema não. É tudo igual..." Da altura de quem concebeu as obras e que com suas próprias mãos as construiu com o barro do fundo de sua casa, sua resposta é uma aula do que é arte e o que é artesanato. Arte é a dele, porém, foi homenageado com as cópias em escala daquilo que ele fez com pioneirismo. Dinheiro? Ah, dinheiro nessa hora fica em segundo plano, porque a parte dele já estava feita, e muito bem feita.

Artesanato, que compõe o mosaico de nossa vida, tem a ver com a pecúnia mesmo. Afinal, nossa lida não está relacionada com a sobrevivência, com o trabalho e com os afazeres que envolvem sempre o vil metal? Não tem nada a ver a Mona Lisa na copa de casa ou na escola nos olhando, enquanto estamos preocupados com o aluguel ou com a prova de Geografia de hoje à tarde. O abridor de garrafas feito com um pedaço de madeira e um prego coadunam muito mais com esta nossa realidade diária.

Mas sem a arte ninguém vive, daí sua importância. Ao ler um poema de Manuel Bandeira, meus pés saem do chão. Quando o artesão se esmera muito, tanto nas habilidades manuais com escopros e martelos ou no momento que se escreve, que se pinta, que se canta ou que se dança, muitas vezes atinge-se um padrão grande de qualidade, que faz com que este produto tangencie uma obra de arte. São raros estes momentos, quando nós, artesãos das nossas habilidades, fazemos algo realmente belo. É o máximo ser reconhecido pelo trabalho nascido de nossa própria capacidade.

A César o que é de César. Cantar e tocar violão até eu consigo. E eu, como artesão das palavras, faço aqui esta declaração para que saibamos lidar e entender que rima e verso não é poesia. Moldura dourada não é pintura. A arte nos faz nascer e renascer. O artesanato nos mantém vivos.

 

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