Sou do tempo em que se estudava latim no ginásio. Aprendi quod abundat non nocet, ou seja, o que abunda não prejudica. Sabia de cor as cinco declinações e os pronomes relativos qui, quae, quod - quem tem barba tem bigode. As fábulas em latim de Esopo (600 a.C.), me ensinaram que o cordeiro pode ter resposta para tudo, mas será comido pelo lobo assim mesmo. Estudei francês, com todo o livro na ponta da língua: le lion, le roi des animaux. A garotada traduzia: o leão, de tanto urrar, desanimou. No segundo ano entrava inglês. The book is on the table. No fim do curso de quatro anos, em matéria de língua, ninguém sabia nada de nada. O que valia mesmo para a progressão do aluno era matemática, física e química. Diziam que o latim seria útil para a graduação em Direito - ou para ser padre. Ainda hoje topo com quem confunde habeas corpus com corpus christi; e se utilize do latinório datíssima vênia, que seria uma divergência respeitosa, mas inadmissível no tempo verbal.
Naqueles idos já se falava em reforma do ensino. Havia no currículo obrigatório matérias como solfejo. O professor batia com um lápis na mesa e o aluno tinha que colocar a nota correspondente em um pentagrama. Trabalhos manuais: uma bagunça com madeira compensada, serra tico-tico e verniz. Depois da aula de modelagem chegava em casa com argila preta até nos cabelos. Passado mais de meio-século, quando li que o governo, "preocupado" com a educação, apresentou uma medida provisória para dar praticidade ao ensino, lembrei-me de tudo o que passei. E ri, em meio à consternação geral. As mudanças, entre outras coisas, visam a implantar a escola de tempo integral e permitir ao aluno as disciplinas que deseja cursar, de acordo com a área que lhe seja afim: matemática, ciências humanas, linguagens ou ciências da natureza. Ou, ainda, a carreira profissional que deseja seguir. O atual modelo está há muito ultrapassado. Sem identidade clara, o ensino médio foi recebendo enxertos ao longo de décadas. O inchaço do currículo não permite nem uma formação técnica aprofundada, nem uma digna preparação para os vestibulares. O número de disciplinas (13) também não respeita a individualidade dos alunos.
Mas o governo começa errando ao apresentar algo que implica em consenso mediante medida provisória. Pode piorar esse cenário já desolador. No Pisa, organização mundial que avalia os estudantes de todos os países, estamos em 58º lugar. Nossos alunos não são capazes de entender um parágrafo e muito menos compreender informes de linguagem. Em ciências, os resultados foram mais desastrosos. Dois em cada três alunos brasileiros de 15 anos não são capazes de entender percentuais, frações ou gráficos. No Ensino Nacional de Ensino Médio (Enem), 91% das unidades públicas ficaram abaixo da média. Das 100 de escolas que se saíram melhor no País, só três são públicas. Aumenta o círculo de exclusão do pobre para entrar nas universidades. As matrículas caíram 7% no ensino superior.
Agora, não me parece bom tirar matérias de formação e humanização como filosofia e sociologia, que fazem o aluno pensar. Estou com Wittgenstein. Ele dizia que não tinha orgulho do que aprendeu, mas do esforço que fez para aprender. Ralei para entender o latim do padre Bicudo. Talvez esse esforço tenha colaborado para me dar a oportunidade de escrever neste jornal. Lembra um pouco aquela anedota do escritor irlandês Bernard Shaw (1865-1950). Dois estudantes saem de casa com uma maçã, e se encontram na escola, trocam as maçãs e voltam para casa, cada um com uma maçã. Mudemos então a perspectiva: imaginemos que dois estudantes saiam de casa cada um com uma ideia, se encontram na escola, trocam as ideias e chegam em casa cada um com duas ideias. Moral da história: a cultura pode enriquecer todos os protagonistas. Não é útil apenas o que gera lucro ou tem uma finalidade prática imediata; os que muitos aceitam ser inútil pode ser, na verdade, indispensável para a humanidade. A Coreia do Sul, por exemplo, entendeu que, sem as humanidades, não temos a possibilidade de fazer progredir a ciência e a tecnologia, que vem exatamente da fantasia e da imaginação.
Há quem defenda que a escola moderna é aquela conectada com Internet em todo lugar e que o estudante tenha um tablet ou um computador diante de si. Isso é uma estupidez enorme. A escola moderna nada tem a ver com tecnologização, mas com bons professores, dedicados, porque dignamente remunerados. Eles é que geram bons alunos.