Sem entrar no mérito do fator comercialização e mercantilização da data comemorativa "Dia das Crianças", prefiro divagar, ingenuamente, na pureza da data associada a uma infância animada, alegre, recheada de risos fáceis em semblantes descontraídos, nas palavras inocentes e olhares afetuosos, nas mãos angelicais, frágeis e gentis que toda criança tem, ou pelo menos deveria ter. Essa criança idealizada, relatada nas palavras anteriores, deveria estar espalhada pelo mundo, de forma equânime, independentemente das fronteiras geográficas, culturais, econômicas, religiosas, étnicas.
Por isso e por elas, deveríamos lutar, incessantemente, para que a infância, por todo o mundo (em tempos de globalização temos de pensar grande), tivesse esse modelo de vida quase utópico, no qual não houvesse ataques terroristas, homens-bomba, guerras em nome do Pai, falta de alimentos, medicamentos, vacinas, água potável... Infelizmente o mundo real mostra crianças que são treinadas para se explodirem, que se expõem a perigos e aventuras em busca de um novo lar, uma nova terra que seja generosa, acolha-as e lhes de oportunidade de crescimento digno.
Esse mundo real é cruel e não precisamos ir longe para encontrá-lo. Aqui mesmo, as nossas esquinas mostram-nos infantes pedindo migalhas para comer, moedinhas para si ou para os adultos que as exploram, sempre maltrapilhas, mal-cheirosas, com cabelos desgrenhados, roupas rotas, chinelos em frangalhos. Ainda assim, muitas delas conseguem sorrir e, ao fazer isso, revelam que têm esperança e creem que o mundo ainda lhes sorrirá de volta.
Todas as crianças são merecedoras de finais do tipo "felizes para sempre", sem necessitar da infância Gata Borralheira, Branca de Neve ou Patinho Feio para chegar a eles. O mundo deveria ser um lugar mais auspicioso, preparado para receber novos habitantes com dignidade e qualidade de vida. Que tal construirmos, planeta afora, mais escolas, praças, centros de lazer, creches? O ideário de construção de campos de refugiados ou muros separatistas deveria ser abolido, banido para sempre.
Se pensarmos nisso seriamente, se nos movimentarmos, minimamente que seja, se cada um fizer sua pequenina parte, teremos o direito de sonhar com esse mundo que, pelo menos por enquanto, é quase surreal. Assim, termino este arremedo de texto com a reprodução, pouco fidedigna, de uma imagem que vi na rua, indo para casa após o trabalho, bastante cansada, mas que me encheu de energia. A descrição, infelizmente, não revelará tudo o que vi e percebi, por falha técnica de quem a descreve, mas vamos a ela. Havia uma garotinha, de seus 10 ou 11 anos, correndo pelas calçadas da avenida, mas não era uma corrida qualquer, ela saltitava, o vento batia-lhe no rosto, esvoaçando-lhe os cabelos, a mochila pendurada subia e descia em suas costas acompanhando o frenético movimento de suas lépidas pernas, era a representação encarnada da alegria, do bom ânimo, da esperança num futuro tipo "final feliz".
Observei a cena durante poucos minutos, enquanto o semáforo vermelho me impedia a passagem, poderia ter-me demorado por mais tempo, até perdê-la de vista, mas o trânsito cobrava-me movimento. Entretanto, ela permanece colada em minha retina, como a imagem que desejo para todas as crianças, correndo rumo ao mundo dos adultos, com a certeza de que será vencedora e feliz!
A autora é coordenadora pedagógica – Sesi Bauru