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Estão assassinando o Aristóteles! Por Alberto Consolaro


| Tempo de leitura: 4 min

A liberdade de pensar e criar eleva a alma. Aristóteles afirmou que nada temos no intelecto ou cérebro que não tenha passado antes pelos órgãos dos sentidos. Tudo passa pelo olhar, cheiro, tato, ouvir e ver. Para aprender temos que usar os órgãos dos sentidos inevitavelmente.

Se o ser humano quer ser mais criativo e inovador deve estimular e treinar a sensibilidade ou os órgãos dos sentidos com as artes. Isto inclui pinturas, cinemas, museus, livros, poesias, esculturas e muitas outras manifestações culturais. Da mesma forma, se queremos ser criativos e inovadores nosso corpo deve obedecer nossos desejos e impulsos.

É preciso aceitar: criatividade, abstração, reflexão e senso estético podem ser desenvolvidos, estimulados e evoluir-se na sensibilidade. Em muitas aulas e conferências pergunto: qual foi o último livro lido? Qual a última visita em museu? E exposição fotográfica? O último teatro? Qual a última poesia que leu? E vaticino: … se fizer mais que seis meses, cuidado, você pode estar virando pedra. Pedra no sentido figurativo: dura, insensível, não maleável e pronta a rachar! Pessoas assim não têm como ser criativos, ousados, inovadores e empreendedores.

Em sociedades capitalistas o que importa é ter, produzir, acumular, é lucro a qualquer custo. Nelas o ser humano é número, uma unidade produtora de lucro. Neste contexto, o indivíduo que pensa, analisa, questiona e reflete atrapalha a linha de produção que perde velocidade e quantidade. Repita suas manobras e execute seu trabalho sem perturbar, inquirir ou querer mudar e melhorar.

Capitalismo é forma de organização econômica de um povo, assim como o socialismo. Existem estas duas formas de economia em plenas democracias, como também tem em ditaduras (USA e China). Para o mercado, homem é a unidade produtora e fim! No socialismo, o estado e a economia priorizam o bem estar  do homem (Suécia, Noruega e França).

REFORMA!

Discussão sobre retirar ou não o ensino das artes e educação física, para um mercantilista, é frescura. Tenho a impressão que querem matar Aristóteles, ou melhor, o seu pensamento em nós. Aos que querem deixar seu corpo mais eficiente e sua vida mais duradoura para usufruir os últimos anos de forma mais alegre e interativa, aprenda a priorizar, em alguns momentos dos dias, as atividades físicas. Se deve educar o corpo e a mente a fazer exercícios. Artes é academia para a mente, e educação física, para o corpo!

No subconsciente e no consciente coletivo se começou a considerar que as pessoas estão vivendo muito tempo. Isto está atrapalhando a passagem de papéis entre as gerações e o sistema capitalista está pagando muito pelas aposentadorias, pensões e saúde das pessoas mais velhas. Uma das formas de deixar as pessoas mais autômatos e mais produtivas em menor tempo de vida, pode ser a eliminação das artes e da educação física. Lembrando o filme “Tempos Modernos” de Chaplin: o homem, para o capitalista radical, serve para apertar parafusos. Que nada atrapalhe o apertador de parafusos. Que ele não tenha reflexões, necessidades intelectuais, “insights” artísticos e elucubrações. Que ao chegar em casa, durma, apenas isto, para que amanha volte à carga, sem dar trabalho aos chefes e donos da fábrica. Que ele não questione os juros dos bancos, a atitudes dos governantes! Que não me venha exigir tempo para exercícios fora ou dentro do trabalho.

AUTÔMATOS

As escolas e as universidades devem ser bitolantes para o capitalista, que nelas todos aprendam servir ao mercado. Devemos seguir a China: um exemplo de operariado e patronato. Muito lucro, poucos direitos sociais e trabalhistas e que o PIB cresça, isto que interessa. Precisamos acumular dinheiro e poder. Que história mais maluca é esta: ensinar crianças a ter momentos lúdicos, reflexões estéticas e artísticas ao deixar fluir os órgãos dos sentidos. O mercado não quer questionadores, quer autômatos!

Depois ainda dizem nos programas de entrevistas: o brasileiro não é inovador, empreendedor e não tem a vocação para o mundo capitalista! Claro, desde cedo seu poder de criação e invenção é cortado. E agora nem teremos mais Artes e Educação Física. Estão querendo matar de uma vez o Aristóteles dentro de nós!

Coluna

Aristóteles – Nascido em 384 a.C. na Trácia, antiga região da Macedônia, mudou-se para Atenas e morreu aos 62 anos em 322 a.C. Foi aluno de Platão, o aluno mais brilhante de Sócrates. Os três filósofos são considerados os pais do pensamento ocidental. Atuou em todas as áreas da ciência e cultura. Em 343 a.C. torna-se tutor e professor de Alexandre, o Grande, com 13 anos e que se tornou o maior conquistador do mundo antigo.

Peripatético? – A chegada de Alexandre ao poder levou Aristóteles a fundar sua própria escola em Atenas em área pública dedicada ao deus Apolo “Lykeios”, daí o seu nome de Liceu. Seus discípulos são chamados de “peripatéticos” que no grego significa ambulantes, itinerantes ou que passeiam. Aristóteles tinha o hábito de ensinar ao ar livre, caminhando, enquanto lia e dava preleções.

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