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O primeiro grande evento

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Quase tudo é gigante sob o ponto da criança. Todos tivemos, um dia, essa percepção. Um prédio de três andares, aos pequenos olhos espantados, vira Empire State Building. Eis que o tempo passa e, na memória já adulta, fica difícil confirmar se determinada coisa ou experiência foi, mesmo, assim tão maioral, superlativa, incomparável. Não tenho dúvida, contudo, sobre qual foi o primeiro grande evento que presenciei.


Estádio lotado. Muita expectativa e agitação. Nas arquibancadas, pais e filhos com pipocas, guaranás caçulinhas, algodões horripilantemente doces, olhares panorâmicos. À frente, o campo de futebol logo depois do pequeno alambrado. E, depois deles, a rodovia Raposo Tavares ao fundo. Era divertido observar os carros passando, fechar os olhos e rapidamente abrir para ver se os mesmos ainda estavam por lá. Parecia que paravam numa fração de segundo como que a esperar por um novo olhar para seguir jornada.


O som ambiente era só de música de criança, aquelas que depois a gente não aguenta mais ouvir. Então, num rompante, entra um carro aberto no gramado, tipo veículo papal, com o superstar em pé, acenando freneticamente com as duas mãos para cima. E sem cair. Toda uma turma de assessores-ou-sei-lá-o-quê corre para acompanhar as voltas que o carro dá no campo: deve ter estragado a grama, mas só importava para nós acenar de volta (com as duas mãos para cima) e esperar pelo show, que veio. O astro daquele sábado ou domingo ou feriado no campo do Ourinhense (saber o dia exato já é pedir demais) era Fofão. Nosso Alf sem malícia, Garibaldo mais esperto, “apatralhado” ligado nos 220. Nunca achei Fofão exatamente engraçado.


Achava instigante. Minha curiosidade era mais para saber como é que ele era assim: um cara com máscara, mas seria uma máscara capaz de parecer tão real? Só anos mais tarde fui saber que Orival Pessini estava por trás, por dentro e à frente de tudo. Ele próprio desenvolveu uma técnica com máscaras de látex para dar vida não só ao indefinível Fofão, mas também ao maluco beleza Patropi, ao macaco pensador Sócrates, ao inconfundível locutor Juvenal (aquele do “numa velocidade...”).

Orival, que morreu na sexta, aos 72 anos, deveria ter tido maior reconhecimento. Não sei se tão grande quanto aquele mega-super-evento que pude ver de perto no começo dos anos 80, mas merecia. Por que não teve? Por que tantos com pouquíssimo talento têm? Faço das palavras do macaco Sócrates as minhas: não precisa explicar, eu só queria entender.

O autor é editor executivo do JC

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