| Malavolta Jr. |
![]() |
| Maringoni sobre casa no Centro: “Nasci e cresci num paraíso” |
Todo ser humano tem suas características marcantes. É como a frase popular que diz que a primeira impressão é a que fica. Se assim for, podemos dizer que, logo de cara, Roberto Loureiro Maringoni transmite humildade, bom humor e muito conhecimento.
Filho de família bastante tradicional no município (seu avô Giulio Maringoni por aqui chegou por volta de 1906), Roberto nasceu e cresceu na Bauru do passado, no Centro da cidade. “Eu nasci e cresci em um paraíso. No quintal de casa havia umas 30 mangueiras, uma meia duzia de jabuticabeiras, goiabeiras, abacateiros, mamoeiros e jardins com muitas flores. Passávamos horas e horas naquele paraíso que o quintal representava para nós”, recorda.
Roberto cresceu e foi estudar em São Paulo, onde tornou-se médico cardiologista. De volta a Bauru, ele fez história também na Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB), da Universidade de São Paulo (USP), sendo um dos professores da primeira turma da faculdade.
Recentemente, o cardiologista e professor lançou um livro, onde conta diversas passagens curiosas por ele vividas. Confira os principais trechos da entrevista.
Jornal da Cidade - O senhor nasceu e cresceu em Bauru. Aos 84 anos, o que ficou daquela época? Roberto Loureiro Maringoni - Eu nasci e cresci em um paraíso. Meu avô, Giulio Marangoni, quando aqui chegou, comprou três terrenos juntos, isso em 1906. Os terrenos faziam frente para a avenida Rodrigues Alves, rua Bandeirantes e rua Agenor Meira. Todos interligados e cada casa virada para uma rua. Meu avô morava em uma casa, meu tio em outra e minha família em outra. O quintal era o nosso paraíso, porque havia umas 30 mangueiras, uma meia duzia de jabuticabeiras, goiabeiras, abacateiros, mamoeiros e jardins com muitas flores. Eu sou o caçula da turma toda, entre irmãos e primos. E tinha muitos amigos. Todos passávamos horas e horas naquele paraíso que o quintal representava para nós. Era uma vida deliciosa.
JC - Uma conhecida rua de Bauru leva o nome do seu avô, certo?
Roberto Maringoni - Meu avô nasceu no norte da Itália. Ele veio para o Brasil e deixou a esposa lá com dois filhos. Voltou para buscá-los e os filhos haviam morrido. Vieram para cá e recomeçaram a família. Ele era muito humilde, um carpinteiro filho de sapateiro. Trabalhou na Noroeste e tinha uma habilidade muito grande. Fez todos os móveis do quarto dele. Quando minha filha Ângela se casou, ela quis o armário dele. Desmontamos e montamos aquele móvel de madeira com uma facilidade incrível. Ele pensou em tudo, era inteligente demais. Eu contei essa história dele no meu livro.
| Malavolta Jr. |
![]() |
| Após a aposentadoria, ele decidiu contar histórias em livro |
JC - Onde o senhor fez faculdade?
R.M - Eu terminei o grupo escolar, entrei no ginásio e fui para São Paulo, assim como um primo da mesma idade havia feito. Eu devia ter uns 12 anos de idade quando fui viver em São Paulo, em um colégio interno. Fiquei interno por alguns anos e fui morar em uma pensão perto do colégio Bandeirantes, onde eu passei a estudar. Minha meta era estudar medicina. Fiz um ano de cursinho depois de terminar o colégio e passei na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, aos 20 anos de idade.
JC - O que o trouxe de volta a Bauru?
R.M - Estudei seis anos na Federal de São Paulo e escolhi a cardiologia. Fiz a cardiologia, mas a escola dava a liberdade para o aluno fazer diversas escolhas. E eu não queria ser apenas um especialista em uma determinada área, eu queria saber mais sobre a medicina. Sendo assim, fiz clínica médica, gastroenterologia, trabalhei na neurocirurgia, dava plantão na Casa Maternal fazendo partos. Devo ter feito mais de 400 partos. Fiz o que eu tinha que fazer e decidi voltar para Bauru. Meus pais estavam vivos, eu já estava com sobrinhos... Voltei.
JC - Qual foi o seu primeiro trabalho na cidade?
R.M - Aqui chegando, comecei a trabalhar no Hospital Salles Gomes (da Noroeste, na época) como cardiologista. Também abri meu consultório na avenida Rodrigues Alves com a rua Treze de Maio e fui tocando a minha vida.
JC - O senhor fez parte da primeira turma de professores da FOB/USP, certo?
Roberto - Em 1962 começava a Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB), da Universidade de São Paulo (USP), e o primeiro diretor, Paulo de Toledo Artigas, dizia que queria formar médicos da boca e não dentistas. Então, todas as cadeiras básicas foram dadas a médicos e eu me encaixei como professor de farmacologia e fisiologia da primeira turma da faculdade. Fiz toda a minha carreira dentro da Universidade de São Paulo. Aposentei-me como professor titular e fiquei até 1997, até o sexto quinquênio.
JC - O senhor se aposentou de vez?
R.M - Eu não parei de dar aulas. Eu fui dar aulas de fisiologia na Universidade Paulista (Unip). Fui professor da Unip até me cansar de vez de dar aulas. Lecionei até 2010. Dei algumas poucas aulas também de pós-graduação na Universidade do Sagrado Coração (USC).
| Malavolta Jr. |
![]() |
| Ele tem curiosa trajetória com “Marias” a começar por Maria Rita, esposa, e filhas: M. Inês, M. Silvia, M. Isabel e M. Ângela |
JC - O senhor deixou uma belo legado na FOB/USP: tem ideia disso?
R.M - Ah, isso é difícil de dizer. O que eu sei é que quando eu vou até a FOB é uma festa (risos). Eu encontro velhos alunos, a gente conversa muito, contamos histórias... Aqueles que foram meus alunos hoje são os professores. Isso é gratificante. Outro dia eu tive um problema cardíaco, olha que desaforo (risos), e fui examinado no hospital por um médico muito atencioso que me perguntou onde eu fiz faculdade. Por coincidência, ele também se formou na Paulista e me perguntou se eu conheci o doutor fulano de tal. Eu levei na brincadeira e disse que aquele professor foi meu “bixo” (risos). Eu gosto muito dessas histórias da época da faculdade.
JC - O senhor escreveu um livro chamado “Conversa de médico e outras histórias”.
R.M - Eu me aposentei e não tinha mais nada para fazer (risos), então escrevi. Comecei a lembrar das coisas que me aconteceram e passei a escrever, até que alguém me deu a ideia de juntar tudo em um livro. São 105 histórias. Coisas médicas, coisas do tempo da escola, dos atendimentos, algumas passagens da vida pessoal, de pessoas queridas. A gente encontra pessoas muito interessantes por aí. Algumas histórias são engraçadas. Um dia apareceu um cidadão em casa com uma receita nas mãos. Ele me disse que um médico havia indicado aquele medicamento para a sua esposa, mas não explicou qual era a função do medicamento chamado cetoconazol. Eu disse para ele que era para tratamento de fungos e ele disse que então estava certo, porque a sua esposa fungava a noite toda (risos).
JC - O senhor é um homem de muitas Marias...
R.M - Minha esposa Maria Rita eu conheci quando morei na pensão da tia dela em São Paulo. Ela tocou violão para os estudantes da casa e eu me apaixonei. Ela tinha 15 anos e eu uns 20 (risos). O destino nos “amarrou” naquele dia. Eu me formei em 1957 e nos casamos em 1958. Ninguém me avisou nada e, em três anos e meio, eu já tinha quatro filhas (risos). Colocamos o nome de Maria em todas elas. E essa história é curiosa. Um dia cheguei em casa e encontrei lá a minha mulher, Maria Rita; minha sogra, Sofia Maria; minhas filhas: Maria Inês, Maria Sílvia, Maria Isabel e Maria Ângela; minha irmã, Maria Tereza; minha cunhada, Maria Matilde; a filha dela, Maria Augusta; as sobrinhas: Maria Cecília, Maria Lúcia e Maria Clara. A cozinheira, Maria Antônia; a babá das crianças, Maria José. Eu falei com minha esposa sobre aquela coincidência engraçada em nossa casa e ela me disse para abrir a porta porque eu ainda não havia visto nada. Abri e lá estava o carpinteiro José Maria (risos) no quintal. Eu gostava muito do meu sogro e um dia ele me disse que, se tivesse 10 filhas, todas se chamariam Maria. E eu resolvi colocar Maria em todo mundo.
Perfil
Roberto Loureiro Maringoni
Tem 84 anos e é do signo de Capricórnio
Nasceu em Bauru
É casado com Maria Rita, com quem tem quatro filhas: Maria Inês, Maria Sílvia, Maria Isabel e Maria Ângela, e quatro netos: Roberto, Renato, Júlia e Débora
Seu hobby é escrever
Não tem um livro de cabeceira, mas lê o tempo todo
Também não tem um estilo musical predileto, mas acredita que música sempre vai bem
Quando o assunto é futebol, ele elenca os times São Paulo e Noroeste
Nota 10: Para os meus amigos mais íntimos
Nota 0: Para os políticos que estão trazendo a infelicidade para o Brasil
E-mail: rl.maringoni@uol.com.br


