| Fotos: Aceituno Jr. |
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| Além dos costumes que envolvem, eventos ainda têm aspecto social, já que muitas cavalgadas realizam filantropia |
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| Marcelo Teixeira é organizador da Cavalgada com Queima do Alho realizada no dia 6 de novembro, na Casa do Cursilho |
Moda de viola, berranteiros, panela de ferro no fogão de chão e, no cardápio, arroz carreteiro, feijão gordo, paçoca de carne seca (farofa), churrasco no arado e pernil. Estes são alguns dos elementos que fazem parte das confraternizações promovidas pelas cavalgadas , tradição que ainda resiste em Bauru e que atrai o público da zona rural e urbana da cidade.
“E a gente não pode esquecer de acrescentar a tralha usada pelos antigos tropeiros. As pessoas se preparam para ir a uma cavalgada. As mulas e cavalos recebem os ornamentos, assim como as pessoas, que acordam cedo para esse preparo, às 5h, normalmente”, comenta o comerciante Marcelo Teixeira, um entusiasta e organizador de cavalgadas e da conhecida queima do alho.
Ainda segundo Marcelo, além de manter viva uma tradição centenária, as cavalgadas proporcionam a amizade entre os participantes. O próximo evento do tipo será realizado no dia 6 de novembro, na Casa do Cursilho, e deve reunir 400 cavaleiros de Bauru e região, entre homens e mulheres de todas as idades, além do público para o almoço e demais atrações.
“Nosso objetivo é resgatar e não deixar a cultura sertaneja acabar. Conforme as cidades vão crescendo, essa tradição caipira vai sendo esquecida, infelizmente. Meu avô era do sítio e eu sempre estava com ele. Cresci nesse ambiente e me afastei quando ele vendeu a propriedade. Mais tarde, comecei a pesquisar sobre cavalgadas e a queima do alho”, pontua.
SOCIAL
As atividades beneficentes também são focos dos organizadores das cavalgadas. “Nós, por exemplo, ajudados a Casa da Sopa da Vila Dutra. Toda vez que organizo um evento desse peço para que as pessoas levem, além do ingresso comprado, um quilo de alimento não perecível. Na última cavalgada, conseguimos reunir cerca de uma tonelada de alimentos”, finaliza.
Para pesquisadora, tropeirismo é herança familiar
“Quando você pensa em cavalgadas, em comitivas, você pensa em famílias, porque o tropeirismo é passado de geração a geração como cultura”. Quem afirma é a professora, pesquisadora e diretora do Instituto Cultural Yauaretê, Sandra Macedo Pereira.
O Yauaretê trabalha a cavalgada pelo seu lado histórico, pela logística de transporte e sua importância para o Estado de São Paulo. “Toda a modernidade e facilidade que existe hoje com os caminhões e trens não era nem pensados no passado. Tudo era entregue no lombo de uma mula. E os tropeiros desbravam os caminhos e entregavam essas mercadorias de cidade a cidade”, destaca Sandra.
Os tropeiros do passado marcaram o seu modo de vida de acordo com a sua própria necessidade. A pesquisadora grifa, por exemplo, a alimentação desses homens, que se preparavam para o trajeto com a comida. Eles passavam dias e dias nesse trabalho, sendo assim havia uma preocupação muito grande com a comida.
“Eles salgavam a carne e a colocavam no sol para que durasse mais. Levavam o feijão, arroz e farinha e se alimentavam assim. São Paulo e Minas Gerais, principalmente, têm esses tropeiros como desbravadores”, lembra, Sandra.
A questão da fé também se destacava. De acordo com a pesquisadora, os tropeiros eram homens de muita fé e tinham como santa de devoção Nossa Senhora Aparecida. “Com o instituto, a gente tenta valorizar a cultura e o valor desse homem caipira, desse homem do campo. Infelizmente percebemos que toda essa riqueza está se distanciando da realidade da cidade, mas ainda há os que preservam essa tradição e as eternizam passando os costumes e os festejos para as gerações mais novas”.
Entre amigos, violeiros e muita comida típica
Conheça algumas das histórias daqueles quem têm nas cavalgadas um estilo de vida
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| Berrante, selas, tachos e fogões improvisados fazem parte dos objetos que caracterizam o universo das cavalgadas |
Rodrigo Fernando Baenas Tereza diz com orgulho que é daqueles sertanejos que não tem computador e que seu celular serve apenas para fazer e receber ligação, ou seja, internet nem pensar. “Eu sou daqueles que nasceu sobre um cavalo. Pouca tecnologia e muito contato com esse universo. É disso que eu gosto e é assim que eu faço amigos”, grifa.
Ele, que vive do trabalho da roça (principalmente da venda do leite), é um organizador de cavalgadas na região. “Eu faço isso com prazer porque é uma coisa que agrega amizade à vida da gente. Há quem goste de viajar, por exemplo. Eu gosto de cavalgadas. Já fiz grandes amigos por essas estradas de chão”.
Além de amizades, o cavaleiro faz questão de frisar o ambiente familiar das cavalgadas. “Muitas crianças participam. É um resgate de tradições. Normalmente, nós saímos da minha casa, em um sítio de Piratininga, e vamos parando nas casas dos anfitriões que oferecem a comida típica: arroz carreteiro, feijão tropeiro ou churrasco”, enumera.
Uma das cavalgadas mais tradicionais organizadas por Rodrigo é realizada no último sábado de novembro. São cerca de 65 quilômetros percorridos em dois dias. Mas ele diz que chega a participar de 20 eventos do tipo por ano.
“Quando não tem a gente faz na cidade mesmo. A maioria de nós tem Nossa Senhora Aparecida no coração. Eu sou um deles. Tanto que meu sonho é participar de uma cavalgada de romaria até a cidade de Aparecida”, lembra.
Violeiros não podem faltar
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| A dupla de violeiros Tião Canhoto e D Oliveira é uma das que animam as cavalgadas da região |
E toda cavalgada que se preze tem violeiros para animar a chegada. A dupla Tião Canhoto e D Oliveira, por exemplo, são figuras garantidas em eventos do tipo de Bauru e região há cerca de 10 anos.
“Tocamos muita música de raiz, sertanejo das antigas, como se diz. E tem sempre aquelas mais pedidas. Uma delas é “A volta do boiadeiro”. “Saco de estopa” é outra. Cantamos para animar a festa, por horas e horas”, narra Tião Canhoto.
Segundo o violeiro, as cavalgadas são tradições que mobilizam o Interior e, embora seja uma cultura popular rica e cheia de elementos, precisa ser mais divulgada para não se perder.
Comitivas são ‘o corpo’ das cavalgadas
As tradicionais comitivas eram formadas por pessoas que ganhavam a vida transportando o gado, principalmente. Hoje, elas são parte fundamental das cavalgadas, já que se unem para formar e dar corpo para tal tradição.
Paulo Sérgio Pinto é presidente e criador da comitiva Gold Ranch. Há 16 anos, homens e mulheres de todas as idades se unem para participar de cavalgadas, romarias, rodeios... Os integrantes são de Bauru e Piratininga.
Paulo é da zona rural de Piratininga e carrega o tropeirismo em seu DNA. “Na verdade, a maior parte do pessoal da comitiva é composta por filhos e netos de boiadeiros e tropeiros. Nascemos montados. Temos raízes na terra. Eu, por exemplo, moro na terra e vivo dela e do comércio de animais”, narra.
De acordo com Paulo, a comitiva nasceu em 2000 quando ele e um grupo de familiares e amigos resolveram se juntar para a participação em eventos. Para eles, comenta Paulo, a intenção é não deixar a tradição morrer.
“E é por isso que nós passamos para os nossos filhos e sobrinhos o que aprendemos com as gerações mais velhas. E o respeito com os animais e com as pessoas faz parte de tudo isso. Como os tropeiros do passado, montamos em mulas e burros. E eu também trabalho com o comércio desses animais tão preciosos”, comenta.
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| Parte dos integrantes da Comitiva Gold Ranch |
Fé e solidariedade também acompanham a tradição
É comum que celebrações religiosas, de modo especial católicas, sejam acompanhadas de cavalgadas em algumas ocasiões. Em Bauru, por exemplo, a Paróquia Nossa Senhora das Graças, responsável pela Casa do Garoto (no Parque Vista Alegre), costuma reunir centenas em suas cavalgadas.
Segundo o padre Gilson Luiz Maia, responsável pela Paróquia, os integrantes das cavalgadas normalmente são pessoas de fé e com muita devoção à Nossa Senhora Aparecida. Eles costumam carregar medalhinhas nas camisas e chapéus como símbolo dessa religiosidade popular e devoção mariana.
| Douglas Reis |
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| Cavalgadas são tradicionais na Paróquia Nossa Senhora das Graças, no Parque Vista Alegre |
“Eu tenho uma raiz cultural que vem do interior de Minas. Quando criança, eu andava muito a cavalo e, embora Bauru seja uma cidade grande, há muita gente que gosta das coisas da terra, então fazemos cavalgadas em celebrações religiosas e os fiéis gostam muito. Fazemos uma missa com a benção dos cavaleiros e, por trás da cavalgada, tem as famílias. Muitas crianças participam”, comenta padre Gilson.
Ainda de acordo com o padre, as cavalgadas promovidas em sua paróquia têm três momentos. O primeiro é o momento da reza e da religiosidade, normalmente com missa. Depois vem o andar a cavalo e, a cavalgada em si, e, por último, há a confraternização, que pode ser com um churrasco.
“Outra coisa que destacamos é a valorização e o cuidado com os animais, que precisam ser bem alimentados e cuidados. Além disso, há o aspecto ecológico com o contato com a natureza. Também há a cantoria com os violeiros e os berranteiros. É uma tradição muito bonita mesmo”, completa.
Cavalgada arrecadará alimentos para a Casa da Sopa da Vila Dutra
A 5ª etapa da Cavalgada e Queima do Alho do Circuito Centro Oeste Paulista arrecadará alimentos não perecíveis para a Casa da Sopa da Vila Dutra. O evento, realizado no dia 6 de novembro, terá como ponto de partida a cidade de Piratininga e, como chegada, a Casa do Cursilho, no Jardim Ferraz.
A cavalgada sairá de Piratininga e seguirá pela conhecida estrada velha de terra até Bauru, na Casa do Cursilho, onde um almoço esperará os tropeiros com a tradicional queima do alho, também servida ao público participante. No cardápio, arroz Carreteiro, feijão gordo, paçoca de carne seca (farofa), churrasco no arado e pernil .
A organização espera cavaleiros de Bauru e cidades da região, como Agudos, Lençóis Paulista, Duartina, Ubirajara, Jaú, Piratininga e Presidente Alves, entre outras, e um público de cerca de mil pessoas.
A festa, que deve seguir até às 18h, ainda contará com a apresentação de duplas sertanejas, como Tião Canhoto e Di Oliveira , Leandro Debetio, Rodrigo e Gabriel , Danilo Augusto, Bruno e Naldo, Amanda Maranho, Andrei e Rafael, Guto Viani e Tiago, Gustavo Moterani e Claudio e Alex. Ainda haverá apresentação do Grupo de Catira de Bauru e diversão para as crianças, com brinquedos e o Palhaço Faísca.
VOCÊ SABIA?
A queima do alho é um concurso culinário onde o vencedor é o cozinheiro que prepara a melhor refeição à moda dos tropeiros, no menor espaço de tempo. O prato é composto de arroz carreteiro, feijão gordo, paçoca de carne seca e churrasco no arado e é feito em fogão improvisado, bem próximo ao chão.
A história deste ritual data dos tempos em que os tropeiros viajavam para vender seus bois. Os grupos eram compostos por um cozinheiro, um ajudante de cozinha e peões.
Como as viagens eram longas, duravam entre três e quatro meses, os cozinheiros tinham a preocupação de trazer no lombo dos animais os alimentos não perecíveis, conservados no sal grosso.
Barretos era o ponto final desta longa jornada, por ser um grande mercado de compra de bois. Assim começou a competição entre os cozinheiros para ver quem faz o prato mais saboroso e mais rápido.
SERVIÇO
Convites e mais informações pelo telefone (14) 99813-2100.
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