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Moro destaca 'habilidade' de Cunha 'em ocultar e dissimular propinas

Estadão Conteúdo
| Tempo de leitura: 6 min

O juiz federal Sérgio Moro alertou para a "habilidade" do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) em "ocultar e dissimular propinas". O peemedebista foi preso nesta quarta-feira (19) em Brasília, na Operação Lava Jato.

No longo despacho de 26 páginas em que fundamenta o decreto de prisão do peemedebista, o juiz da Lava Jato destacou "a habilidade do acusado em ocultar e dissimular propinas, com contas secretas no exterior, parte não totalmente identificada nem sequestrada, permanece incólume".

Moro destacou que "não foi ainda possível identificar toda a dimensão das atividades delitivas do ex-deputado federal Eduardo Cosentino da Cunha, nem a localização do produto dos crimes em toda a sua extensão".

Eduardo Cunha foi preso sob acusação de receber US$ 5 milhões em propina no contrato da Petrobras para exploração do campo de Benin, na África, em 2011.

Segundo o juiz, amparado em informações da Procuradoria da República, "parte do produto do crime teria sido ocultado e dissimulado em contas secretas no exterior".

Moro advertiu para o risco de fuga do mais novo prisioneiro da Lava Jato. "Enquanto não houver rastreamento completo do dinheiro e a total identificação de sua localização atual, há um risco de dissipação do produto do crime, o que inviabilizará a sua recuperação. Enquanto não afastado o risco de dissipação do produto do crime, presente igualmente um risco maior de fuga ao exterior, uma vez que o acusado poderia se valer de recursos ilícitos ali mantidos para facilitar fuga e refúgio no exterior."

Prisão

O presidente cassado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), foi preso nesta quarta-feira (19), em Brasília. O ex-deputado foi capturado preventivamente perto do prédio dele na capital por ordem do juiz federal Sérgio Moro.

A prisão foi decretada no âmbito da Operação Lava Jato, informou a Polícia Federal. A investigação contra Eduardo Cunha sobre contas na Suíça abastecidas por propinas na Petrobras estava sob responsabilidade do Supremo Tribunal Federal (STF). Cassado pela Câmara, o peemedebista perdeu o foro privilegiado perante a Corte máxima.

Os autos foram deslocados, então, para a 13ª Vara de Curitiba, base da Lava Jato. Na segunda-feira (17), Moro intimou Eduardo Cunha para apresentar sua defesa prévia em ação penal que atribui ao ex-deputado US$ 5 milhões nas contas secretas que ele mantinha na Suíça.

A mulher de Eduardo Cunha, Cláudia, também é acusada na Lava Jato. Mais de US$ 1 milhão da propina que o peemedebista teria recebido sobre contrato da Petrobras no campo petrolífero de Benin, na África, foram gastos por ela em compras de luxo na Europa, segundo os investigadores. Cláudia adquiriu sapatos, bolsas e roupas de grife na França, Itália e em outros países europeus.

Manifestantes

Cunha chegou em Curitiba nesta quarta-feira (19) por volta das 17h15, numa viatura descaracterizada, cujo trajeto foi acompanhado por um helicóptero. Ele afirmou, em nota enviada por meio de seus advogados, que sua prisão é uma "decisão absurda" e sem motivações (leia a nota completa no final desta reportagem).

Cerca de 20 manifestantes e curiosos aguardavam em frente à PF, a maioria do movimento Curitiba contra a Corrupção. A polícia, porém, despistou o grupo e a imprensa: o carro em que Cunha estava entrou pelos fundos do prédio, e só depois ingressou na garagem. Os manifestantes, mesmo assim, aplaudiram a chegada das viaturas aos gritos de "Polícia Federal, orgulho nacional", e cantaram o hino nacional na sequência. 

A mobilização dos manifestantes foi feita na mesma tarde, pelas redes sociais.  "Jogou na rede, é peixe. Ainda mais peixe grande", diz a professora aposentada Narli Resende, 59 anos, uma das organizadoras da manifestação.

Denúncias

A primeira denúncia contra Cunha veio em agosto de 2015, e acusa o parlamentar de corrupção e lavagem de dinheiro por ter recebido ao menos US$ 5 milhões em propinas referentes a dois contratos de construção de navios-sonda da Petrobras.

Por unanimidade, o Supremo aceitou a acusação em março deste ano e tornou Cunha o primeiro político réu na Lava Jato. Nesta denúncia ele responde por corrupção e lavagem de dinheiro.

No mesmo mês, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresentou a segunda denúncia contra o peemedebista, desta vez por manter contas não declaradas no exterior utilizadas para receber propina, também no esquema de corrupção na Petrobras. A denúncia teve origem na investigação da Suíça que, graças a um acordo de cooperação internacional, foi encaminhada ao Brasil para que o político pudesse ser processado no País.

Mais uma vez por unanimidade, o Supremo aceitou a acusação contra o parlamentar, que passou a responder novamente por corrupção, lavagem e, pela primeira vez, por evasão de divisas.

Em 10 de junho deste ano, Janot apresentou a terceira denúncia contra o peemedebista, desta vez por suspeita de desviar dinheiro do Fundo de Investimentos do FGTS (FI-FGTS) nas aplicações que o fundo fazia em obras. A acusação tem como base a delação premiada do ex-vice-presidente da Caixa Fábio Cleto e descreve em detalhes o suposto esquema ilegal instalado no banco público.

Conforme o procurador-geral, Cunha solicitava propina de grandes empresas para que Cleto viabilizasse a liberação de recursos do FGTS. O caso está sob sigilo na Corte e aguarda uma decisão do plenário do Supremo Tribunal Federal que não decidiu ainda se aceita a denúncia.

Segundo o MPF, as atitudes de Cunha para atrapalhar a Lava Jato

– Requerimentos no TCU e à Câmara sobre a empresa Mitsui para forçar o lobista Julio Camargo a pagar propina;

– Requerimentos contra o grupo Schahin, cujos acionistas se tratavam de inimigos pessoais do ex-deputado e do seu operador, Lucio Bolonha Funaro;

– Convocação pela CPI da Petrobras da advogada Beatriz Catta Preta, que atuou como defensora do lobista Julio Camargo, responsável pelo depoimento que acusou Cunha de ter recebido propina da Petrobras;

– Contratação da KROLL pela CPI da Petrobras para tentar tirar a credibilidade de colaboradores da Operação Lava Jato;

– Pedido de quebra de sigilo de parentes de Alberto Youssef, o primeiro colaborador a delatar Eduardo Cunha;

– Apresentação de projeto de lei que prevê que colaboradores não podem corrigir seus depoimentos, como fez o lobista Julio Camargo, ao delatar Eduardo Cunha (refere-se ao projeto de lei de autoria do deputado Heráclito Fortes (PSB-PI), um dos membros da tropa de choque que o ex-deputado federal Eduardo Cunha liderava);

– Demissão do servidor de informática da Câmara que forneceu provas que evidenciaram que os requerimentos para pressionar a empresa Mitsui foram elaborados por Cunha, e não pela então deputada “laranja” Solange Almeida;

– Suspeita do recebimento de vantagem indevida por emendas para bancos e empreiteiras;

– Manobras junto a aliados no Conselho de Ética para enterrar o processo que pede a cassação do deputado;

– Ameaças relatadas pelo ex-relator do Conselho de Ética, Fausto Pinato (PRB-SP);

– Relato de oferta de propina a Pinatto, ex-relator do processo de Cunha no Conselho de Ética.

Além da prisão, o MPF pediu a apreensão de oito veículos

– Porsche Cayenne modelo 2013

– Porsche Cayenne modelo 2006/2006

– Land Rover Freelander modelo 2007/2008

– Hyundai Tucson modelo 2008/2009

– Volkswagen Tiguan modelo 2010/2011

– Volkswagen Passat Variant modelo 2003/2004

– Ford Edge modelo 2013

– Ford Fusion 2013

Íntegra da nota de Eduardo Cunha sobre a prisão

"Tendo em vista o mandado de prisão preventiva decretado hoje pela 13ª vara federal do Paraná, tenho a declarar o que se segue:

Trata-se de uma decisão absurda, sem nenhuma motivação e utilizando-se dos argumentos de uma ação cautelar extinta pelo Supremo Tribunal Federal.

A referida ação cautelar do Supremo, que pedia minha prisão preventiva, foi extinta e o juiz, nos fundamentos da decretação de prisão, utiliza os fundamentos dessa ação cautelar, bem como de fatos atinentes à outros inquéritos que não estão sob sua jurisdição, não sendo ele juiz competente para deliberar.

Meus advogados tomarão as medidas cabíveis para enfrentar essa absurda decisão."

 

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