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Black Mirror e a miséria humana

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 3 min

Na última sexta-feira, estreou, na Netflix, a nova temporada da série britânica Black Mirror. Se vocês nunca assistiram, assistam (as duas temporadas anteriores também estão disponíveis por lá). Cada episódio conta uma história diferente, de um futuro próximo, sobre temas que envolvem tecnologia. Mas não espere um entretenimento, uma diversão. É um verdadeiro soco no estômago.

E este é o segredo da série. A obra não é mais uma ficção científica daquelas que valorizam um futuro distante e, por vezes, só plausível nas fábulas hollywoodianas. Ela retrata um futuro mais presente do que nunca! É angustiante perceber que já vivemos situações muito semelhantes aos temas abordados. É perturbador.

Sem spoilers (prometo!), o primeiro episódio da terceira temporada mostra uma realidade sobre pessoas que, totalmente conectadas, passaram a avaliar as ações dos outros e serem avaliadas em um aplicativo (futuro?). Esse sistema atinge tal nível que alugar determinado modelo de carro, ser convidado para uma festa ou comprar uma casa depende da sua avaliação geral nesse aplicativo. Uma sociedade vivendo de aparências simplesmente para agradar o outro e obter mais estrelas (qualquer semelhança com as "curtidas" não é mera coincidência). Quer futuro mais presente do que isso?

Na manchete do JC de hoje, página 4, a reportagem da Tisa Moraes mostra que, por conta da crise, 722 famílias voltaram à miséria em Bauru. E não são pessoas que agora não podem pagar o Netflix. São pessoas que não têm praticamente nada. Gente, de carne e osso, que não tem comida na geladeira. "Tem dias em que eu sento na porta de casa e choro. De desespero, mesmo", disse um dos entrevistados. "Tive que pedir comida na vizinha", contou outra, sobre o dia que seu filho estava com "dor na barriga de fome".

Você pode estar se perguntando o que tem a ver a série Black Mirror com tal situação de pobreza extrema em Bauru (e no restante do País). A relação é que praticamente todos os episódios do série mostram, de um viés ou de outro, as falhas gritantes da nossa sociedade. Evidencia como caminhamos dia a dia para uma evolução tecnológica "fake", às avessas. Não se trata de demonizar a tecnologia, mas o uso cada vez mais exacerbado e individualista (mesmo que mascarado sob uma forma coletiva) dela.

Estamos mais e mais "emoldurados" nos nossos Facebooks, Instagrams, Snaps e tantos outros aplicativos que não olhamos para o lado. Não vemos o filho do nosso vizinho com "dor na barriga de fome". Sim, é clichê. Puro clichê. Mas não deixa de ser verdade. Bebemos dia a dia a realidade virtual, enquanto marginalizamos a realidade real.

Black Mirror é um soco necessário no estômago. A manchete do JC de hoje é um cruzado de esquerda essencial no queixo. Golpes que não devem nos nocautear, mas acordar. Acordar para o próximo, para as relações de humanidade. Acordar para ajudar, de alguma forma, um ou outro grupo que corre para preencher as lacunas do poder público. E esses bandos solidários não são muitos, mas estão por aí. Olhe a Rose Lopes, com a Casa da Sopa. Veja o Esquadrão do Bem, com os amigos Faneco, Samantha Ciuffa, Márcia Duran, Sandro Paveloski, Adham e outros. Somente citando dois deles. É só procurá-los!

Ajude mais quem precisa da sua ajuda. E, quando você fizer isso, aí sim pode usar a tecnologia e postar lá no Facebook, para que essa atitude seja curtida e compartilhada o máximo possível. E "compartilhada" no sentido mais tradicional desta palavra.

 

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