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Em vez de esmola, atitude

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 4 min

Samantha Ciuffa
S.O.Semáforo: Cris Deziró elaborou projeto que indica ajuda a quem pede esmola nos semáforos da cidade 

Todo mundo já viu esta cena: basta o veículo parar no sinal vermelho, alguém se aproxima e, muitas vezes, sem nem pedir licença vai limpando o vidro. Ou então quer vender algo. Ou pede "uma moedinha".

É uma cena que se repete de norte a sul do País. A mendicância é um problema social. Vide o número de campanhas públicas que suscita. Na Prefeitura de Campina Grande, Paraíba, o foco é reduzir a mendicância infantil. A campanha frisa: "A esmola deixa a criança longe da escola". Já em Farroupilha, Rio Grande do Sul, o mote é: "Não dê esmola, dê cidadania". E em Minas Gerais, várias prefeituras aderiram à campanha estadual "Não dê esmolas, mostre o caminho".

As campanhas não estão longe de nós. Ao contrário. Na vizinha Botucatu, a mesma campanha foi feita e, em Bauru, entra ano, sai ano, mesmo sem muita contundência e marketing pesado, as ações sociais procuram se sobrepor ao famoso "dar o peixe" . A ideia é encaminhar as pessoas, para locais onde recebam atendimento mais humanizado e, assim, possam buscar novas oportunidades de vida.

MOTIVAÇÃO PARA AJUDAR

Foi pensando em como ajudar que a mestre em comunicação social e professora de inglês Cris Deziró elaborou um projeto - o S.O.Semáforo. "Sempre me incomodou essa questão (de ser abordada por gente que pede algo)... Sempre que possível, eu ajudava, mas pensar na hipótese (comprovada por assistentes sociais e policiais) de que essas pessoas poderiam usar o dinheiro para adquirir drogas, bebidas alcoólicas ou mesmo entregar para adultos mal intencionados (no caso de crianças) me dava uma sensação de que aquilo não era o correto também", conta ela, para introduzir como chegou à campanha que iniciou há cerca de três meses. "Queria ajudá-las a procurar auxílio efetivo para a vida toda, não só paliativos, algo que pudesse ir além... E acredito que Deus tenha me inspirado a ter essa ideia de dar um papel com os endereços dos locais certos."

A partir daí, foram só alguns cliques na Internet e telefonemas para se certificar de que as informações estavam corretas e o projeto, simples e barato, saiu.

Folha sulfite

Cris Deziró imprime uma folha sulfite com os endereços, dobra e, para tornar o encontro mais receptivo ela ainda prende uma bala no papel que irá entregar. Um plus a mais, para adoçar corações desiludidos. Isso quebra as resistências. "Tem horas que dá para conversar um pouco, depende do fluxo do trânsito, mas sempre digo "olha não posso te dar dinheiro, mas um destes lugares pode te ajudar", conta.

Receptividade entre amigas

Ao longo destes meses Cris Deziró não sabe mensurar quantos ajudou. Mas tem a certeza de que está sendo bem aceita. Já encaminhou a ideia para alguns amigos, compartilhou nas redes sociais. E sabe que algumas amigas já estão disseminando a atitude.

"Não sei se todos estão tirando cópias, levando essa ideia para a frente, mas eu estou empenhada nisso parece dar certo tanto que estou dando esta entrevista".

Cris Deziró ressalta também que o bom do contato é que ao estender a mão com o papel "podemos olhar no olho de quem vem até nós, mesmo que sejam poucos segundos com o carro não vamos simplesmente ignorá-los e eles se desarmam".

Olhar diferenciado

Cris Deziró é professora de inglês para crianças na rede municipal e, nas horas vagas, desenvolve atividades ligadas à música e poesia, participando de grupos. Talvez seja esse olhar diferenciado que a faz sonhar com algo maior. "Gostaria que empresários, por exemplo, pegassem esses jovens que fazem malabares e os encaminhassem para escolas de circo, que sei que existem. São talentos que não podem ser desperdiçados", enfatiza.

Para ela, sem julgar, "dar a esmola, o dinheiro parece mais fácil e mais efetivo e, no entanto, não é. Muitos dão para não se sentirem incomodadas".

Com ela concorda a psicóloga Maria Tereza Andriollo Muzardo. "Dar dinheiro é uma questão complicada, porque o vício é recorrente, as pessoas retornam a ele com frequência". No aspecto da doação, a solidariedade, como dar alimentos, cobertores, agasalho é, segundo ela, mais eficiente.

"Há multiplicidade de causas que leva uma pessoa a pedir esmolas, desde dificuldades financeiras, desespero, desilusões, a incapacidade de exercer atividades laborais, transtornos mentais ou pessoas com algum tipo de retardo mental, portadoras de necessidades especiais, além das drogas, da rejeição da família ou até mesmo aquele que prefere a liberdade das ruas. O ideal é sempre contar com os órgãos competentes, com a assistência social, com o Centro de Referência em Assistência Social", reforça. "Enfim, é preciso contar com as prefeituras dos municípios, com os órgãos públicos para vencer essa questão e levar as pessoas a ganhar seu sustento com dignidade", enfatiza.

Exatamente como faz o S.O.Semáforo. Foca no encaminhamento para atendimento mais humanizado e novas oportunidades de vida.

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