Nos verdes anos, em Bauru, eu e meus amigos ficávamos na avenida Getúlio Vargas a observar as belas meninas que passavam num intenso ir e vir na grande avenida bauruense. Aliás, qual bauruense que hoje está entre 40 e 50 anos que nunca fez isso? Digo que as meninas eram belas segundo os padrões de beleza da época, porquanto, se fôssemos voltar ao passado, séculos XVIII e XIX, os padrões de beleza eram bem outros, sendo, pois, as mais cheinhas as cobiçadas.
Década de 1980, século passado, os padrões de beleza eram outros, bem diferentes dos atuais. Homem com “gominhos” na barriga constituíam raridade, pois os padrões de beleza não ditavam essa norma. Mas o tempo avançou e hoje, alguém como eu, semi careca e com uma saliente “barriguinha” está fora dos ditames da beleza. Portanto, sou feio! Mas, voltemos à Getúlio Vargas... Quando um de nós interessava-se por alguma garota que desfilava pela avenida, mas que não obedecia aos padrões de beleza, logo os colegas questionavam: mas ela não é bonita! O que você viu nela?
Então, por conta disso, para explicar esta “estranha” atração, inventamos um termo denominado zurubitol. Sim, a menina que não correspondia aos padrões de beleza, mas ainda assim chamava atenção, era porque tinha o tal de Zurubitol. O zurubitol explicava absolutamente tudo. Lendo um ensaio de Montesquieu, filósofo francês do século XVII, verifiquei que ele aborda a questão da “beleza e feiura”, dizendo que, não raro, o feio tem mais charme que o belo, uma espécie de encanto, de magia, de graça natural que nos chama atenção.
Montesquieu queria dizer “zurubitol”, mas ele não teve a oportunidade de conhecer-nos e desfilar pela Getúlio Vargas. Pois eu lhe digo: Montesquieu, o que essas pessoas têm, essa graça, esse charme que vai além do corpo físico chama-se “zurubitol”. Há pessoas que são tão legais, simpáticas, prestativas e atenciosas que acabam por agradar e por tornarem-se belas, mesmo que estejam fora dos padrões de beleza vigentes, ao passo que, gente bela pode causar repulsa, pois, como se diz, os olhos são os espelhos da alma. Uma amiga costumava brincar comigo: meu marido é feio demais, porém... ele é tão lindo, mas tão lindo que estou apaixonada há 30 anos. O marido de minha amiga tem o zurubitol. Ademais, a beleza física, e podem me criticar os politicamente incorretos, é tema secundário.
Não há gominhos na barriga ou dentes brancos que transforme um sapão chato num príncipe. Se teu interior é belo, tem luz, isto fatalmente irradia para teu corpo, seja teu corpo belo ou não... Montesquieu, não obstante sua sabedoria, ficou sem palavras para explicar a razão pela qual pessoas “feias” tornam-se belas. Faltou ao célebre filósofo ter conhecido Bauru, ter desfilado pela avenida Getúlio Vargas...
O autor é colaborador de Opinião