Tribuna do Leitor

Quanta saudade

João Antonetti Torrecilha
| Tempo de leitura: 3 min
Eu era jovem, com toda energia que Deus me deu, fui trabalhar como cobrador do Expresso de Prata, que era prata no nome mas ouro no atendimento. Um povo ótimo onde eu tive bom relacionamento. Eu fazia a linha Bauru/Botucatu.
A Empresa tinha dois carros para o serviço mais urgente, um era dirigido pelo Sr. Manoel Certo e o cobrador era o Maneco, o Maneco tinha a voz fanhosa e o Sr. Ângelo sempre brincalhão, botou o apelido de Marreco, no começo, ele não gostou muito, mas depois levou na brincadeira para o bom andamento do serviço.
O outro carro o motorista era o Pirulim (Antenor) e o cobrador era o Cobrinha, ambos de Botucatu. Como você pode ver era tudo na base do apelido e funcionava bem.
Um dia o Cobrinha me disse: Pavão tem um programa de calouro na rádio PRF 8 de Botucatu, vamos cantar neste programa? Eu topei na hora, sem pensar no "desastre" que ia ser, acabou o meu sossego, porque o Cobrinha ficava anunciando em todas as paradas, desde Bauru, Agudos, Lençóis, Areiópolis, São Manuel e Botucatu.
Em todas as paradas que meu ônibus fazia, sempre tinha um grupo de meninas me esperando. No tempo da jovem guarda, eu já estava me sentindo um Roberto Carlos e os passageiros ficaram perplexos com minha popularidade com a garotada. E chegou o dia do Pavão e do Cobrinha se apresentarem, saímos e fomos no bar do Risadinha que ficava em frente a garagem do Prata. Quando chegamos no bar o Cobrinha venenoso ouviu alguém dizer, o Roberto Carlos que se cuide. Eram umas 8 horas da noite, eu disse pro Cobrinha, vamos tomar um rabo de galo, como todos sabem pinga com cinzano para dar coragem, só que não tomamos só um, tomamos alguns e eu que não tomava cachaça, fiquei meio elétrico e fomos para a rádio. Eu estava com uma calça branca, camisa amarela e gravata borboleta.
De Bauru foram umas quatro meninas num carro DKV, que era o carro do ano, de Lençóis também vieram umas meninas num gordini, de São Manuel teve a presença de quatro garotas, inclusive minha namorada, que era professora numa escola de São Manuel, foram para lá de Aeroylis, de Areiópolis as meninas vieram de jipe. Na hora da apresentação chamaram o Cobrinha que não compareceu, alegando que estava doente, para ser mais claro "amarelou".
Chamaram o Pavão, que foi muito aplaudido e com todo o respeito, peguei o microfone como se fosse um profissional, a música era Bamba lá Bamba - 'jo no soi marinero, soi capitã, soi capitã, soi capitã, eu não soi disso porque esqueci a letra...', a orquestra percebendo o engano parou a música.
Mesmo assim o auditório estava lotado, e me aplaudiram com todo respeito, a meninada veio me abraçar, uma garota chegou a morder minha orelha e disse que era para não esquecer. Me tiraram a gravata borboleta e cortaram pra dividir os pedaços entre elas. A todas estas fãs eu desejo que estejam felizes e do fundo do meu coração só posso dizer: Deus se eu errei me perdoe.

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