Regional

Histórias de superação para enfrentar o câncer

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 10 min

Fotos: Aurélio Alonso
Sergio Firmino da Rocha faz arranjos e cata-ventos com o uso de garrafas pet
Silvia Fróes  começou a ser dedicar em um bistrô na sua luta contra um câncer 

A vida tem momentos que são de superação para algumas pessoas. É bem isso o que o pedreiro Sergio Firmino Soares, de Iacanga, enfrenta há dois anos no tratamento de um câncer no cólon. Nas suas idas e vindas ao Hospital Estadual de Bauru, ele precisava encontrar uma atividade que ocupasse o seu tempo e pudesse esquecer um pouco o tratamento de quimioterapia do qual enfrenta. Foi quando descobriu fazer arranjos e cata-vento com garrafas pets.

Já produziu mais de 100 peças e virou uma “terapia” que o tirou da depressão. “Ele passou a ocupar mais tempo e distrair a cabeça. Tem hora que dá aquela baqueada, mas depois se levanta”, conta a esposa Aparecida Lopes Santos.

O pedreiro descobriu o dom com artes manuais ao manusear garrafas para plantio de tomatinho. Já Silvia Regina Fróes, de Barra Bonita, dedica-se a um bistrô e bar para ocupar o tempo, enquanto passa por quimioterapia para tratar de um câncer na mama no Hospital Amaral Carvalho de Jaú. 

“A interação com as pessoas faz muito bem. A princípio eram mais amigos que vinham, mas tem aparecido muita gente diferente”, revela. Essas são histórias que demonstram o esforço para continuar vivendo. O mesmo fez a pequena Lorena Reginato Defende, de 12 anos, que, inicialmente, criou um canal no Youtube e depois escreveu até um livro, “O sonho de Lorena, uma história de superação e coragem”, que traz todo o relato de como enfrentou o tratamento para curar um tumor no cérebro.

Na publicação, ela conta que não imaginava que o canal teria tantos milhões de seguidores. “Algumas pessoas me falam que mudam a vida depois de assistir aos meus vídeos. Eu acho que isso muito forte. Nem sei como um vídeo pode mudar a vida de alguém”, descreve a garota no final do capítulo “Por que resolvi escrever este livro?”.

“Não é legal ter um tumor na cabeça, operar, ficar sem falar, sem se mexer, fazer químio, fazer rádio, perder o cabelo, andar de cadeira de rodas etc. Mas se eu reclamar, nada vai mudar. Então o que eu faço? Começo a pensar em coisas boas. Ou começo a tentar dar risada. É aquilo de mudar de vibração pra atrair coisas positivas mesmo, sabe?”, comenta Lorena  no livro.

A menina de Jaú já foi entrevistada por vários canais de televisão e ganhou fama nacionalmente, mas virou um exemplo de como superar as dificuldades para uma pré-adolescente num momento como o de enfrentar uma doença grave.

‘Arte com pet’ ajuda contra doença

Sergio Firmino dos Santos conta que, para enfrentar os “dias longos” de tratamento, descobriu a habilidade manual que o auxilia a superar o câncer

Aurélio Alonso
Igreja feita de garrafa pet que Sergio Firmino se inspirou na matriz de Botucatu

Há dois anos o pedreiro Sergio Firmino dos Santos, 51 anos, residente em Iacanga (50 quilômetros de Bauru), trata de um câncer do cólon. A sua vida deu uma reviravolta quando descobriu a doença. Nessa fase difícil que tem enfrentado nos últimos 24 meses descobriu um dom que não sabia: habilidade para artes manuais. Começou e não parou mais de fazer arranjos com garrafas pets. Isso o tirou da depressão e virou uma “terapia” para enfrentar a doença.

O câncer do cólon e de reto em homens é o segundo mais frequente na Região Sudeste (24,27/100 mil). Para 2016, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) há a previsão de ocorrer um aumento dessa doença: 28,15 para cada 100 mil homens no Estado de São Paulo. 

Em 2012, a estimativa mundial apontou o câncer de cólon e reto como o terceiro  tipo de câncer mais comum entre os homens, com 746 mil casos novos (10% do total  dos cânceres). De olhar sereno, até bem tímido, Sergio Santos fica satisfeito ao mostrar todo seu “ateliê” no quintal da residência com as prateleiras de peças feitas com garrafas de refrigerante de dois litros. Há até uma seção só de cata-ventos de todo tipo.

Não tem sido fácil, relata ele, amparado por sua esposa Aparecida Lopes Santos, passar “longos dias” após tanta medicação e o rigor do tratamento. “Tudo começou com o plantio de tomatinhos num pequeno copo. Quem tem câncer dizem que é bom para saúde comer esses tomatinhos. Ficava com a ponta da garrafa na mão e a tesoura quando comecei do nada, cortando e dobrando”, relata o pedreiro ao mostrar vasos e arranjos que produziu. No bairro Jardim das Flores, em Iacanga, os vizinhos ficaram “maravilhados” com essa produção de objetos feitos com garrafas pets. O que deixa as pessoas admiradas é que o pedreiro aprendeu por conta própria.

“Sempre trabalhei na construção civil. Passei a ocupar o tempo cortando as garrafas e vendo no que dava”, emenda Sergio. A esposa é incisiva ao dizer que essa atividade virou uma “terapia” que ajuda muito o marido a enfrentar a desventura da doença. “Ele passou a ocupar mais tempo e distrair a cabeça. Tem hora que dá aquela baqueada, mas depois se levanta”, diz.

A cada quinze dias, Sergio vem ao Hospital Estadual de Bauru fazer a quimioterapia. Nessa fase fica difícil nos dias posteriores fazer a atividade, mas aos poucos vai retomando.

A doença foi descoberta em setembro de 2014, após “inchaço na barriga”. Inicialmente foi feito um ultrassom no serviço de saúde de Iacanga. Depois foi indicado para o Hospital Estadual em Bauru, quando diagnosticou o câncer.

Sergio já passou por duas cirurgias, ficou um período com a bolsa de colostomia e ainda passa por sessões de quimioterapia. O último diagnóstico demonstra que a doença está sob controle.

Produção do pedreiro de Iacanga é variada: vai de arranjos a cata-vento

A produção é a mais variada com os arranjos inspirados em flores e são os que mais dão trabalho. Há também cata-ventos de todo tamanho. Nesses poucos mais de dois anos, Sergio Fermino dos Santos sempre está pensando no que vai fazer.

O pedreiro gosta de colocar nomes nas suas peças. Não as vende. Elas ficam guardadas em uma prateleira no quintal de sua residência. Com a aproximação do Natal, as voluntárias  de uma associação de ajuda a doentes com câncer de Iacanga “encomendaram” arranjos e vão levá-los a uma feirinha. É praticamente uma árvore natalina com a estrela de Belém na ponta.

A sua dedicação tem cativado e incentivado outras pessoas a lutarem contra a doença e não se deprimirem. Há também uma miniatura de igreja feita com garrafas descartáveis. É possível visualizar até o interior do templo pela porta de entrada. O pedreiro foi detalhista: fez as cadeiras e o altar. “Veio na minha cabeça essa igreja com duas torres. É igual a de Botucatu”, conta Sergio Fermino.

O hobby também recriou um monjolo movimentado pela água inserida na roldana. Um exercício de hidráulica com três patamares e um pequeno navio. Pode se dizer que é espécie de eclusa. Na coleção há radiador, girassol, periquito, chapéu mexicano, carrossel, animais e vasos. Ao todo são 120 peças.

Processo de cura inclui bar e bistrô

Regina Fróes encontra força em ajudar um amigo em estabelecimento de comida natural e bistrô como espécie de “terapia” no tratamento contra o câncer

Aurélio Alonso
Silvia Fróes em bistrô naturalista na Barra Bonita: “Isso aqui veio como um processo de cura”  

Um turbante azul e roxo foi incorporado à vestimenta de Regina Silvia Fróes, de 40 anos, que luta contra um câncer na mama. Após as sessões de quimioterapia há queda de cabelo e por isso o adorno em volta da cabeça. A doença foi descoberta em janeiro deste ano, mas o tratamento começou em maio no Hospital Amaral Carvalho de Jaú. Nesta fase, Regina encontrou no bistrô e bar Sal de Terra de Barra Bonita a sua “terapia” para enfrentar essa fase turbulenta da vida.

De acordo com o Instituto Nacional de Câncer, para o Brasil, em 2016, são esperados 57.960 casos novos de câncer de mama, com um risco estimado de 56,20 casos a cada 100 mil mulheres. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, esse tipo de câncer também é o primeiro mais frequente nas mulheres na região Sudeste (68,08/100 mil).

Silvia é muito alto astral, mas não esconde que é um desafio o que vem enfrentando nos últimos 10 meses. O bistrô fica em uma casa com uma enorme árvore na frente. O local pertence a um amigo, o músico Deison Franco. Logo na varanda tem uma lousa enorme com os preços. Na verdade, seria uma casa de chá, mas ali vende comida natural, especiaria e cerveja. À noite tem música.

Esse convívio com as pessoas é a “terapia” de Silvia Fróes, que já passou por oito quimioterapias e faltam ainda sete até dezembro. “Isso aqui veio como processo de cura. Não tinha plano de abrir um bar. Comecei o tratamento e passei a ajudar o meu amigo, o que preencheu meu tempo”, conta.

Antes de ficar doente, Silvia trabalhou no setor financeiro do Hospital São José e depois na navegação - a hidrovia Tietê-Paraná tem uma estrutura grande em Barra Bonita. Mas chegou um dia em que resolveu largar a logística. “Deixei tudo sem ter nada. Uma semana depois descobri o câncer”, conta Sílvia Fróes.

Ela ressalta que tem recebido muita ajuda de amigos. “A interação com as pessoas faz muito bem. A princípio eram mais amigos, mas tem vindo gente diferente. O pessoal sabe que tenho câncer. No começo eu sofria, porque estava em um processo da quimioterapia doloroso. Já fiz oito químio, mas ainda faltam sete. Tinha um nódulo muito agressivo, praticamente quase desapareceu”, contou ao JC. 

Menina de Jaú lança livro após ‘fama’ na Internet

Divulgação/SBT
Lorena Reginato Defende acompanhada da mãe Fiorella Reginato no talk show de Danilo Gentilli

A história de Lorena Reginato Defende, de 12 anos, é mesmo de superação. A rede social foi a forma que a garota de Jaú encontrou para se conectar ao mundo e preencher seus dias de tratamento de um tumor no cérebro diagnosticado no ano passado.

Ela enfrentou duas cirurgias para a retirada do tumor. Além da fala, movimentos do corpo também foram comprometidos. Mas as sequelas não abalaram o bom humor da adolescente e nem seu sonho de criar o canal no YouTube a “Careca TV” para divulgar dicas de jogos. O primeiro vídeo, onde ela se apresenta e conta um pouco da sua história de vida, foi visualizado por mais de 1 milhão de pessoas em apenas três dias e mais de 291 mil seguidores no Instagram.

A página sofreu ataque de hacker que excluiu seus uploads anteriores. Após ser hackeada, a garota teve ajuda de outros colegas youtubers e bateu o próprio recorde inscritos no novo canal: mais de 500 mil em menos de 24 horas.

Ela também lançou há poucos meses o livro “O Sonho de Lorena, Uma história de superação e coragem” pela editora Universo dos Livros. Na publicação, ela conta que não imaginava que o canal teria tantos milhões de seguidores. “Algumas pessoas me falam que mudam a vida depois de assistir aos meus vídeos. Eu acho que isso muito forte. Nem sei como um vídeo pode mudar a vida de alguém”, descreve Lorena no final do capítulo “Por que resolvi escrever este livro?”.

O “Careca TV”  foi a maneira que a estudante descobriu para encarar o tratamento contra a doença de forma bem humorada. “Eu sou careca, olha que careca linda, porque eu tive câncer, mas já não tenho mais”, declara Lorena no vídeo inaugural, após retirar a touca que escondia os efeitos da luta contra o câncer. 

“Não é legal ter um tumor na cabeça, operar, ficar sem falar, sem se mexer, fazer químio, fazer rádio, perder o cabelo, andar de cadeira de rodas etc. Mas se eu reclamar, nada vai mudar. Então o que eu faço? Começo a pensar em coisas boas. Ou começo a tentar dar risada. É aquilo de mudar de vibração pra atrair coisas positivas mesmo, sabe?”, recomenda em outra parte do livro.

Lorana já foi entrevistada por vários canais de televisão e ganhou fama nacionalmente, mas virou um exemplo de como superar as dificuldades para uma pré-adolescente num momento como o de enfrentar uma doença grave.

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