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A legitimação da vitória

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Periga ganhar o “partido dos que não votam”, expressão cunhada por um observador estrangeiro (Juan Arias, El País) referindo-se ao ocorrido em muitas cidades importantes, onde a soma dos votos nulos e em branco com as abstenções superou os sufrágios atribuídos ao vencedor. Aconteceu com João Doria, em São Paulo. A leitura que se faz abarca um leque de constatações que vão desde a corrupção que aí está e a desilusão com os políticos que prometem muito e fazem pouco com a crise da economia e o desemprego.

     

Esse conjunto leva ao desinteresse pelo sistema, que funciona mal. Para piorar, a eleição em segundo turno cai em meio a um hiperferiado. Começou na sexta-feira com o Dia do Servidor Público e vai até o Finados, na quarta-feira. Um convite e tanto para a praia e o campo nas risonhas manhãs sob o sol da Primavera – para lembrar o poeta.

   

O eleitor é pragmático, vota naquele em quem enxerga condições de resolver o problema da vida dele. As promessas, na maioria, não são cumpridas, até por impossibilidade absoluta. O prefeito Rodrigo Agostinho tinha como carro chefe da sua campanha o tratamento de 100% do esgoto, coerente com sua vocação ambientalista. Chegaram somente migalhas do governo federal e, mesmo com dinheiro suficiente das contribuições compulsórias acrescidas às tarifas do DAE, ficou preso na burocracia, na falta de planejamento e na desídia dos empreiteiros. Rodrigo foi reeleito no primeiro turno com 153 mil votos, 82% dos votos válidos.

   

Gazzetta, seu principal oponente em 2012, teve 23 mil votos. O recorde histórico de Rodrigo dificilmente será superado nas próximas eleições, pelo menos em termos proporcionais. A abstenção, que era de 18%, ultrapassou os 22% no primeiro turno da atual disputa. Se o candidato não conseguir a maioria bruta dos votos não enfrenta problema legal para assumir o cargo. Votar em branco ou nulo ou se ausentar só ajuda quem está na frente.

    

Diz o jargão que “o voto é individual, mas as consequências são coletivas”. Também não podemos negar que o “partido dos sem voto” tem um forte componente de insatisfação. Areforminha política mostrou resultados positivos com a proibição dos financiamentos de campanha por pessoas jurídicas e as limitações da propaganda eleitoral. Pelo menos obrigou os candidatos a um corpo a corpo com o eleitorado. A reforma para valer deverá incluir a não obrigatoriedade do voto, a escolha por distritos e uma atuação permanente do Tribunal Superior Eleitoral. Este só aparece em época de eleição. Sua atuação deveria ser permanente, como acontece em países adiantados, para informar ao cidadão como estão se comportando o Legislativo e o Executivo no cumprimento das metas a que se dispuseram. No Brasil, não há quem fiscalize a realização das audiências públicas, obrigatórias.

 

Projetos importantes sobre o meio ambiente, políticas sobre  criança e adolescente, Plano Diretor, Zoneamento Urbano e Orçamento passam despercebidos. Por falta de publicidade e conscientização, as audiências não duram mais do que dois minutos. São abertas e encerradas por falta de quórum. A Constituição e a lei regulamentadora obrigam as administrações a garantirem transparência em todos os negócios e atos, incluindo-se informações sobre salários e benefícios dos efetivos e comissionados. Esses dados deveriam estar ao alcance imediato pelos meios eletrônicos. Dificilmente as regras são obedecidas.

    

Gazzetta ou Raul? Pessoas dignas, mas nenhum deles vai “mudar a sua vida” e muito menos “a história de Bauru”. A legitimação da vitória só se dará pelo tempo, com gestão inovadora, transparente, ética e centrada nos problemas da cidade. É dessa forma que o vencedor vai ter que construir essa legitimidade. Meu amigo Sampainho, um hábil observador político que hoje navega em mares etéreos, entre Brahmas e brumas e Antarcticas espumas, dizia que ninguém perde eleição.


O fato do candidato ter amassado barro na periferia, comido poeira, conhecido famílias desempregadas à beira da miséria, beijado o rosto sujo das crianças, apertado mãos calosas e ouvido vozes em desespero já foi uma grande vitória. Lição de humanidade. Da cabeça aos pés. Se ficou vermelho de vergonha, sairá do episódio mais humilde e disposto a fazer alguma coisa para mudar esse quadro nauseante, mesmo fora do cargo.

    

Quem perder, ainda terá quatro anos pela frente para cobrar do adversário ganhador as promessas feitas. E será vencedor.

O autor é jornalista e articulista do JC

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