Tribuna do Leitor

Se queres a paz, prepara-te para a guerra

Roque Roberto Pires de Carvalho - Parte do texto inspirado na obra 'Reform
| Tempo de leitura: 3 min

'Idos de 1945 ! - O pai lavrador e sem muitos recursos... família numerosa, casa humilde, onde à noite brilhava lá fora a lua cheia e na sala grande um lampião, lamparina ou vela... rádio receptor não existia e o jornal, com semanas de atraso, era retirado no armazém de secos e molhados da cidade próxima.

O pai, na sua simplicidade, após a aridez do dia chamava os filhos para, à sua volta, ouvirem leitura das notícias da guerra. Procurava induzir os pequenos à alfabetização através da leitura e ao deixarem a roça indo para cidade grande encontrarem um futuro melhor... sonho/realidade, todos aceitaram a escolarização em seus diversos graus.

O caçula, já crescidinho, foi convocado para as fileiras do Exército. Em lá chegando, deparou-se com a advertência acima... Foi um susto! Na condição de recruta, iniciou com os mais graduados treinamento para atender e cumprir os sagrados deveres na defesa da Pátria; até morrer se necessário fosse, segundo os instrutores. Era assustador... A guerra seria aquela que o pai tanto falava...? Felizmente, ao dar baixa não havia participado de nenhuma batalha campal, exceto guerrinhas de alojamento sob vigilância caolha do plantonista.

Mesmo passado tanto tempo, os dizeres insculpidos na entrada do quartel não deixavam dúvidas... Por índole, ele não aceitava matar ninguém, eventualmente a fome. Morrer.. .bem, neste capítulo ele estava convicto de que um dia, esperado ou não, deixaria a família, os amigos, as vestes do cotidiano, bens materiais e tudo que fora recebido por empréstimo ao nascer.

O Espírito que o acompanhou na jornada terrena seria o mesmo no plano superior. No mundo globalizado, as experiências vividas em 1914/1918 e depois 1939/1945 com a bomba atômica aterrorizando o planeta, maior terror poderá acontecer agora com as traiçoeiras armas nucleares, onde os governantes dos mais diversos países dizem "querer a paz" - "preparando-se para a guerra". - Curioso, quão paradoxal é o ser humano ! - Fazendo suas reflexões sobre o título acima, experimentou sentimentos diferentes. Exércitos de homens deixam seus lares, seus trabalhos, seus familiares, amigos, sua estabilidade para, na tentativa de conquistar territórios, ou de defendê-los, se atiram numa batalha infrene, matando ou morrendo, destruindo e odiando aqueles a quem deveria aprender a amar.

E o mais interessante é esse "slogan" adotado pelo ser que se acredita inteligente, fomentando a guerra, o ódio, a destruição, o extermínio de populações civis, das cidades onde se agregam idosos, mulheres, crianças, animais domésticos e selvagens, lavouras, rios, fontes, para se obter a Paz? - A que Paz ele se refere? - Paz nas consciências? Na Terra?

Que paz é essa que se conquista às custas do morticínio, da bestialidade, do ódio, da destruição? Em que lugar do mundo podemos dizer que reina a Paz absoluta, a harmonia, o equilíbrio entre todas as instituições, a fartura, o emprego para todos, a saúde, a educação ideal? Como é de conhecimento, "guerras" são deflagradas diariamente na sociedade hodierna pelo campo belicoso permanente na intimidade do homem desde os tempos imemoriais. Da alma dos caluniadores partem as flechas incendiárias.

Na evolução do mundo e em especial a educação espiritual ainda proporciona esperança nos ditos e feitos de outros tantos luminares, que, sem exército armado, sem belicosidade, fizeram e construíram a Paz, sem matar sequer uma criatura usando apenas a não violência citando apenas Jesus, Ghandi, Teresa de Calcutá, Francisco de Assis.

O Espiritismo, restaurando o Cristianismo, é universidade da Alma. Nesse sentido vale recordar que Jesus, o Mestre por excelência, nos ensinou, acima de tudo, a viver construindo para o bem e para a verdade, como a dizer-nos que a chama da cabeça não derrama a luz da felicidade sem o óleo do coração.'

 

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