Escolhido para se tornar o novo secretário-geral da ONU, António Guterres elogiou ontem a legislação brasileira para acolhimento de refugiados e defendeu que o país assuma papel de diálogo para solucionar conflitos globais.
Em encontro com o presidente Michel Temer no Palácio do Planalto, o ex-premiê português ressaltou que o país tem uma política externa independente, desvinculada de grandes blocos econômicos e militares, o que pode ajudá-lo a cumprir um papel de mediador global.
Ele também observou que a tradição na defesa dos direitos humanos credencia o Brasil a cumprir um papel importante em um mundo "em transição" e que "caminha para a multipolaridade".
Segundo Guterres, a comunidade internacional perdeu a capacidade de prevenir ou solucionar conflitos mundiais e as atuais potências têm tido dificuldades de se entenderem mutuamente.
"A comunidade internacional perdeu grande parte de sua capacidade em matéria de prevenção e resolução de conflitos. E uma das razões para isso é o fato de as relações de poder serem cada vez menos claras e, portanto, é cada vez mais difícil de se criar uma ordem internacional organizada", disse.
Guterres ressaltou que as apreciações das potências são por vezes "distintas do que são as prioridades" e avaliou que conflitos regionais têm aumentado de complexidade e estão cada vez mais interligados em uma "ameaça geral de terrorismo".
Pleito brasileiro
Guterres, que assumirá o cargo de chefia da ONU no ano que vem, defendeu uma reforma no Conselho de Segurança da organização.
O português evitou responder, contudo, se concorda com a reivindicação do Brasil de assegurar um assento permanente no conselho.
"A ONU precisa em muitos aspectos de reformas para se tornar mais eficaz e ter uma orientação que seja mais ligada aos tempos de hoje e não aos tempos de sua formação. E, como disse [o ex-secretário-geral] Kofi Annan, não haverá uma reforma da ONU completa enquanto o Conselho de Segurança não se reformar", disse.
Guterres observou, contudo, que a responsabilidade de promover as mudanças é dos países membros, mas que ele, como futuro secretário-geral, deve facilitar o diálogo para que seja possível modernizar a entidade mundial.
O ex-premiê viajou a Brasília para integrar a 11ª conferência da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.