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Yes, você pode!

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Dá certo, mas errado também. Um dia é da caça, o outro do caçador. Em campo, é muito bom vencer. A taça na mão, os aplausos, elogios. Nem sempre. Vezes haverá em que se deixará o gramado arcado sob o peso da derrota, cabisbaixo pelas vaias da torcida. A boca, que de tonta não tem nada, tem discurso na ponta da língua. "Culpa do bandeirinha cego. Do juiz ladrão. Do complô na Federação. Da bola enrabichada com a trave. Da grama alta. Do começo de temporada. Do rabudo goleiro adversário... Agora é levantar a cabeça e partir pra outra". Não é assim que termina a entrevista?

Terceirizar a culpa, um caminho. Assumir a responsabilidade do insucesso, o outro. Na defensiva, sentindo-se ameaçada, a criança procura rápido um terceiro a quem culpar. Nada contra. Ela ainda não aprendeu a lidar com o novelo embaraçado dos porquês. Instintivamente, sente que precisa fugir do laço da culpa. Então, foge. Normalíssimo. O que não é nada normal é o fato de muitos adultos não terem superado esse estágio de imaturidade. Continuam de calças curtas, quase pedindo fraldinha e chupeta, jogando em tudo e em todos a culpa do fracasso que lhes pertence. Possivelmente, mimados excessivamente pelos pais, professores e familiares, acabaram desenvolvendo uma percepção totalmente equivocada de si mesmos. Entraram na pior das turmas, a "turma dos que se acham". Tão exagerada autoestima acaba por impedi-los de aceitarem qualquer situação em que sejam perdedores. Agindo assim, estão condenados a muito sofrerem, quando poderiam aprender a lidar de forma madura e saudável com os naturais reveses da vida. Keith Campbell, psicólogo da Universidade da Geórgia, tem um recado interessante para pais de "geniozinhos": "Eles precisam entender que seus filhos são especiais para eles, mas não para o resto do mundo." É isso aí. Melhor que o Super-homem fique lá no mundo dele, que é o da ficção.

Pensemos, seriamente, que de nós muito depende o equilíbrio emocional das crianças. Melhor que as eduquemos para que aprendam a conviver não só com acertos e vitórias, mas com erros e derrotas também. Que saibam, sobretudo, respeitar limites. Que entendam que, além da palavra sim, outra importante é o não Que devemos ser apenas irmãos e não os mais ricos, os mais lindos, os mais inteligentes, os mais mais. Que na vida se erra muito e nada de errado há nisso, com o erro se aprende a menos errar. Que temos facilidade para algumas coisas e dificuldades para outras, talentos e limitações. Que somos apenas diferentes e isso não nos faz melhores ou piores e, na diferença, precisamos nos respeitar. Que culpa não é coisa que se debite na conta-costa do outro.

É assim que ensinamos - ou deveríamos ensinar - as crianças. O problema é que uma boca bem maior do que a nossa, boca doente e perversa, atropela tudo o que dizemos na mais flagrante contramão. "Seja Top! Seja Prime! Seja Vip! Aproveita, dá uma olhada na revista, olha a cara dos caras convidados pro banquete. Quer ser um deles? Yes, você pode! É só repetir: eu quero, eu posso, eu consigo, eu, eu, eu, eu, eu..."

 

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