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Precisamos da esquerda

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O avanço da direita no mundo todo busca atacar aquelas que foram as conquistas da social democracia. Acabou o "Estado Babá". Hoje os governos conservadores acham que prover qualidade de vida para os pobres custa muito dinheiro e não há orçamento público que resista. No Brasil há algo mais, além do envolvimento do PT na Operação Lava Jato, para explicar sua derrocada nas últimas eleições. Perdeu 60% das prefeituras que detinha. É a direita que se fortalece. Agora, o que resta da revolução lulista, como o Bolsa Família, a política de cotas e as conquistas trabalhistas, corre sério risco. O "Brasil, Pátria Educadora" morreu no nascedouro. A escola pública está abandonada há décadas. Também o PT fez menos do que poderia nos ensinos fundamental e médio nos 13 anos em que permaneceu no poder. Os estudantes secundaristas são os únicos que esboçam uma reação, acima de suas forças. Os adultos que poderiam estar ao lado desses adolescentes têm dificuldades de compreender a gravidade do problema e de assumir responsabilidades.

A situação é séria. A esquerda representava a oposição. Bem ou mal, cumpria algum papel. Agora, praticamente inexiste. O uso que faço da palavra "esquerda" remete, claro, a uma tradição política de que quase já não há traço algum nas oposições e governos que temos hoje nos países economicamente mais fortes. Os intelectuais de esquerda, como a maioria dos intelectuais, não são bons políticos. Os intelectuais se atrapalham na hora de ler a partitura. Desafinam quando estão no palco. Nem servem mais de contrabaixistas para tocar na fila de trás da orquestra para, ainda que momentaneamente, darem o tom da política. A esquerda mundial perdeu o horizonte histórico - não tem utopia, não tem projeto. O mundo está em crise, o Brasil está em crise. Cadê o projeto da esquerda? "Não é fácil ser esquerda em um mundo tão sedutor quanto o do capitalismo neoliberal" - lamentava-se Frei Beto, um dos principais fundadores do PT. Concluía que o erro de Lula foi ter "facilitado o acesso a bens pessoais não a bens sociais". Todos os governos fizeram o mesmo na Europa, no início do século 20. A única fração que deu certo foi a de garantir a continuidade do capitalismo no pós-guerra. A redistribuição de renda, por si, é um modelo que se esgotou. O Estado-Provedor chegou tarde ao Brasil e se despede cedo. Michel Temer conta com a fidelidade do mais conservador Congresso Nacional da história para aprovar uma lei que limita por 20 anos os gastos públicos. Embora desminta, não haverá como deixar de fora a educação e a saúde. Mais da metade das escolas brasileiras não têm água e esgoto. Muito menos energia elétrica e cozinha. Nos postos de atendimento do SUS, faltam de esparadrapos a antibióticos. As pessoas morrem nos corredores.

O ministro da Fazenda Henrique Meirelles quer menos presença do Estado e mais arrecadação. Eleito prefeito de São Paulo, João Doria promete privatizar estádios, autódromos e sambódromo. No Rio, Marcelo Crivella, bispo evangélico e cantor gospel, tem um passado de intolerância contra católicos e homossexuais. Nem a Nossa Senhora Aparecida escapou da sua iconoclastia. "Foi a maior curva à direita que o Brasil fez neste século", escreve a revista Veja. Três fatores teriam levado a essa virada, segundo a revista: "A força monumental do antipetismo, que infligiu a maior derrota da história do PT; a crescente identificação do eleitorado com a direita; e o triunfo, ainda lento e gradual, de um mal perigoso - a antipolítica, bandeira levantada, quase sempre, por candidatos do conservadorismo".

Para os observadores políticos, o que "arrepia", no Brasil, é que não há apenas uma direita. Além do tradicional PMDB de Temer e Sarney, temos o protagonismo neoliberal do ministro das Finanças do PSD Henrique Meirelles. De outro lado, o ultra neoliberal João Doria, que se define como empresário. Representa o tal "mal perigoso" dos "políticos antipolíticos" a que se refere a Veja. Outras faces ganham preponderância, como a direita religiosa capaz de atrair Bolsonaro e Marco Feliciano; e a direita rural, que defende os "com terra, e muita terra".

À esquerda brasileira só resta radicalizar. Esgotou-se o pacto com a burguesia. A alternativa é uma aliança com os movimentos sociais. A democracia claudica, sem o apoio das duas muletas.

 

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