Em meio a tanta regra determinada pelo mundo e o consolo quase nulo ofertado pela vida, o telefone pode tocar num fim de madrugada para nos informar que a pessoa que mais amamos faleceu. Mesmo que não tenhamos dado a devida importância para essa pessoa em vida, a morte - independente de quem seja - causa-nos sempre um imenso incômodo.
As horas que seguem no despedir do pálido cadáver até o momento do último adeus na sepultura é tempo suficiente para nos provocar uma avassaladora e torturante reflexão. A morte dos outros é, talvez, o único freio que temos para uma real análise de nós mesmos. Vemos que não somos donos do mundo, e que não temos a heroína capacidade de prolongar para o eterno a vida de quem amamos.
Acredito que não tememos apenas a morte no seu estado biológico. Tememos a morte como fim da participação ativa no mundo dos vivos. E o sentido mais valoroso de se estar vivo é o convívio das pessoas que amamos. Se não atribuíssemos este sentido à vida e ao convívio dos nossos queridos, pouco importaria partir desse mundo de dor e sofrimento para um suposto estado de felicidade ou mesmo arder nos porões do inferno, sentenças tão prometidas por Deus e suas igrejas.
O nosso ego e suas mentirosas conquistas nos prendem às paredes de tijolos e nos faz ignorar, da forma mais covarde, aquele abraço apertado que nos protege muito mais que o mais suntuoso castelo. Os mortos que descem à sepultura nos suplicam que façamos das nossas vidas uma coletânea de momentos únicos, inesquecíveis, e que não tenhamos medo de levantar da cama, pegar o telefone e ligar para aquela pessoa antes que as horas mais frias da madrugada se aproximem. E agora, caro leitor, quem mais precisará morrer para que você repense sua vida?