Tribuna do Leitor

Pais & filhos - dúvidas e certezas

Cesar Augusto Teixeira de Carvalho - Professor Doutor aposentado do Departa
| Tempo de leitura: 4 min

Colocou seu filhote no mundo? Não tem mais conversa: assumiu um compromisso e o vínculo é eterno! Criar filhos é prazeroso, mas se prepare: não é uma ciência exata, tendo uma lógica própria geral e outra para cada filho. Claro que o respeito e o tempero agradável são importantes em toda convivência, mas, a relação "pais & filhos" não se resume apenas a isto. A meu ver, a principal função dos pais é preparar os filhos para a vida! Assim, como preocupação permanente, destaco a orientação a ser dada sobre os "certos e errados" que vão encontrar pelo caminho e oferecer o suporte necessário para se qualificarem, dando-lhes condições de conquistarem no futuro, total independência. Já na fase pós-adolescência, uma tarefa predominantemente deles, é buscar relacionamentos saudáveis que combinem segurança e alegria de viver e, assim, estarem bem próximos de obterem a tão almejada felicidade.

Acredito que um grande dilema dos pais é saberem qual a dosagem certa entre "ajudar e educar" em cada etapa da vida. Com certeza, os extremos como "só ajudar" ou "só educar", não funcionam bem e, na dosagem dos dois não há uma receita pronta e acabada, pois depende muito dos objetivos e também da natureza de cada filho. Além disso, é possível que um procedimento que dê certo com um filho, não dê certo com outro. Um complicador adicional é que os pais são também novos nesta empreitada, e a real natureza de cada filho se acaba conhecendo mesmo um pouco mais adiante, depois que muita cabeçada já foi dada. Nossa e deles!

No quesito "ajudar", acho que na fase inicial da criação, os filhos adorariam receber uma boa mesada para viverem no "bem & bom", sem que nenhuma contrapartida fosse cobrada. Lógico, nesta fase, eles têm pouca experiência de vida e pensam mais na satisfação do momento, sendo raríssimos os casos daqueles que já se preocupam com o futuro. Os pais que entrarem nesse "populismo caseiro", num primeiro momento, certamente serão endeusados pelos filhos, mas, é bem provável que a "conta a pagar" logo seria apresentada. E seria bom que fosse o mais cedo possível pra dar tempo de corrigir. Entendo também que deixar a coisa correr solta, é arriscar confiando demais no seu filhote, mesmo que ache maravilhosa a herança que repassou de seu DNA.

Por outro lado, é muito comum vermos pais revoltados com os filhos na adolescência, dizendo: "não entendo, dei tudo pro meu filho e agora ele só me apresenta problemas!". Lógico, deu tudo ou quase tudo, mas provavelmente faltou o principal que é evitar que ele se sinta um príncipe, achando que o mundo gira em torno dele. Este é um erro que alguns pais cometem: amam os filhos demais da conta e acham que dando tudo estão fazendo o melhor, e se esquecem que, no futuro, eles terão que enfrentar a vida sozinhos. É importante saber que toda luta e sacrifício pelos quais as pessoas passam para conquistar as coisas, com certeza, são fundamentais no seu amadurecimento e visão de mundo. Infelizmente, é assim que a maioria das pessoas aprendem e evoluem. Esta experiência, muitas vezes dolorosa, mas necessária, os pais estariam negando aos filhos dando tudo facilmente a eles. Portanto, no quesito "educar", acredito ser importante instituir "contrapartidas" como, por exemplo: dedicação aos estudos e execução de tarefas caseiras. Tudo a seu tempo, claro! Mas algumas tarefas o mais cedo que seu pixote puder fazer como, por exemplo, arrumar sua cama e seu quarto. Depois, ajudar nos demais trabalhos caseiros e, quanto mais cedo estas tarefas forem instituídas, mais fácil será a aceitação disto como algo normal. Se for mais tarde, o risco é seu príncipe se revoltar argumentando que seus coleguinhas não fazem nada disto. Estes trabalhos caseiros ajudam a incutir responsabilidades de um modo gradual e servirá de amostra como o mundo é de fato, mas num ambiente ainda favorável e tolerante. Para a eficácia do processo, é importante também condicionar algumas "ajudas", como as mesadas, ao cumprimento daquelas tarefas. Alguns chamam isto de "amor exigente" ou "amor de resultados".

Lógico que é mais fácil falar do que fazer! Experiências de vida são difíceis de repassar, pois até adultos têm dificuldade de assimilar algo associado com situações que nunca vivenciaram de fato. Imagine, então, uma criança ou um adolescente que está começando a viver, no frescor de sua inocência e inexperiência. O ritmo lento de aprendizagem não é culpa deles! É da própria natureza humana que assimila um pouco de cada vez. Tudo a seu tempo e tudo se consolidando no confronto com suas próprias experiências de vida.

Entretanto, acho que ninguém gostaria de ter um filho medroso, inseguro e sem iniciativa. Assim, feliz dos pais que tem com os filhos apenas os problemas normais ocasionados pela curiosidade e ousadia própria da idade. Reconheço que as vezes é um "saco", mas hoje vejo que isto é natural e até um bom sinal por serem saudáveis e cheios de vida. Mas, por via das dúvidas, as atenções devem ser permanentes em todos os sentidos, até que se perceba que o filhote está bem amadurecido para arriscar um voo solo. Mesmo assim, temos que fazer figa e ficar torcendo.

 

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