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O baile da Ilha Fiscal

Waldir Ferraz de Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

O baile foi um luxo só e nunca se dançou, comeu e bebeu tanto como na noite de 9 de novembro de 1889, nos salões do Palácio da Ilha Fiscal, no Rio de Janeiro, que se converteu no último ato do apagar das luzes da monarquia no Brasil. Organizado pelo presidente do Conselho de Ministros, o Visconde de Ouro Preto, o baile foi oferecido aos 300 oficiais do cruzador chileno Almirante Cochrane, que aqui aportara um mês antes em escala de boa vizinhança. Na suntuosa festa, nada foi poupado para que os quase 4.500 convidados, entre eles, é claro, a família real brasileira, passassem uma noite de sonho e fantasia, cujo banquete fenomenal custou aos cofres públicos cerca de 250 contos de réis, o equivalente a 10% do orçamento previsto da província do Rio de Janeiro para o próximo ano.

Uma semana antes, as mais requintadas lojas de roupas finas da cidade, como a Casa Palais e Royal, fervilhavam de senhoras e senhoritas que corriam em busca da elegância dos toaletes de seda, rendas de Bruxelas, chamalotes, veludos, além de joias e ornamentos caros. Setenta e duas horas antes do baile, já não havia vagas nos cabeleireiros e algumas mulheres chegaram a dormir sentadas na noite anterior para não desmanchar o penteado.

Também se verificou intenso movimento nos alfaiates, pois os cavalheiros encomendavam ricas casacas feitas especialmente para a ocasião e os mais ousados faziam os últimos ajustes em seus vestons, extravagante indumentária composta de longas vestes negras com golas de seda importada.

As filas nos barbeiros eram enormes desde as 7 da manhã, quando homens e jovens se barbeavam e aguardavam pacientemente para dar o último retoque nos cabelos, finalizando o trato pessoal, narcisando-se ao espelho os detalhes finais do figurino que lhes garantissem algum elogio das donzelas ou lhes permitissem vantagem entre as batalhas envolventes da contradança.

A ilha foi totalmente ornamentada com flores e fina decoração que incluía 10.000 lanternas venezianas distribuídas em 6 salões em que as bandas contratadas tocaram quadrilhas, polcas, mazurcas e valsas até as 4 horas da manhã. Entre as mulheres o requinte reinava absoluto com destaque para a princesa Izabel, que trajava um lindo vestido de moiré preto listrado, tendo à frente um corpinho alto bordado a fios de ouro e nos cabelos encaracolados um diadema de brilhantes.

A ceia foi um capítulo à parte, composta de peixes e carnes diversas dispostas em 5 mesas em forma de ferradura que concorriam com outras iguarias como faisão, aspargos e sorvete, uma verdadeira novidade para a época ainda sem geladeira. Consta que foram consumidos 800 kg de camarão, 500 perus, 1.300 frangos, 20.000 sanduíches, 2.900 pratos de doces, além de 10.000 litros de cerveja e 304 caixas de vinho e champanhe importados. O baile, que foi originalmente idealizado para homenagear o alto escalão dos oficiais chilenos, serviu também para se comemorar as bodas de prata da princesa Izabel e do conde D'Eu. Entretanto, o principal motivo do evento era rebater a disseminação das ideias republicanas com um acontecimento inesquecível, marcando a solidez do império.

Mal sabiam os organizadores da festas que seguia alegre noite adentro que no mesmo horário, dentro das Lojas Maçônicas e nos clubes militares, o tenente-coronel e professor de matemática Benjamim Constant liderava as reuniões visando a República, decidindo-se pelo golpe que viria a acontecer seis dias depois, em 15 de novembro.

Depois do baile, um relógio invisível bateu as horas e os últimos acordes marcaram alegremente o enterro de um regime que muitos desejavam o fim. Estava anunciado o início de uma nova era, acreditando ser o tempo da "ordem e do progresso". Será?

Historiadores afirmam que os fatos se repetem com outras roupagens, e parece ser verdade. Decorridos 127 anos, os bailes continuam acontecendo, agora organizados por Renan, Cunha, Collor, Dirceu, Lula, Sarney e muitos outros. Há, entretanto, uma diferença fundamental: agora o povo todo dança.

 

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