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Orgulho crespo: movimento para fazer a cabeça

Aline Mendes
| Tempo de leitura: 2 min

Douglas Reis
Marcha do Orgulho Crespo marcou 2.º Encontro de Crespos e Cacheados em Bauru, ontem

“Cabelo crespo não é moda, é DNA. Ele foi silenciado, mas hoje o negro não quer mais se calar, seguir um padrão... Quer ser ele mesmo”, declara Ivana Santos, uma das organizadoras do 2.º Encontro de Crespos e Cacheados, realizado nesse sábado (12) à tarde, em Bauru.

A ideia é ponto de partida da Marcha do Orgulho Crespo, que neste sábado saiu da Praça Rui Barbosa e desfilou pelo Calçadão da Batista de Carvalho com fios encaracolados em diversos estilos rumo à antiga Estação Ferroviária.

Lá, membros e simpatizantes do movimento “Orgulho crespo” se uniram a outros grupos para uma mesa de conversa sobre temas como empoderamento afro, a construção da identidade da mulher negra e a resistência ao racismo.

“Certamente vamos falar da eleição de Donald Trump como presidente dos EUA. Parece longe, mas esse discurso racista, de ódio, vai respingar aqui. E todo o trabalho que a gente teve? Dá muito medo”, avalia Ivana Santos.

As atividades, que têm o apoio da Casa do Hip Hop e da Associação Cultural das Tradições Afro-brasileira de Bauru (ACTAB), integram a programação do “Mês da Consciência Negra”.

LIBERDADE

Por que enfatizar o visual dos fios? “É muito mais que um cabelo. É uma forma de dizer que a gente está aqui. Para muitas pessoas os crespos são uma ofensa, incomodam”, lamenta Ivana.

De acordo com ela, isso tem um preço, que vai de comentários maldosos à perseguição, incluindo fim de relacionamentos e perda do emprego. “De repente, a pessoa não se adequa mais ao perfil da empresa quando se nega a alisar ou prender os cabelos. Isso acontece, e muito”, denuncia.

O movimento “Orgulho crespo” não dita regras, nem diz que não pode mais alisar. Apenas acredita que é importante passar pelo processo de deixar os fios naturais para a mulher negra redescobrir sua identidade e se sentir bem como ela é, explicaram durante o evento.

Nina Barbosa, conhecida por ensinar a usar turbantes típicos da cultura negra, é prova disso. “Eu uso fios crespos e brancos como resistência. Eu me sinto mais bonita e mais jovem. Era uma escravidão. Quando mais nova, alisava e me sentia artificial”.

Quem adere, nem sempre recebe apoio. “Eu fazia progressiva e há quatro anos deixei o crespo. Vejo olhares tortos, só que me sinto livre. A gente conhece a si mesmo e nossa origem. Até na família tem gente que diz apoiar, mas reclama que está muito armado. Eu nem ligo”, ensina a estudante Vitória Shimiguel.

Engajada, ela levou para a marcha a amiga, Ana Júlia Nascimento. “Aqui estou me sentindo acolhida com meus cabelos enrolados e coloridos!”.

E o assunto não atinge só mulheres. “Vim porque é uma questão de representatividade. Sempre gostei do meu cabelo, mas o racismo sobre o visual atinge também os homens”, disse Fernando Pereira da Silva.

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