Bairros

Entidades devem fechar o ano no vermelho

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 12 min

Samantha Ciuffa
“Crise antigiu as entidades assistenciais”, diz José Paulo Bufeli, da Associação das Entidades

As entidades assistenciais desempenham um papel de fundamental importância em Bauru, preenchendo, inclusive, as lacunas deixadas pelo poder público. Porém, 2016 tem sido um ano bastante difícil para essas instituições, segundo analisa o próprio presidente da Associação das Entidades Assistenciais e Promoção Social (Aeaps), José Paulo Bufeli.

Ele acredita que a atual crise financeira nacional “desanimou” os doadores voluntários, já que houve uma queda brusca na ajuda, de maneira geral.

“O povo está pensando mais em cortar gastos e as ajudas estão entre as primeiras coisas a serem cortadas, além dos supérfluos. É claro que nenhuma instituição está em situação confortável, mas temos algumas que estão em situação de risco mesmo, como é o caso da Associação de Apoio às Pessoas com Aids de Bauru (Sapab), que não está recebendo verbas do governo”, aponta (Leia mais na página 2).

Ainda segundo José Paulo, o repasse de verba para as entidades foi menor em 2016. Ele exemplifica com as creches, cujo repasse foi de 6,5%, de acordo com ele, ficando bem abaixo do dissídio dos professores, por exemplo, que foi de 11%.

Já o trabalho voluntário não tem diminuído, segundo avalia o presidente da Aeaps. “É a ajuda financeira que prejudicou todo mundo mesmo. Para 2017, as expectativas não são das melhores. Mas vamos aguardar para ver o que o novo governo fará. Parece que há uma boa vontade, o que nos deixa otimistas, inclusive já houve um primeiro contato que nos faz pensar positivamente”, espera.

A entrega do dinheiro da arrecadação da Festa do Sanduíche Bauru, realizada no fim de outubro, deu um fôlego a mais para as entidades assistenciais, conforme lembra José Paulo. “Foi um bom reforço, principalmente na ajuda do pagamento dos décimos terceiros salários. Mas, mesmo assim, a situação não deixa de ser preocupante”. Vale lembrar que a Festa do Sanduíche Bauru, que ocorre durante o Viva Bauru, no aniversário da cidade, é realização do JC, Confiança Supermercados  e Prefeitura Municipal

CRIATIVIDADE

Para não fechar as portas, as entidades assistenciais se desdobram e colocam a criatividade para funcionar com as promoções feitas ao longo do ano.

“É até assustador ver como esse pessoal luta para manter a ajuda a quem precisa. Há algumas ações coletivas, como o Jantar Fraternal do Confiança, a própria Festa do Sanduíche Bauru, a Casinha do Papai Noel, as cartinhas dos Correios... E há as ações que cada uma delas faz individualmente, como pasteladas, jantares, festas temáticas. É um reinventar-se para continuar na ativa”, finaliza.

Sem ajuda, Sapab pode até fechar

Sem recursos da Prefeitura Municipal de Bauru, a entidade apela por doações; a associação é a única na região a abrigar soropositivos

Samantha Ciuffa
Com capacidade para 12 adultos, Sapab está com cinco
“Com dívida em torno de R$ 181 mil”, Sapab não recebe repasse do município e periga fechar as portas”, preocupa-se o conselheiro fiscal da instituição, Rogério Rodrigues

A maioria das entidades aponta que fecharão o ano no vermelho, mas a Associação de Apoio às Pessoas com Aids de Bauru (Sapab) vê o cenário ainda pior, com risco até mesmo de fechar as portas.

“Fizemos uma reunião recentemente com o procurador geral da prefeitura para tentar um acordo para ver de que forma podemos equacionar a dívida que temos com a prefeitura para que possamos, no próximo ano, retomar os convênios. Porém, ainda não tivemos uma resposta, e a nossa situação é bastante difícil. Nos passaram o valor corrigido da dívida que está em R$181 mil”, destaca o conselheiro fiscal da instituição, Rogério Rodrigues.

A dívida é resultante do início de 2015, quando a entidade foi descredenciada da prestação de serviços e deixou de receber recursos da prefeitura, da ordem de mais de R$ 500 mil anuais, na época. Para retomar os convênios interrompidos, a Sapab busca alternativas para pagar a dívida e não fechar as portas.

Segundo Rodrigues, o descredenciamento foi feito em 2014, quando a prefeitura não aceitou as prestações de contas da entidade. “Ficamos inadimplentes e sem condições de pagar o débito. No início de 2015, a dívida era de R$116 mil e agora passou para R$181”.

Apesar de ter capacidade para abrigar 12 adultos, a Sapab está com cinco. Eles contam com atendimento total 24 horas por dia. E somente três funcionários para tudo. Profissionais que estão sem receber os salários há quatro ou cinco meses.

FÔLEGO

Fundada há 24 anos, a entidade agora funciona somente com doações de voluntários e eventos. “Fizemos a feijoada fraternal há poucos dias e isso nos ajudou muito. A mídia tem nos ajudado a divulgar nossos eventos e necessidades”, comenta Rodrigues.

Divulgação 
Voluntários são essenciais para a “saúde” de entidades; na foto, o grupo Voluntários em Ação realiza festa para os abrigados do Paiva 

Toda ajuda é bem-vinda para a manutenção da casa. Além de dinheiro, alimentos e serviços voluntários (para os eventos) são fundamentais. Roupas também podem ser doadas para um bazar.

“Mesmo com todas essas ações, nós precisamos voltar a receber os recursos do município para continuarmos vivos. Ainda estamos passando por ações trabalhistas. Tivemos que dispensar funcionários quando perdemos o repasse municipal e estamos com 24 dessas ações. Quem puder nos ajudar pode nos procurar em horário comercial pelo telefone (14) 3238-4078”, grifa Rodrigues.

CHÁ BENEFICENTE

Neste domingo (13), será realizado um chá beneficente em prol da Sapab no salão da Igreja São Benedito, a partir das 14h. O salão fica na rua Bernardino de Campos, 3-80, Vila Falcão. Outros eventos serão realizados até o fim do ano.

Promoções e eventos beneficentes são fundamentais

Os projetos da Fundação Espírita Sebastião Paiva contam com grandes despesas, principalmente com fraldas, medicamentos e leite. Só de leite são cerca de 60 litros por dia. Para manter tudo em ordem, a verba vem do município e dos governos estaduais e federais.

“Isso por meio dos nossos programas. Mas, como todas as instituições, vamos fechar o ano no vermelho. E contamos durante todo o ano com a ajuda da sociedade”, acrescenta a presidente da Casa da Criança e diretora do abrigo para idosos Maria da Silva Rodrigues.

Segundo Ana Maria, as verbas que vêm não cobrem todas as despesas, por isso a necessidade de doações, ajuda de voluntários e a realização de eventos.

“Neste fim de semana, por exemplo, estamos participando da Feiramor. E, no próximo dia 27, a partir das 14h, teremos o nosso chá beneficente da Casa da Criança. Nós contamos com a colaboração da sociedade, que nos ajuda em todas as campanhas feitas”, pontua.

EXTRAS

Eventos beneficentes e promoções são fundamentais para cobrir folha e despesas extras, como é o caso de uma internação. Hoje, o Paiva oferece três serviços: o abrigo para idosos, o abrigo para crianças até os 6 anos de idade e um serviço de atendimento e assistência para famílias carentes, com cursos de geração de renda.

O abrigo de idosos está hoje com cerca de 100 moradores. O abrigo para crianças atende atualmente 30 pequenos, mas passará a atender 20 no próximo ano.

VOLUNTARIADO

Quem também ajuda a manter as entidades assistenciais vivas são os voluntários que, em Bauru, estão por todos os lados. “Nós temos uma grande ajuda dos Amarelinhos (do Grupo Irmã Sheila) na Casa da Criança, principalmente. Sem esses voluntários tudo seria mais difícil. Muito mais”, defende Ana Maria.

Ao menos uma vez por mês, o grupo Voluntários em Ação realiza ações para os idosos, de modo especial. Eles levam distração e alegria para os abrigados com festas temáticas, aniversários e outras ações.

29.ª edição da Feiramor continua hoje

Desde esse sábado (12), Bauru recebe a 29.ª edição da Feiramor, promovida pela União das Sociedades Espíritas (USE) de Bauru e região. O evento tem entrada franca e está sendo realizado na sede do Consórcio Intermunicipal de Promoção Social (Cips).

A organização espera reunir cerca de 5 mil até o fim do dia. Ao todo, 27 grupos de diversas entidades espíritas de Bauru e região estão distribuídos entre os 42 espaços de comercialização de produtos, incluindo a venda de artesanatos, o “carro-chefe” do evento.

Além da praça de alimentação, um almoço por quilo está sendo servido, das 11h às 14h. Hoje, haverá macarrão com molhos diversos e frango assado. A renda arrecadada fica com as entidades responsáveis pelas barracas para benfeitorias e manutenção. Está programado, também, bazar da pechincha com variedade de produtos. A renda será revertida para a Casa da Criança da Fundação Paiva.

Serviço

A Feiramor segue neste domingo (13), até as 21h, no Cips Bauru, localizado na quadra 2 da rua Inconfidência, Centro. A entrada é gratuita e os visitantes pagam somente os produtos que consumirem. Mais informações é o (14) 3021-2608.

Gazzetta promete ampliar repasse

Além de aumentar a verba, prefeito eleito pretende regulamentar  parceira entre poder público e entidades; avaliação deverá definir novos valores

Malavolta Jr.
Clodoaldo Gazzetta: ‘Entidades fazem até mesmo aquilo que a prefeitura deveria fazer’ 

O prefeito eleito Clodoaldo Gazzetta (PSD) afirma que seu governo vai olhar e apoiar as entidades. Ele destaca que elas fazem até mesmo aquilo que a prefeitura deveria fazer e não tem condições e estuda ampliar o valor orçado em 7% (para 2017), principalmente para as entidades conveniadas com a Secretaria de Educação.

“Essas instituições ajudam muito a prefeitura e a sociedade. Já estou em contato com o prefeito Rodrigo Agostinho para tratar, entre outros assuntos, deste. Pretendemos ampliar o repasse até porque ele teve uma defasagem nos últimos anos. Estamos estudando essa possibilidade”, comenta.

De acordo com Gazzetta, nos próximos dias ele deve receber uma avaliação que definirá os possíveis valores dessa ampliação e quais seriam os impactos para a prefeitura com o aumento dessa margem já para o ano que vem.

“Estamos falando sobre as entidades conveniadas com a Secretaria de Educação, principalmente, as demais, com convênios com a Sebes e Saúde, têm repasses específicos e não entram no viés que estamos tratando aqui”, explica.

TALVEZ 10%

O resultado da avaliação, que está sendo feita pela Secretaria de Finanças, deve ser anunciado nos próximos dias e uma reunião deve ser marcada com os representantes das entidades.

Segundo Gazzetta, ainda não há números exatos para serem divulgados, entretanto, o atual prefeito Rodrigo Agostinho acredita que será possível fazer uma emenda aumentando de 7% para 10% o valor do repasse.

Ainda segundo Gazzetta, a ideia, além de ampliar essa parceria, é regulamentá-la entre o poder público e as entidades para que se possa ter um melhor desempenho na prestação dos serviços oferecidos.

Descontente com repasse, Afapab pede descredenciamento do convênio com prefeitura

Alex Mita/Arquivo JC
Integrante da diretoria da Afapab, Thaís Borges Savi comenta que entidade pediu o descredenciamento do convênio com a prefeitura porque valor não estava se adequando aos atendimentos realizados 

Recentemente, a Associação dos Familiares, Amigos e Pais dos Autistas de Bauru (Afapab) pediu o descredenciamento do convênio oferecido pela prefeitura, por meio da Secretaria de Saúde. A entidade alega que o valor, sem reajustes há um bom tempo, não estava se adequando aos atendimentos feitos pela entidade.

“Em outras palavras, o convênio feito principalmente para pagar os funcionários da saúde não estava compensando, porque ele exigia que esses profissionais atendessem um número determinado de crianças externas, e a criança autista precisa de um certo número de horas de atendimento semanal para ter evolução. Para suprir a demanda que o convênio estava exigindo, estávamos dando prioridade para crianças de fora. E o dinheiro que vinha era baixo e sem reajustes, insuficiente para os profissionais atenderem, também, pelas horas que nossas crianças necessitam”, narra Thaís Borges Savi, integrante da diretoria da casa.

Ainda segundo Thaís, o valor repassado pelo convênio era de R$12.500, enquanto que os gastos da Afapab giram em torno de R$30 mil mensais.

A Afapab, que é uma escola de educação especial para a criança autista, oferece atendimento pedagógico e multidisciplinar para cerca de 15 crianças e adolescentes, diariamente na escola, além dos atendimentos semanais para a comunidade com pediatria e psiquiatria. O diagnóstico precoce é feito para identificar o autismo nas crianças e começar o atendimento o quanto antes.

Atualmente, a equipe gira em torno de 12 profissionais, entre voluntários e funcionários. Boa parte da renda da instituição vem de doações conseguidas através do telemarketing, doações espontâneas, pais que colaboram e eventos beneficentes.

NO VERMELHO

Divulgação
A Afapab é uma escola de educação especial para a criança autista 

Sempre no vermelho. Assim é o fechamento anual da Afapab, segundo comenta Thaís. Como em outras entidades, também foi nítida a queda no número de doações, em 2016, por lá.

“Notamos uma diminuição de ajuda até mesmo no número de vales de comida vendidas e nos ingressos dos bingos promovidos. No próximo dia 20, a Afapab fará o almoço fraternal oferecido pelo Confiança Supermercados. E, até o fim do ano, outras promoções virão. Uma delas é um encontro de corais na hípica, que arrecadará materiais para a associação.

Entre as doações necessárias para manter a associação funcionando, estão os materiais de escritório e escolar, usados em grande quantidade nas aulas.

“Como as crianças não almoçam lá, alimentos não são uma grande necessidade. Para 2017, estamos querendo pintar o prédio e terminar a reforma do banheiro, então precisamos de ajuda com material para essas obras e também de mão de obra. E, é claro, que também precisamos de recursos financeiros, porque toda entidade tem contas atrasadas, como aluguel... Acho que todo mundo está passando por isso”, aponta, Thaís.

Entidades realizam trabalho de extrema importância, destaca titular da Sebes 

Douglas Reis
“Entidades cooperam com o município e realizam um trabalho de extrema qualidade”, grifa a titular da Sebes, Darlene Tendolo 

A titular da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo, destaca o papel fundamental das entidades no município para o atendimento e ajuda aos que que têm vulnerabilidade.

“Muitos dedicam boa parte de seu tempo ao trabalho voluntário e cooperam com o município na realização de um trabalho de extrema qualidade. Bauru é uma cidade muito solidária”, destaca. Sobre as necessidades financeiras dessas instituições, a secretária aponta a crise econômica nacional como um agravante, neste ano. “Por mais que se tenha convênios, as entidades têm muitas despesas no fim do ano e as doações da comunidade diminuíram com a atual crise financeira. A crise também fez aumentar o número de atendidos”, acredita.

Ainda segundo a secretária, a prefeitura, junto com a sociedade, tem ajudado como pode para amenizar a falta de recursos: “É o caso, por exemplo, da Festa do Sanduíche Bauru, um momento especial de grande ajuda. Eu acredito que no próximo ano tudo vai melhorar, precisamos ser positivos e estarmos envolvidos com o cenário”, defende. 

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