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Progresso ou delírio?

Silvio Motta Maximino
| Tempo de leitura: 3 min

"É preciso crescimento econômico!" Você provavelmente já ouviu esse mantra. Ele ilustra a visão de mundo na qual nascemos e vivemos. Qual paradigma introjetado culturalmente que para muitos tornou-se o "óbvio inquestionável"? Nesta visão, a solução dos problemas sociais (desemprego, miséria, violência etc) exige dos diversos setores, "crescimento econômico e desenvolvimento". Quem discordaria desse binômio?

O desenvolvimentismo é o totem sagrado de nosso tempo. Desafiá-lo é grave pecado, blasfêmia, heresia. A ideologia nos conclama a produzir e também a consumir mais. É então que surge um probleminha básico: até a capacidade de consumo das pessoas tem seu limite. Que fazer? A solução nefanda nasceu ainda na primeira metade do século 20, quando alguns iluminados conceberam o espantoso conceito da "obsolescência programada" (ou planejada) que salvaria as economias de um colapso: reduz-se propositadamente a vida útil de um produto para, assim, aumentar o consumo de versões mais recentes. Isto é: o próprio fabricante planeja deliberadamente o "envelhecimento" daquilo que produz.

Após o prazo estipulado, o produto (geralmente ainda seminovo) vai se quebrando ou tornando-se obsoleto. Isso se aplica a praticamente tudo: de suas meias de nylon às lâmpadas de led, de impressoras a peças de automóvel, de celulares a liquidificadores, de computadores a colchões... A propaganda midiática faria o resto do trabalho sujo, induzindo-nos a nos sentir imperfeitos e sempre insatisfeitos, nos acenando com novas falsas "necessidades". A única saída para o gado humano: consumir ainda mais, sem questionar...

Por sua vez, para atender a demanda (artificialmente estimulada), requer-se mais, muito mais recursos naturais (commodities, se preferirem). Mais petróleo, mais carvão, mais matérias-primas, hidrelétricas...sempre mais! Torna-se moralmente aceitável, desejável e admirável, explorar, exaurir, extrair, subtrair, sugar, arrancar, fissurar, depenar, esfolar, auferir... lucrar!

Eis a lógica do jogo, no qual o gado humano é vacinado: ganhar mais para consumir sempre mais. Há que se buscar o topo! American way of life! Ativos e derivativos! Blue chips! Superavit! PIB! Dividendos! Tudo, enfim, reduzido a cifras digitais num extrato bancário. Mas índices estatísticos e papel-moeda matam nossa fome física e psíquica? Se tivermos sede, o que faremos? Beberemos a liquidez de nossos investimentos financeiros?

Já que falamos de sede e "liquidez", citemos a recente e talvez pior crise hídrica da nossa história. Ao mesmo tempo, descobrimos que a indústria consome de 3 a 7 litros de água para produzir uma única garrafa plástica descartável, que acondicionará por alguns dias um único litro de água. Agora, considere que só no Brasil, são produzidas 550 mil toneladas de garrafas PET por ano! Essa "água virtual", consumida durante o processo de produção de tantos supérfluos, está "oculta" a nossos olhos. Reciclar é interessante, mas não irá nos redimir diante do exponencial crescimento demográfico. Mesmo pequenas ações antrópicas, amplificadas em escala mundial, produzem efeitos catastróficos. Tudo que consumimos deixa uma "pegada hídrica", e assim, uma pegada ecológica gigantesca.

Agora, tentem calcular quantos recursos já desperdiçamos com nossa ânsia por aceitação social. Pensem na quantidade de bugigangas que usamos para reforçar nossa frágil autoestima e sustentar nossa primitiva identidade egóica. Qualquer inteligência mediana percebe que a obsolescência planejada, somada aos crescentes níveis de produção e consumo, são absolutamente imorais e escandalosos. Cronicamente viciados em consumir e fisgados pelas chantagens emocionais midiáticas, nos "aliviamos" a cada data festiva do calendário.

Concluímos que a abjeta ideologia do crescimento predatório não se sustenta por uma razão simples e trágica: nosso ego é apenas insaciável. Compreendamos o mecanismo de nossas ânsias e compulsões. Perdemos o foco quando abraçamos ideologias sociológicas que culpabilizam exclusivamente aos governos e políticos, à crise econômica capitalista ou à ameaça comunista... quando a real ameaça e a óbvia solução passam pelo elemento humano que está por trás de todos os sistemas e estruturas sociais. Nossa atual conduta está implicando em sofrimento para muitas criaturas. Sem motivo plausível, não temos o direito de destruir ou causar qualquer sofrimento. Essa é a única ética possível. Ou a abraçamos ou desaparecemos.

O autor é palestrante e professor de filosofia e antropologia. http://oficina-de-filosofia.blogspot.com.br/

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