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As tonalidades da intolerância

Cristina Ramos
| Tempo de leitura: 2 min

Antes de esclarecer minha opinião sobre o artigo que trata do último tema de redação do Enem publicado ontem neste espaço, saúdo o colega editor e o autor do texto, ou aquele fizer as vezes de ouvidor para minha réplica. Compreendo que o texto que critico foi publicado em coluna intitulada "Opinião", e não é minha intenção atirar pedras a qualquer veículo que, tão prestimosamente quanto o JC, abre espaço ao exercício da livre imprensa e livre expressão, comprometido qualitativamente com seu público e com a informação veiculada. Entretanto, bem certo estava Sócrates (o filósofo) ao dizer que a "Opinião" nada mais é do que o meio termo entre o conhecimento e a ignorância.

Nessa perspectiva, vejo que o senhor autor do texto foi imensamente infeliz ao expor fatos infundados sobre o grau de tolerância do brasileiro. Ao admitir como certo que "o nosso País é um dos mais tolerantes em matéria cultural e religiosa" (sic) não somente faz uma alegação dúbia sem embasamento histórico, ignorando séculos de repressão e sufocamento de culturas autóctones e minorias étnicas, como induz o leitor incauto, alheio às realidades cruentas do país em que vive, pois somente uma pessoa em grave nível de alienação poderia supor verdadeiras tais afirmativas - a aprofundar-se em seu isolamento moral e cultural, tomando como certa uma visão otimista, mas também sintomática de grande egoísmo.

Penso que a tese do autor se baseia num ponto de vista comparativo que, de alguma forma, torna verídico o argumento de que "nunca existiu entre nós níveis de hostilidades e agressões por motivos religiosos como ocorrem em outros países". Entretanto, é forçoso tomar por correta esta informação, baseada na obra de Gilberto Freyre, quando se conhece os eventos históricos que deram origem a nossa cultura.

Um país colonizado pelos chamados cristãos novos (tema tratado, inclusive, na obra de Freyre); que experimentou genocídios de comunidades indígenas; que por séculos reprimiu as culturas afro brasileiras, forçando-as a assumir uma fachada cristã para, afinal, permitir um livre exercício religioso que pouco ou nada oferece de inclusão social, ao meu ver, pode com facilidade ser comparado a países intolerantes e extremistas.

Faço um apelo não só devido à imprecisão histórico-cultural do texto publicado, mas principalmente devido ao sentimento de injustiça e abandono que invade a mim e, provavelmente, a muitos outros cidadãos brasileiros ao lê-lo.

Pintar o Brasil em vívidas cores verde e amarela é um gesto nobre e talvez até mesmo necessário para enfrentarmos o atual quadro de depressão social que vivemos.

No entanto, não podemos perder de vista que o contato com a realidade é essencial para o desempenho da cidadania. Ao se dirigir ao público alvo do artigo - potenciais estudantes e vestibulandos - é fundamental que se ofereça um quadro real e sincero, pois mais que as belas cores da esperança e prosperidade, o que esse jovem leitor encontrará nas ruas são os tons sombrios de intolerância e repressão contra os quais deverá agir.

 

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